Cotidiano Crônico
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Terça-feira, Novembro 24, 2009


Papudibuteko

Um “tique”, um involuntário impulso do corpo: o espirro. Uma espécie de transe pelo qual passamos por alguns milésimos de segundo, uma forma transcedental que seu corpo inventou de expulsar ar.

Tem do tipo espaçoso, “virótico”. Sofrem os que estão à volta do que profere o atchim fatal: saem todos molhados ao fim do ato. É espalhafatoso, cruel. E às vezes um paradoxo ao qual o dono - tímido e discreto – é obrigado a se expor constantemente. Um sutil sujeito e seu espirro colateral.

Existe, porém, o seu contraponto: o contido. Esse dá nervoso a quem vê. O rosto da pessoa anuncia a explosão - que nas horas impróprias a gente tenta ignorar. Você toma distância, uma autodefesa imunológica. Mas assiste a um gestual rígido e um discreto barulho, um quase rangido entre-dentes. Quando eu era criança achava que espirro preso cobrava sua dívida mais tarde. Voltaria depois com uma intensidade ainda maior – tipo a dor de barriga.

Aliás, falando em caras e bocas, a expressão de um pré-espirro é única. Desfigura, desconcerta qualquer um. Um dos mais engraçados a que já assisti é o do meu cachorro: a pata dianteira direita se levanta, um olho fecha, e umas três cafungadas pra dentro depois vem uma “tosse” de ar, que o faz baixar a cabeça até o chão. Depois ele levanta o pescoço, com uma cara chapada de alívio, comum a todos nós (bichos e homens).

Tem gente que adora espirrar. Tem gente que odeia, e aqui se destacam os afligidos pela rinite alérgica. Para esses últimos, é um calvário, quase diário, anexado a uma série de sintomas, garganta e nariz coçando, olhos lacrimejados.

Eu fico no grupo dos que gostam - e olha que espirro bastante. Os meus costumam vir pelas manhãs, uma forma que meu corpo reage aos primeiros raios de sol. Descobri na minha busca por cultura - da dita - “inútil”, que isso se chama reflexo fótico. É um "engano" do seu organismo e, mais que isso!, um dos mistérios ainda não explicados pela Ciência. Até hoje não se sabe ao certo qual é sua causa.

Outras curiosidades:
- Em alguns países do Oriente Médio, e outros como Rússia, Hungria e Eslovênia o espirro pode ser interpretado como uma confirmação de Deus sobre a veracidade do que foi dito por você anteriormente.

- Enquanto no Japão muitas pessoas acreditam que o espirro é um aviso de que estão lhe difamando, na Índia dizem que você está sendo lembrado por alguém querido. Por lá, inclusive, não “saber” espirrar –sinal de vitalidade - é visto com espanto e tem até nome científico: asneenzia, tratada com o cheiro do tabaco.

-É impossível espirrar de olho aberto.

- Existem várias estratégias para se evitar um espirro. A maioria não funciona.

- A origem do “Saúde!”, que lhe desejam após um espirro, é um “Boa sorte” para você no combate à doença que já acusa sua chegada.

- Um espirro pode chegar a 160 km/h. Prendê-lo pode causar até a ruptura dos tímpanos!

Vai um lencinho aí?


Chico, iniciando sua expressão de pré-espirro

Veja: Aconteceu em Woodstock (Ang Lee)
Ouça: Os dentes brancos do mundo (Zélia Duncan)



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Sexta-feira, Novembro 13, 2009


Condicionado ar (e os apagões da rotina)

Já falei disso. Mas tenho que falar de novo porque não consigo deixar de achar incrível dia, ou melhor, noite como a do último apagão.

É quando fica mais incontestável a presença de uma “inconsciente” rotina, rituais que não são só meus. Mas compartilhados por todos nós – ou ao menos pela grande maioria de nós. Nossos inevitáveis e repetitivos atos diários.

Falei sobre isso com outras pessoas e percebi que todos, até agora, passaram por situações semelhantes, tiveram uma sensação parecida de “desrotinização” nessas poucas horas sem luz elétrica.

A coisa se agrava porque hoje em dia isso significa ficar sem computador, televisão, geladeira, elevador, ventilador... iluminação! Dentre outros elementos “vitais” ao nosso dia a dia.

E pensar que muita gente achou que era coisa de “magia” quando Thomas Edison (1879) criou a primeira lâmpada elétrica – que funcionou por dois dias seguidos! Magia arrebatadora essa.

No dia do apagão, aqui em casa, depois da janta, já estávamos devidamente confortáveis, em nossos cômodos particulares, casulos de ar condicionado e televisão. De repente a falta de luz embaralhou tudo. No fim, eu dormi embaixo da janela da sala sentindo a discreta brisa que correu depois da chuva. Tive um sono ótimo e acordei ao som de uma cantoria frenética de passarinhos que saudavam a bonita manhã que nascia.

No quarto, vi que meu irmão dormia ao contrário na cama, em busca também de ar fresco. Ele foi um dos que mais curtiram a escuridão e o silêncio, aliás. Do jeito que estava, apagou, virando-se apenas em direção à janela.

Antes disso, assim que a luz se foi, nos reunimos no apartamento ao lado, onde moram meus tios e primos. Jogamos um pouco de conversa fora, falamos de amenidades. E colocamos o celular em cima da mesa, à luz de velas, ouvindo as notícias que saíam do radinho do aparelho (um baita acessório, conforme me dei conta esse dia). A cada informação nova, um burburinho: não é só aqui na rua! Não é só aqui no bairro! Não é só no Rio! Não é só no Brasil!?

Uma família inteira reunida em volta do rádio que, em plena era digital, deve ter tido uma das maiores audiências dos últimos tempos. Dava para sentir na voz empolgada do narrador-âncora. Uma noite que me fez remontar umas cinco ou seis décadas atrás, quando as ondas radiofônicas despertavam essa excitação, essa confidência e cumplicidade entre a “caixinha” e o pé do ouvido de alguém.

Na casa de outra tia ouvi dizer que meu sobrinho jogava objetos inusitados no tio, que o caçou às cegas durante um bom tempo. A brincadeira durou quase uma hora, antes de dormirem - todos juntos - na sala da casa onde moram, em frente a uma imensa janela e um gramado refrescante.

Na casa de um amigo do trabalho teve sessão de piadas. Falei com gente que jogou baralho à luz de velas (que apagavam a cada jogada mais empolgante). Teve maluco que pegou a bicicleta e foi dar um rolé na penumbra! Teve momento de intimidade caliente - e um chute na bunda da mesmice! Nessas horas quem nunca esbarrou com um vizinho no corredor do prédio pedindo uma vela? E por que a lanterna nunca tem pilha quando você precisa? Isso se você achá-la.

Loucura também é nosso vício em apertar os interruptores, que permanece mesmo sem luz. Você entra no banheiro, tasca o dedo e “plim!”. Nada acontece. Como quando tentamos saber as horas no pulso em que já não há relógio.

Morar sozinho durante um apagão não deve ser legal.

E a desordem generalizada a cada esquina? Um buzinaço sem rumo, explanando nossa falta de bom senso, tão dependente de duas luzes que não pensam, apenas piscam em intervalos calculados: verde, vermelho. Siga; pare. Sem elas, a anarquia desvairada, nosso egoísmo em seu habitat natural: o trânsito.

Mas que fique claro, não estou fazendo apologia à escuridão e nem sou um ardoroso inimigo da eletricidade, pelo contrário. O que me desperta a curiosidade são as regras invisíveis da vida. Nossa infalível zona de conforto; nossa rotina discreta; nossa incapacidade de ordem natural; nossa tendência ao caos.

Não devia se chamar apagão. É uma escuridão que ilumina o que está ali, no escuro.

Leia: O cru e o cozido (Claude Lévi-Strauss)



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Terça-feira, Novembro 10, 2009


Pé de favela
Escolhi trabalhar numa escola localizada na entrada do Morro dos Macacos (Vila Isabel). Queria conhecer de perto uma parte da realidade não só da educação, mas do próprio Brasil, renegada quase que ao noticiário policial.

Nove da manhã. Dia de sol bonito, tipicamente carioca. Os adolescentes de 12, 13 anos eram organizados em filas na entrada da escola para que embarcássemos, em seguida, num ônibus particular. O destino: uma visita guiada ao Museu da República.

De repente, um burburinho. O primeiro grupo de adolescentes que estava à frente da fila, passa batido em direção ao interior da escola, alertando: a polícia! Alguns deles exibiam um estranho sorriso de excitação, como que avisando: “a brincadeira vai começar”.

E começou mesmo. A primeira rajada que ouvi (e vi), logo depois do aviso dos meninos, recebi com certa incredulidade. Em seguida, já era uma dezena de policiais, que passava em frente ao portão da escola. Vultos que apontavam o bico dos seus fuzis logo acima das cabeças das crianças.

A delegacia fica ao lado da escola. Mesmo assim, nenhum aviso foi dado. Muito menos algum pedido de desculpas veio depois – seria o mesmo se tivesse acontecido em frente a uma instituição particular

Enquanto a bala comia do lado de fora, fiquei com os alunos, que se protegiam sentados nas escadas que ligavam o andar de cima ao pátio principal. Paredes. As maiores aliadas deles nessa hora. Foi nessa hora que pude conferir de perto a reação dos pequenos diante daquela situação nova para mim (amedrontado e encolhido), e tão comum a eles (completamente à vontade).

Dois meninos, empunhando seus cadernos como fuzis (cena mais do que recorrente no dia a dia da escola), corriam um atrás do outro. Simulavam o bang bang que podiam ouvir lá fora, entre um enorme grupo de crianças espremidas nas escadas, num ambiente que misturava perplexidade, euforia e brincadeira. Muitos, repito, se divertiam.

A brincadeira das crianças contrastava com o desespero dos professores. Um deles, que vivia a me alertar sobre os tiroteios recorrentes, se dirigiu a mim gritando: “Agora sim você está vendo a nossa realidade!”

Bizarramente, passados menos de 10 minutos do susto inicial- e quando ainda podíamos ouvir o barulho do confronto entre policiais e traficantes, que agora se enfrentavam mais acima da favela - muitos alunos queriam ir embora. O desafio era, então, mantê-los lá dentro.

Fiquei responsável por levar um grupo do 6º ano para uma das salas seguras e ocupá-los com um filme até a “poeira baixar”. A professora me passou um DVD: A casa monstro. A história resumidíssima: dois meninos moradores de um típico subúrbio norte-americano - da mesma faixa etária dos alunos, diga-se de passagem - descobrem uma casa mal assombrada no outro lado da rua e tentam avisar aos demais moradores. A animação de alta qualidade e criativa, no entanto, não despertou NENHUM interesse dos alunos. E logo percebi por que: casas mal assombradas não fazem parte da lista de medos comuns por ali. O caveirão sim. O filme, enfim, não correspondia em nada à realidade deles, um imaginário infanto-juvenil permeado por elementos incrivelmente distantes dos de uma criança ordinária, comum; retratados toscamente naquela manhã de tiroteio em frente à escola. Segurá-los naquela sala tornou-se, assim, quase impossível.

Aos poucos, depois de 3 horas do ocorrido, as crianças começaram a ser liberadas para subirem a favela em grupo ou com algum responsável. E quando já não havia quase mais ninguém na escola fui até o portão e me deparei com um sujeito branco, bem vestido. Logo percebi quem era:

- O que aconteceu? As crianças estavam saindo para um passeio? Os policiais atiraram mesmo com elas à frente?

Um repórter. Eu, ao contrário do silêncio que reinava, resolvi contar tudo – minha declaração, inclusive, saiu n’O Globo do dia seguinte. Quando entro na escola sou repreendido pelos demais funcionários, mas logo consigo convencê-los sobre a importância de tornar público esse tipo de truculência policial - que colocou em risco a vida de várias crianças - com uma simples pergunta: e se fossem os filhos de vocês?

Mas logo entendi que voz silenciada é lei naquele lugar. Um silêncio parecido com o que pude "ouvir" durante o caminhar na volta para casa. O restante da cidade continuava acontecendo, parecia que nada acontecera a alguns metros atrás. Senti-me covarde – talvez um indício de ex-covarde.

Numa rua logo ali crianças davam bom dia e boa noite à desigualdade, ao desleixo, à violência, ignorância, truculência. Ao sangue esparramado no chão, aos buracos de bala em suas portas. Algumas ruas à frente, tudo mudava. Como pode essa convivência entre ambas as coisas acontecer de forma tão natural, banal?

Coisas do Rio de Janeiro; coisas do bicho homem.

Veja: Ghetto (Audrius Juzenas)
Ouça: Soldado do Morro (MV Bill)



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Terça-feira, Novembro 03, 2009


As pedras, as flores e o meio disso tudo

Em alguns míseros dias:

1 – Contei uma baixaria que a namorada de um amigo havia feito com ele. Perdi o amigo; ganhei dois inimigos.

2 – Ajudei a primeira menina que beijei depois do término de um namoro de 6 anos a escrever uma carta de amor - que não deu certo.

3 – Mandei uma mensagem de celular com menos de 10 caracteres para um grande amigo que iria ter um final de semana decisivo para seu relacionamento. Soube depois que o casamento estava a salvo. Mas o tamanho da força daquela pequena mensagem é que ainda me surpreende. A cada agradecimento dele – orgulhoso da nossa cumplicidade espiritual naquele instante – a minha prova final sobre a verdade da arte dos pequenos gestos.

Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo. Aprendendo a jogar...

Veja: Frost/Nixon (Ron Howard)



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