Estar bem acompanhado, mesmo que num mundo metafísico.
Seis minutos para se pensar.
Ouça: Sorri (Djavan, letra de Charles Chaplin)
Veja: Geraldinos e arquibaldos (Gonzaguinha)
Leia: Os bestializados (José Murilo de Carvalho) posted by RFerraz
12:47 PM
'Um homem atormentado caminha pela cidade. Aos poucos, ele vai construindo seu destino, numa jornada apaziguadora, mas ao mesmo tempo desesperadora.'
Uma história comum transformada na mais bela poesia musicada que eu já vi.
O nome, Construção, pode ser interpretado de diversas maneiras: a construção onde trabalha o protagonista, a construção literária da própria música - misturando as últimas partes das frases - , a construção do nosso sistema, a construção da história daquele homem naquele dia...
Enfim, sutil, bonito e simples. E, por isso mesmo, genial.
Construção - Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague posted by RFerraz
1:20 PM
O cara mais underground que eu conheço é o diabo. O mais estereotipado é o entregador de flores.
Na rua ele passa, de um lado a outro. Leva arranjos de rosas com lírios, cestas repletas de orquídeas, buquês de flores do campo embrulhadas em papel de seda. Carrega mais que isso: uma reconciliação, uma saudade, um agrado cotidiano. Cuidado. Conquista. Reconquista. Anonimato. Desprezo. Paixão. Insônia. Fetiche.
E vai ele, no meio da multidão, as flores nos braços, a delicadeza da flora em meio à fauna da cidade. Segue sem saber o que ele irá encontrar pela frente. Uma mulher surpresa. Uma moça ressentida. Um coração partido. Um desprezo glacial. A alegria apaixonada.
Na verdade ele nem liga mais. As flores que transporta são meros objetos carregados de sentidos que não lhe pertencem. É o que parece.
Mas tenho a certeza que lá no fundo daquele olhar cínico e despretensioso, vai uma alma carregada da incerteza do que leva nas mãos.
Repara só no próximo que passar por você.
Ouça: Tom Zen (Kevin Johansen)
Veja: Tempos Modernos (Charles Chaplin)
Leia: Carnavais, malandros e heróis (Roberto DaMatta) posted by RFerraz
1:08 AM
O intelectual argentino Claudio Katz é reconhecido mundialmente por suas análises penetrantes e polêmicas sobre a atual fase destrutiva e regressiva do sistema capitalista. Autor de vários livros, ele integra o coletivo "Economistas de Esquerda" (EDI) e hoje dá assessoria ao presidente Hugo Chávez.
Num dos trechos desta instigante entrevista, Claudio Katz analisa o papel da mídia hegemônica. Indica que as esquerdas, dos mais variados matizes, devem dar mais atenção aos meios privados de comunicação, que hoje exercem uma 'grande inquisição midiática' no planeta. Ao tratar da retomada da ofensiva da direita latino-americana, através de golpes, bases militares e conquistas eleitorais, ele destaca esta "novidade".
A influência despótica da mídia
A direita cultural, neoconservadora, latino-americana, governou a região durante décadas, e alimenta os governos militares, mantendo um pensamento elitista, liberal e eurocêntrico. Hoje, ela tem grande capacidade de manipulação midiática. Essa é a novidade. Porque governaram historicamente através da igreja, dos seus recursos, das suas escolas, e agora como têm os meios de comunicação sob o seu domínio, elas exercem uma influência despótica através dos mesmos.
Os meios de comunicação são agora o que foi a Igreja Católica?
Eles são a grande inquisição e exercem uma influência nefasta. Por isso me parece tão salutar e transformadora a decisão de Chávez de não renovar a licença da RCTV. Creio que essa medida é muito mais transcendente que qualquer nacionalização de uma empresa siderúrgica.
Com essa resposta, vão dizer que Claudio Katz é um tipo totalitário. Como você responde?
Dizem isso porque para eles manipular monopolisticamente um grupo de meios de comunicação é um exemplo de democracia. Há uma hipocrisia absoluta. Os donos dos meios de comunicação são um punhado de pessoas, um grupo minúsculo que não é eleito. É algo paradoxal, pois se todos os congressistas têm de ser votados e qualquer presidente e governador também, por sua vez os meios de comunicação, que têm um poder muito mais sólido e estável que todas as autoridades eleitas de qualquer país, e esses ninguém elege, são puro poder do divino. Dizem que competem entre si através da mudança dos canais, mas a oferta é minúscula. Ou seja, o telespectador pode optar entre a CNN e a Globovisión, mas isso nada muda, vêem o mesmo.
Como é possível democratizar os meios de comunicação na América Latina?
Do mesmo modo como se democratiza qualquer instituição. Os meios de comunicação não podem ser privilegiados em relação a outras instituições. Temos que democratizar a vida política, as escolas, as instituições, as forças armadas, a sociedade, tudo. Tem de haver uma preocupação cotidiana de acabar com as discriminações de gênero, de raça, de etnia. Na América Latina estamos mudando as constituições de muitos países para incorporar novos direitos, para incorporar os direitos esquecidos dos indígenas, da juventude, das crianças. Ou seja, o desenvolvimento da sociedade é a ampliação dos direitos. O único direito de que não se pode falar é o direito à comunicação. Esse quer ser intocável.
O sociólogo brasileiro Emir Sader, atual secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), dizia que os meios de comunicação, para serem democratizados, necessariamente teriam que passar ao controle do Estado. Concorda?
Creio que têm de ser propriedade pública. Mas, atenção, eles não podem ser manuseados por um governo, porque isso levaria a formas totalitárias. Há muitas experiências nos últimos 50 ou 60 anos de instituições públicas que não dependem do governo. O caso da BBC de Londres é muito comentado. Não o estudei, mas conheço muitas experiências onde o importante é que estejam sujeitos a um regime legal que impeça a sua manipulação pelo governo, por exemplo. Não podemos passar de meios manipulados por grupos capitalistas a meios manipulados por governos. Tem que haver liberdade informativa, mas também propriedade pública. Creio que há que discutir os mecanismos de propriedade democrática dos meios de comunicação.
'Basta pensar em sentir
Para sentir sem pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.'
Fernando Pessoa, 1932
Os homens aprenderam com Deus a criar.
E foi com os homens que Deus aprendeu a amar
Cordel do Fogo Encantado (Os anjos caídos) posted by RFerraz
9:49 PM
É engraçado como a gente percebe que o tempo passa. Às vezes nossas etapas de vida são marcadas por verdadeiros ‘ritos de passagem’ pra lá de simbólicos. O primeiro emprego, a perda de alguém querido, o nascimento de um filho, uma viagem, a saída de casa...
Quando percebemos, enfim, que há uma história (já longa) que nos precede é o primeiro indício de que sentimos o tempo passar. E essa nossa linha cronológica é marcada por fronteiras, divisórias tênues que separam, por exemplo, a juventude da vida adulta.
Percebi que tenho exatamente essa fronteira marcada pelo fim de duas bandas muito queridas: Los Hermanos e Lasciva Lula. A primeira já é conhecida. A segunda tinha um público fiel e apaixonado da cena independente que marcava presença em quase todos os shows. Cantava junto lá no gargarejo, fazendo coro até nos backing vocals.
São bandas que marcaram a minha geração. E o que considero ‘geração’ aqui neste caso é algo bem simplista e particular: os meus amigos, as pessoas próximas que compartilham comigo uma caminhada parecida e suas vicissitudes: as alegrias, conquistas, aflições, inquietações e incertezas.
As bandas em questão trilharam caminhos parecidos com os nossos. Característicos de uma geração nascida no século passado, na interseção entre um mundo analógico e digital. Lembro de nós, reunidos tantas vezes nos shows desses caras. Cantando até o limite da corda vocal os versos que eram entoados com um quê de cumplicidade e fé. Entorpecidos por algo de ebulitivo (que ainda há!), gerado pela incógnita de nossos futuros, a essa altura não mais tão distantes; ao contrário, já sendo trilhados, academicamente, profissionalmente, pessoalmente.
E de uma hora pra outra, os Hermanos se foram. O Lasciva também. Ambos pelo mesmo motivo: cada um dos seus integrantes resolveu pôr em prática seus planos, fazer acontecer suas utopias e sonhos. Sem renegar, no entanto, a importância do que viveram juntos, sem brigas, sem mágoas. Foram porque tinham que ir. Porque agora a vida adulta os 'chamava na chicha'.
Nós também.
Esbarrei com o vídeo, abaixo, do Felipe Schuery, ex-vocalista do Lasciva Lula - atualmente casado na Inglaterra. A música é uma das melhores desse que é um dos grandes ‘cronistas musicais’ (se é que isso existe!) da nossa geração: ‘A letra da canção desgovernada’. O som ficou baixo, mas a imagem desse cara no Hampstead Heath, em Londres, me inspirou.
Me fez lembrar sobre a importância de não acreditar em destino; de estar sempre pronto a atuar em nossa história; e saber o quanto é bom reconhecer na sua caminhada o prazer imutável de poder tê-la compartilhado com pessoas inesquecíveis: seus amigos.