Porque o mato não te ensina só sobre mato. Ensina sobre você mesmo. Naquele clima entre o inóspito e o primitivo, você se encontra com as suas origens, com o seu primitivo também.
Compreende que é parte. Não é todo. Do ‘insignificante’ inseto que anda debaixo dos seus pés até a dantesca árvore - passando por você, claro! - está tudo interligado.
Uma interdependência que fica evidente em detalhes. A água por exemplo. Um elemento trivial, no entanto, diretamente ligado... à vida! Sem a água nenhum dos seres acima sobreviveria – você, a árvore e o inseto.
Os abrigos, os pontos de descanso e alimentação, os trajetos enfim da travessia que fizemos em três dias (37km) entre Petrópolis e Teresópolis são planejados em função da água. Percebe-se, logo, a clara semelhança entre nossas escolhas e as escolhas dos demais animais à nossa volta. Somos bichos também, dos tipos, no entanto, que tem uma apurada capacidade de adaptação e maior poder de intervenção no ambiente. Somos, digamos, mais complexos... e autoconfiantes - e talvez seja essa nossa eterna condição e nossa própria tragédia!
Vi o desespero de um grupo perdido na soturna, gelada e traiçoeira noite da mata. Desnorteados, gritavam por socorro, balançavam lanternas que se transformaram num estranho show de luzes eufóricas ao longe. Quando resgatados representavam a cara do medo: o instinto de sobrevivência aflorado, olhos arregalados, a sujeira pelo corpo, a respiração ofegante. A fragilidade da vida sentida na pele.
Horas andando, viram minutos. O tempo é outro. Nada é simultâneo, apressado, ‘fast’. No mato, uma coisa de cada vez. O legal não é chegar, o excitante é percorrer! E durante o caminho absorver, se desconstruir na medida do desconhecido. Talvez por isso a distância de quilômetros se torna uma busca serena e rítmica que requer alguma dedicação. Mas uma dedicação diferente, uma mistura intensa entre o mental e o físico. E mais uma vez você percebe a relação óbvia entre sua cabeça e seu corpo. Está lá, evidente na sua condição mais natural - o que é facilmente aplicável na sua vida ‘de cimento’.
Mais bizarro ainda é voltar a essa tal vida ‘de cimento’ e perceber que é tudo ilusão. Que na verdade seu modelo de vida é regrado e elaborado a partir de um ponto de vista pragmático. Seu dia-a-dia, suas preferências, suas prioridades... tudo norteado por condições e objetivos, digamos, duvidosos. E assustadoramente subjetivos. A seta e o alvo.
Por debaixo de toda essa teia de coisas que ajudamos a construir é tudo rústico. No fim, na essência somos apenas bichos. Sedentos por encontrar nosso lugar no mundo. Lutando para sobreviver.
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Sobre viajar, aliás, uma grande frase extraída do documentário Língua: vidas em português , de Victor Lopes:
'No fundo, não estás a viajar por lugares, mas sim por pessoas.'
Mia Couto - Escritor moçambicano
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Na floresta durante todo o dia podia-se ouvir um som parecido com um apito. Era o canto do pássaro Namoradeiro. Ao cair da noite a fêmea escolheria um dos machos, apenas um dentre seus vários galanteadores. Os demais permaneceriam cantando por dias a fio. Até que chegasse um fim de tarde qualquer, já exauridos de tanto cantar, em que fossem finalmente os escolhidos.
Triste sina a do pássaro.
Leia: O Macaco Nú (Desmond Morris)
Veja: Na Natureza Selvagem (Sean Penn)
Veja: Por uma outra globalização - Milton Santos (Silvio Tendler)
Veja: Entre os muros da escola (Laurent Cantet) posted by RFerraz
6:13 PM
Durante os anos 80/90, a emérita professora da Escola de Comunicação da USP, Maria de Nazareth Ferreira, empreendeu pesquisas sobre o modo como nosso próprio continente é tratado nos meios de comunicação e sobre sua atuação com relação às questões políticas e sociais.
Segundo a professora Maria de Nazareth Ferreira, nossa percepção de nós mesmos e de nossos vizinhos, via meios de comunicação de massa, é extremamente negativa. Em termos percentuais, há muito mais notícias desfavoráveis, com relação aos países da região, que favoráveis. Somos nossos maiores detratores, ao passo que tendemos a endeusar os países do centro do sistema político e econômico internacional. Nossos meios de comunicação desintegradores contribuem em grande escala para essa percepção e valoração negativas de nós mesmos.
Nossos meios de comunicação em geral, em especial os de grande porte, têm como tradição terem apoiado ditaduras, quando tal sistema de poder predominava, para depois falar em democracia quando tudo mudou. Alguns foram colaboradores de primeira hora dos golpes que se instauraram em nosso continente, outros já colaboravam desde antes. Outros, que resistiram, acabariam sendo fechados por não abrirem mão de seus princípios éticos e por não aceitarem o pacto de silêncio, mentiras e medo, imposto pelos que se apropriaram à força do poder. Mantiveram, no entanto, sua integridade ética e moral.
E quando pensamos que tudo isso já era coisa do passado, lá vêm eles novamente! Tentativa de golpe na Venezuela, em 2002. Tentativa de golpe na Bolívia, em 2008. Golpe em Honduras em 2009. Motivo? O presidente eleito, Manuel Zelaya, queria convocar um plebiscito para ver se o povo hondurenho, que o elegera, concordava em instaurar uma assembleia constitucional.
O pior é que os que perpetram e apóiam os golpes alegam que seus alvos é que são os ditadores - embora tenham sido eleitos de forma democrática, por escolha popular, via voto. Ao analisar o passado, no entanto, vemos que foi assim que procederam contra Jango (eleito e referendado pelo povo), Isabela Perón, Allende... Isto é: os acusaram de 'populismo' e de promover o 'socialismo' (devem ser doenças perigosas, para eles) e em seguida, marchas de mães, padres, beatas e patriotas exacerbados – para culminar com tropas na rua, prisões, censura, etc. Eles, que acusavam os outros de serem 'ditadores' e 'caudilhos', tornam-se os próprios caudilhos em nome da 'segurança nacional' e, pasmem, da democracia!
Estamos vacinados, mas temos que seguir tomando o antídoto contra essa verdadeira peçonha de cobra, a cada período, para não nos esquecermos. Ao lema de 'Tortura Nunca Mais', poderia ser acrescentado: 'Hipocrisia Nunca Mais', Ditaduras Nunca Mais', e, por que não, 'Armações Nunca Mais' ...
A Globo, que de certo modo culpa o presidente deposto de Honduras pelo golpe que sofreu, é associada da empresa venezuelana de comunicações que tentou derrubar Chávez. Carmona, chefe da junta provisória que foi posta no lugar de Chávez, em 2002, é o dono do maior império de comunicações e de redes de distribuição de gasolina no país, um típico 'marajá', acostumado a manipular o poder e as instituições. Seu governo provisório foi reconhecido em questão de horas pelos EUA de Bush, que por sua vez foi plenamente apoiado pelos grandes meios de comunicação do continente e do mundo em sua 'Luta contra o Terror', na qual assassinou a bombas e balaços centenas de milhares de muçulmanos no Afeganistão e Iraque.
Aqui no continente, essa mídia se contenta em não permitir que floresça qualquer governo popular e em pôr sob suspeita permanente qualquer tipo de aliança intra-continental, além de fustigar os movimentos sociais. Em tempo: Zelaya nunca foi socialista, apenas propôs discretas reformas sociais e um plebiscito.
Anúncio da Air France, publicado na Revista Época de maio (dias antes do acidente com o AF-447).
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Fui indiscreto mesmo. Li na cara de pau, por cima dos ombros do passageiro à minha frente.
Mas não me culpo, o título do livro era instigante demais: Distraídos venceremos (Paulo Leminsky).
Cheguei ao trabalho; teclei no google; achei o livro: e devorei o pouco que não consegui ler nos 40 minutos no ônibus.
Dois bons trechos:
Bem no fundo
(...)
Problemas têm família grande,
E aos domingos saem todos a passear
O problema, sua senhora
E outros pequenos probleminhas.
Plena pausa (...)
Nunca houve isso,
Uma página em branco.
(...)
No fundo, todas gritam,
pálidas de tanto.
Veja: Milk - a voz da igualdade (Gus Van Sant)
Ouça: Seres Verdes ao redor (Supercordas)
Leia: Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach) posted by RFerraz
10:19 PM