Cotidiano Crônico
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Segunda-feira, Junho 29, 2009


O maconheiro, meu irmão e a vizinha

A vizinha.
Daquelas de tom ‘reaça’, dona de casa com aparência ‘gordinhadebobsnocabelo’. Mal-amada, um tanto negligenciada na concorrência com o bar junto ao marido. Ar insalubre e uma decadência particular – daquelas que não sabem mais do que a trama da novela das sete.

Meu irmão
Fisioterapeuta. Escalador nas horas vagas. Cara de poucas palavras. Sisudo. E sereno (como? não sei). Admirador do que é bom e simples. Prático.

O maconheiro
Na verdade, são ‘os’. Um casal de vinte e poucos anos dando o pontapé inicial na ‘vida a dois’. Ela: tatuagem na perna, talvez designer. Ele: surfista, talvez gente boa. Eles: vi apenas uma vez. Os dois com uns elásticos amarrados ao portão do hall de entrada do prédio. Fazendo Pilates.

Meu irmão e a vizinha já se conhecem. O primeiro não gosta da segunda. Por causa dela não se pode nem lavar o carro na garagem. ‘Proibido pela legislação!’, alega a moça. Dividem o mesmo metro quadrado do elevador por dois andares. Suficiente pro seguinte diálogo.

Vizinha: Tá sabendo dos mais novos maconheiros do prédio?
Irmão: Hã?
Vizinha: É um cheiro de noite! Não sei como vou fazer pra dormir...
Irmão: Quem sabe assim a senhora não dá uma relaxada?

Veja: 21 gramas (Alejandro González Iñárritu)
Veja: Um homem bom (Vicente Amorim)
Veja: O curioso caso de Benjamin Button (David Fincher)



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Quinta-feira, Junho 18, 2009


Pedra do Rio



A caraça dela fica lá de cima. Vigiando o Rio de janeiro, nosso vai-e-vem.

Agora é assim que vejo a Pedra da Gávea.

Do Alto da Boa Vista então, nem se fala. Vislumbro ela imponente, absoluta.

Sonhando sozinha no mesmo lugar, talvez.

Me lembro de ter tido a mesma sensação quando passei pelas montanhas do Peru. Algumas chegavam a assustar tamanha grandeza e força que demonstravam. Elas pareciam imperar aquele lugar. As estradas eram apenas espectadoras (e nós também). Ou súditos que habitavam o reino das pedrosas gigantes, coroadas de branco pela neve dos Andes.

Quem disse que pedra não vive?
A ‘da Gávea’ expõe suas caras e bocas diariamente. Os olhos fixos que não perdem nada à sua volta. As sombrancelhas firmes e irremediavelmente sisudas.

Enquanto isso nego faz graça, tira foto. Sobe de corda ou caminhando pelas beiradas da sua face. Dorme na cabeça, no olho. Ela não se perturba.

Permanece sua vigilância diária, à luz da lua, no brilho do sol, por entre as nuvens...

Nada lhe escapa.

Veja: Waking Life (Richard Linklater)



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Terça-feira, Junho 16, 2009


Dita mole

Disciplina: História das Américas II. Na aula discutíamos um trecho do livro chamado O Estado Militar na América Latina, de Alain Rouquié. O autor discute a real influência da Doutrina de Segurança Nacional na difusão das ditaduras latino-americanas.

O argumento que apresenta é simples: não combate a ideia de que os Estados Unidos motivaram, apoiaram, manipularam, concubinaram, enfim, para o sucesso das ditaduras em países como Brasil ou Chile. Pelo contrário, admite a importância que o Tio Sam teve nesse processo, fornecendo apoio bélico, político e até econômico para regimes nem um pouco democráticos – logo eles, ironicamente, os ‘missionários’ da democracia pelo mundo!

Mas o autor RELATIVIZA essa importância. Não a ignora. Apenas defende a ideia de que esse apoio, essa doutrina norte-americana foi muito bem-vinda (obrigado!) por nossa elite militar. Que se dizia pronta a assumir esse papel messiânico de levar o progresso à nossa civilização tupiniquim.

Teve gente na sala torcendo a cara. ‘Coisa de milico’, vociferavam.

Eu lhes digo - diante do que li: os tais milicos não estavam a sós. Eram apoiados de perto por uma elite grotesca (espalhada por outros países da América Latina diga-se de passagem) que achava-se detentora de um poder civilizatório. Capaz de implantar essa tal ‘ordem’ tão necessária para o progresso. E nesse ponto destaca-se o papel (sujo e pedante) dos militares, obviamente.

Assim, a Doutrina de Segurança Nacional foi muito bem recebida e adapatada à nossa realidade. Formas de controlar de perto o tal inimigo interno, que já havia levado um país latino-americano, Cuba, pra pertinho da URSS.

Hoje, a ‘onda’ anti-EUA tem seus fundamentos. A atuação obscura do Império norte-americano fica cada dia mais evidente (até porque o capital está em crise: no money, no happiness!). Das Américas, passando pelo Oriente Médio, chegando à Ásia e África tem sempre a marca deixada pelo dedo sujo do Tio Sam. Mas existem horas que não podemos ser assim tão maniqueístas. Essa é uma delas.

A maior comprovação da relevância dos argumentos do autor, nós mesmos, alunos, percebemos em sala: todos conhecíamos ao menos uma pessoa da geração dos nossos pais e avós que tem elogios à Ditadura Brasileira.

Elogios à oferta de emprego, à ‘segurança nas ruas’ e até à imposição de uma moral ‘puritana’ (leia-se caretice e alienação) que caracterizaram os anos de chumbo em certo aspecto.

Gente que não deve ter tido nenhum parente ou amigo morto, torturado ou desaparecido. Que pertence àquela direita bisonha, egocêntrica e reacionária, que anda bem debaixo dos nosso narizes. Gente que desfila preconceito em piadas sutis - ou descaradas - e que apóia a impunidade aos que ‘podem’. Que em pleno século XXI, no apagar das luzes de um mundo caótico, ainda acha que estando numa classe abastada devem por isso ser dirigentes de uma ordem tosca, previsível, anêmica. Em que o dinheiro e o poder comandam um mundo seco.

Para eles a Ditadura foi ‘dita mole’. Foram esses indivíduos que receberam a ditadura de braços abertos (ou cruzados) junto com os tais ‘milicos’. Que, conforme constatou a turma – e eu, que me pego a cada dia mais ignorante - ajudaram a difundir de alguma forma o terror.

Pessoas que devem ter em suas mãos o mesmo sangue fedorento dos que apoiaram ou fecharam os olhos para as atrocidades no nazi-facismo.

E repito: gente como a gente. Não adianta fugir, a história sempre recai sobre nossos braços. Isso sim é instigante! Somos atores históricos, personagens do nosso tempo.

O que você anda por aí fazendo, discutindo, buscando, difundindo, aprendendo, pensando, questionando, conhecendo...?

Veja: Batismo de Sangue (Helvécio Ratton)
Veja: O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger)
Ouça: Muito obrigado ('Quem precisa de ordem?') (Mundo Livre S.A)
Ouça: É proibido proibir (Caetano Veloso)



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Terça-feira, Junho 02, 2009


Energia Racional

Relevem o fato de ser uma matéria do Fantástico. Que desfila todo o preconceito do cidadão médio brasileiro com relação a qualquer coisa que vá além de sexo, dinheiro e fama.

Mas a título de curiosidade vale muito!

A melhor parte: Paulinho Guitarra tenta explicar a seita 'Universo em Desencanto':

'Achava mó barato a origem da humanidade... Que a humanidade veio de uma planície Racional que derreteu, aí foi descendo e foi formando o sol, as estrelas...'

Carajo!

Em tempo: pra mim um dos melhores álbuns da música brasileira.



E um som



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