A música, assim como a mulher, lhe agrada muito mais quando entra no mesmo fluxo que você, quando é compatível com seu momento de vida. Como aquela baita banda que você ouviu ainda adolescente, sem ‘maturidade auditiva’ para absorver a complexidade do som. Afinal, sensibilidade também precisa de tempo para ser treinada, desenvolvida. Sem dramas. Led Zeppelin e Tom Zé me conquistaram assim. Música Clássica também.
Tem a música que você flerta. Mas não passa disso. Aquela banda, ou tipo de som, que lhe apetece por algum momento, desce bem numa noitada agradável, num clima propício. É casual, e talvez sua beleza esteja nisso mesmo. A música eletrônica é meu flerte mais antigo.
Tem a paixão musical. É fugaz e intensa! Um som arrebatador que você vicia, ouve sem parar por meses, dia e noite. Como aquele casal que não pode ficar a sós por 2 minutos. Sai faísca! Mas uma hora se vai da mesma maneira que chegou. Se consome até a última ponta. Raimundos foi meu caso clássico.
Tem a música que trai. Não lhe põe um par de chifres, mas é quase isso. Aquele som que você sempre curtiu, mas por alguma discordância repentina – política, comportamental, ideológica ou até gosto (que muda mesmo oras!) - você ‘não quer mais ver nem pintado’. Um caso típico que conheço da minha geração: Charlie Brown Jr. Depois da porrada no Camelo, então. Tiro no pé!
Tem o amor musical eterno. Artistas de que você se orgulha por ter aquele vinil raro, guardado como a fotografia de uma viagem inesquecível com a pessoa que você acha vai guardar no ‘pra sempre’. Pink Floyd, Jimi Hendrix, Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados; Chico, Caetano e Gil. Los Hermanos. Tenho muitos, graças a Deus!
Em contrapartida, tem o amor musical bastardo. Esse não há um que não tenha. Metaforicamente, é aquele som que você ADORA, mas só ouve sozinho. Tem vergonha de apresentar aos amigos. Você pode até amar. Mas diminui o som depressa até quando desconfia que o MP3 está muito alto - e alguém ao seu lado no metrô pode flagrar seu gosto duvidoso. Bom exemplo (meu): Fagner (com todo respeito!).
E a música inteligente, com ‘conteúdo’? Aquele som que, como a pessoa que você curte de ‘dentro pra fora’, soa interessante pela letra, pelas coisas que lhe diz ao pé do ouvido e que faz você ignorar completamente qualquer imperfeição da ‘embalagem’. Estilo Amy Winehouse, saca?
Intenso também é o amor musical novo. A música ‘de agora’, que lhe arrebata o ouvido com um simples acorde, com a mesma ternura de um doce sorriso da mulher que habita seus pensamentos do presente. Tem a virtude da novidade. Lasciva Lula, Móveis Coloniais de Acajú, Supercordas, Songoro Cosongo, Cordel do Fogo Encantado... Gente nova e (muito boa!) que me conquistou recentemente.
Ah! Tem ainda o amor musical do tipo ‘rolo eterno’: não importa quanto tempo você esteja sem ouvir, quando esbarra... Tem a química, mas não a presença constante. Você gosta, mas não tem nenhum CD. Não que isso afete em alguma coisa. Você sabe que talvez com ela nunca chegue a lugar nenhum. Mas basta encontrar que ocorre um transe. A música toca e você se joga a dançar! E vai matando a saudade com a sede dos deuses! Meu rolo histórico: Beatles.
E tem mais: a música ‘bom partido’ - todos acham interessante, mesmo os que não se sentem atraídos; a ‘galinha’ – aquela que todo mundo exclama ‘essa é minha música!’ quando toca (inclusive você!); a ‘conquistadora’ - basta apresentá-la ao ouvido de alguém que o arrebate é certo; a ‘feinha simpática’ – só agrada a alguns, mas é legítima; a ‘guerreira’ - você só encara depois de umas cervejas... E por aí vai.
Enfim, ouvidos e coração. Mais próximos do que se imagina.
Veja: Exposições OSGEMEOS (CCBB) e 28 milímetros (Casa França-Brasil)