Cotidiano Crônico
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Quarta-feira, Abril 29, 2009


Pra ler

Galeano. Um dos melhores autores latino-americanos contemporâneos. No entanto, seus artigos não são publicados regularmente no Brasil.

Recentemente, Chávez presenteou Obama com um livro do escritor: ‘As veias abertas da América Latina’. Excelente por sinal!

Li o texto abaixo, dele, esses dias. Gostei. Repasso.



Eduardo Galeano
De pernas pro ar

Educando com o exemplo
A escola do mundo ao avesso é a mais democrática das instituições educativas. Não requer exame de admissão, não cobra matrícula e dita seus cursos, gratuitamente, a todos e em todas as partes, assim na terra como no céu: não é por nada que é filha do sistema que, pela primeira vez na história da humanidade, conquistou o poder universal.

Na escola do mundo ao avesso o chumbo aprende a flutuar e a cortiça a afundar. As cobras aprendem a voar e as nuvens a se arrastar pelos caminhos.

Os alunos
Dia após dia nega-se às crianças o direito de ser crianças. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana.
O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.

Curso básico de injustiça
A publicidade manda consumir e a economia o proíbe. As ordens de consumo, obrigatórias para todos, mas impossíveis para a maioria, são convites ao delito. Sobre as contradições de nosso tempo as páginas policiais dos jornais ensinam mais do que as páginas de informação política e econômica.

Este mundo, que oferece o banquete a todos e fecha a porta no nariz de tantos, é ao mesmo tempo igualador e desigual: igualador nas ideias e nos costumes que impõe e desigual nas oportunidades que proporciona.

Pontos de vista
Do ponto de vista da coruja, do morcego, do boêmio e do ladrão, o crepúsculo é a hora do café-da-manhã.

A chuva é uma maldição para o turista e uma boa notícia para o camponês.

Do ponto de vista do nativo, pitoresco é o turista.

Do ponto de vista dos índios das ilhas do Mar do Caribe, Cristovão Colombo, com seu chapéu de penas e sua capa e veludo encarnado, era um papagaio de dimensões nunca vistas.

Fonte: Carta Maior


Veja: Luz Sileciosa (Carlos Reygadas - MEX)
Veja: A vida dos outros (Florian Henckel von Donnersmarck - ALE)
Leia: Projeto Criança e Consumo
Ouça: Segue o Seco (Marisa Monte)




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Quarta-feira, Abril 22, 2009


E agora, cara pálida?

NA AMAZÔNIA, ÍNDIOS TENTAM LEVAR MENINA PARA ALDEIA
Justiça teme infanticídio e mantém criança, que está com tuberculose, internada em Manaus


SÃO PAULO. Índios Ianomâmis lutam para levar de volta para a aldeia, em Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas, uma menina de 1 ano internada desde setembro de 2008 com hidrocefalia em um hospital de Manaus. Eles ameaçaram retirar a menina da enfermaria, contrariando decisão da Justiça que a mantém no Hospital Dr. Fajardo. A tribo quer que a garota seja tratada pela medicina indígena.

A criança está isolada porque sofre também de tuberculose. Ela se alimenta por sonda, mas respira sem ajuda de aparelhos. Sua perspectiva de vida é de dois anos, segundo o secretário de Saúde do Amazonas, Agnaldo Gomes da Costa. A aldeia fica a 639 quilômetros de Manaus.

A preocupação da Justiça é com o infanticídio. Segundo o administrador da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Manaus, Edgar Fernandes Rodrigues, as atividades domésticas em uma aldeia ianomâmi competem à mulher, e o assassinato de crianças é permitido se ela gerar um filho deficiente. Rodrigues explicou, no entanto, que esse não seria o caso da garota. Segundo ele, a criança estaria em estado terminal e deveria ficar ao lado da família nos últimos dias de vida. Para ele, a cultura do povo indígena não está sendo respeitada.

Fonte: O Globo, 22 de abril de 2009



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Sexta-feira, Abril 17, 2009


Terra e sangue

Hoje é o Dia Internacional de Luta pela Reforma Agrária.

Em nosso país, um dos únicos no mundo onde nunca foi feito essa tal Reforma, lembremos a morte da Irmã Dorothy; ou os 13 anos de impunidade da chacina de Eldorado de Carajás (19 trabalhadores – desarmados! - assassinados pela polícia).

Numa semana que vimos trabalhador chicoteado nos trens da Central, deixo aqui texto de Luis Fernando Veríssimo. Com quem divido a opinião que sempre defendi acerca da LEGITIMIDADE de um movimento como o MST.

A evidência

É fácil ter opiniões firmes sobre, por exemplo, o câncer (contra) e o leite materno (a favor). Já outros assuntos nos negam o conforto de pertencer a uma unanimidade, ou mesmo a uma maioria. São assuntos em que os argumentos contra e a favor se equilibram e sobre os quais a gente pode ter opiniões, mas elas estão longe de ser firmes. Até opiniões que você julgaria indiscutíveis - exemplo: nada justifica a tortura - são controvertidas, e basta ler as seções de cartas dos jornais para ver como a pena de morte, oficial ou extra-oficial, tem entusiastas entre nós. Em assuntos como aborto, cotas raciais nas universidades, etc. coisas como a religião, a formação, a ideologia e até o saldo bancário de cada um determinam as opiniões divergentes. E não vamos nem falar nos extremos opostos de opinião provocados por qualquer avaliação do governo Lula.

Mas há um assunto sobre o qual você talvez ingenuamente imaginasse que nenhuma discordância seria possível. A brutal evidência - geográfica, cartográfica, literalmente na cara, portanto independente de interpretação e opinião - da iniquidade fundiária no Brasil, um continente de terra com poucos donos, era tamanha que durante muito tempo uma genérica 'reforma agrária' constou do programa de todos os partidos, mesmo os dos poucos donos da terra. Era uma espécie de reconhecimento da injustiça inegável que desobrigava-os de fazer qualquer coisa a respeito, retórica em vez de reforma. O aparecimento do Movimento dos Sem Terra acrescentou um novo elemento a essa paisagem de descaso histórico: os próprios despossuídos em pessoas, organizados, reivindicando, enfatizando e até teatralizando a iniquidade, para contestar a hipocrisia. A evidência insofismável transformada em drama humano.

Pode-se discutir os métodos do MST, e até que ponto as invasões e a violência não dão razão à reação e não desvirtuam o ideal, além de agravar a truculência do outro lado. Mas sem perder de vista o que eles enfrentam: não só a injustiça que perdura, apesar de programas governamentais bem intencionados e de alguns avanços, como um Congresso recheado de grandes proprietários rurais, o poder político e financeiro dos agro-business e uma grande imprensa que destaca a violência mas sempre ignorou a existência de acampamentos do MST que funcionam e produzem - inclusive exemplos de cidadania e solidariedade. É a minha opinião.




Leia: Os Sertões (Euclides da Cunha)



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Quinta-feira, Abril 16, 2009


Dedução

Sei que pode (ou deve) ser um raciocínio rasteiro meu.

Mas tem a sala de aula. Do lado, um banheiro e à sua frente, um bebedouro.

Toda vez que tocam a descarga (dá pra escutar) a água do bebedouro mirra...

Parei de beber água ali.

Leia: Escravidão e cidadania no Brasil monárquico (Hebe Maria Mattos)



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Segunda-feira, Abril 13, 2009


Ideologia futebolística

A rivalidade no futebol... Cada um tem a sua preferência.

A minha sempre foi ganhar do Fluminense.

Não só pela aura do Fla X Flu em si, disparado o clássico mais colorido do Maracanã. Ou pela constante atuação do Sobrenatural de Almeida, personagem do Nelson Rodrigues, responsável por lances místicos no clássico que nascera ‘quarenta minutos antes do nada’. (Ontem, aliás, vi, da arquibancada, ele tirar uma bola de dentro do gol!)

Mas explico minha preferência pelas vitórias sobre o ‘tricolete’: eles se auto-representam através de um discurso típico de uma parte da população brasileira bisonha. Que se autodenomina ‘elite’. E como toda elite brasileira (principalmente essas que se assim se autodefinem), é burra.

No alto da sua mesquinhez, segregam. Renegam a raiz mestiça nacional com um discurso que soa neo-fascista: ‘somos a torcida mais bonita, branca’. Uma ‘raça ariana’ - que se esbalda em sua pobre ‘brancura’, mergulhados num pó de arroz de gosto duvidoso.

O mesmo pó de arroz, aliás, que um jogador mulato utilizou pelo corpo no começo do século passado. Numa época em que os negros não eram aceitos nos clubes da Zona Sul carioca, tentou disfarçar sua negritude, para ser bem aceito no clube das Laranjeiras. Feio. E simbólico demais!

Comprei essa briga.

E no Maraca, a cada Fla X Flu (que, aliás, nunca foi Flu X Fla) eu visto minha camisa ideológica por debaixo do manto rubro-negro. Me junto à ‘ralé’, à torcida mais democrática e brasileira que existe. E açoito de lá essa porca massa de gente preconceituosa.

A cada fuzilamento como o de ontem, me delicio um pouquinho com o gosto de uma vitória quase política. 'Silêncio na favela'? Não, dia de festa. Daquelas!

E me junto, ao fim, num coro só: ‘é nóis, mané!’

Veja: Che (partes 1 e 2)


Jano, cartunista francês, retrata um dia de Maraca no livro/documentário O Rio de Jano



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