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Segunda-feira, Março 30, 2009


(Des) conexão

Essa é uma reflexão já velha. Mas nem um pouco obsoleta, pelo contrário. À medida que cresce a rede de sites e programas de relacionamentos virtuais ('relacionamento' chega a soar irônico), diminui proporcionalmente o grau de inteligência na utilização dessas maravilhas modernosas.

De todos, sou usuário do Orkut e MSN. E por isso acompanho de perto as peripécias que rolam. E também por isso defendo a ideia de que qualquer um desses pode sim ter uma utilização, digamos, inteligente. Promovendo uma comunicação mais ligeira e sem distâncias, seja no trabalho ou com amigos. Capaz de dinamizar a troca de opiniões, pensamentos e informações.

Por outro lado, vejo claramente que essa nova ideia de compartilhamento simultâneo de informação gerou uma intensa mudança de comportamento. Notória e muito mais mais intensa do que se imagina.

Em tempos de culto à celebrização, pessoas comuns – e nem sempre interessantes – se apropriaram dessas redes sociais cibernéticas como um pseudo palco. Onde exibem ao ‘mundo' novidades duvidosas, que vão desde a última descoberta contra o câncer até dor de barriga que estão sentindo pela manhã.

Quem de nós nunca viu alguém fazer um papel constrangedor, seja no MSN ou no Orkut? Explanando aos amigos da sua “rede”, incluindo você, assuntos irrelevantes; sentimentos que antes mereciam ser guardados; ou até estados de humor, que naturalmente mudam com certa constância. É como aquele papo indiscreto que você escuta sem querer na praia. Com uma diferença: as pessoas ao seu lado na areia não estavam necessariamente querendo tornar pública sua conversa.

Agora pense bem, faça um mea culpa e perceba que você também não escapa. E dificilmente nunca fez esse exercício de exibicionismo ao menos uma vez nos últimos anos, mesmo que por um impulso quase inconsciente. É uma armadilha discreta. Uma onda fácil de surfar.

A revista Época da semana retrasada, trazia na na capa um novo fenômeno de sucesso internacional que segue essa linha, o TWITTER. Serviço gratuito de troca de mensagens que se propõe a partir de uma pergunta: What are you doing?. Que resume exatamente não só o que falei anteriormente, mas principalmente o rumo vislumbrado pelos criadores dessas ‘maravilhas’ e seus seguidores.

Mas bom mesmo é o vídeo abaixo, que consegui encontrar legendado. É a própria síntese desse novos tempos, produzido pela série de animação SuperNews! .






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Quinta-feira, Março 26, 2009


...

SÓCRATES: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?

GLAUCO: Naturalmente.

SÓCRATES: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

GLAUCO: Sem dúvida alguma, eles o matariam.

SÓCRATES: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que aprendemos pela vista à estada na prisão; a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e você não se enganará sobre minha esperança, já que deseja conhecê-la.
Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo caso, eis o que me aparece tal como me aparece: nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem que se percebe com dificuldade, por último, mas que não pode se ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de justo e belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que concede a verdade e a inteligência.
Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

GLAUCO: Tanto quanto sou capaz de compreendê-lo, concordo contigo.


Trecho final da ‘Alegoria da Caverna’ (Platão)



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Quarta-feira, Março 25, 2009


Não resisto...

Mais dois imperdíveis:

The Corporation (Mark Achbar e Jennifer Abbott)
Persépolis (Marjane Satrapi)

***

PUNK! Agora imagina ao vivo, na veia:



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Terça-feira, Março 24, 2009


Trabalho (e filosofia)

Faz uns 4 anos. Comentava com meu irmão - parceiro dessas inquietações da nossa geração - um incômodo constante. Pelas manhãs, no trajeto para o trabalho, invejava os porteiros fazendo seus simples afazeres matinais: molhando flores nos jardins, limpando calçadas, ajudando um morador a consertar o carro sem sujar a roupa.

Cabe aqui um parêntese: contei essa minha 'perturbação' para alguns amigos. Muitos - quase todos - riram!

Obviamente, eu estava insatisfeito na minha importante (!?) função de Assessor de Comunicação, numa empresa qualquer. Talvez ganhasse, na época, um salário não muito maior que o de meus companheiros retirantes nordestinos. Que trabalhavam invariavelmente de chinelos, bermudas e ainda tinham tempo de ver a vida passar vagarosa naquelas manhãs bonitas de sol. Eu entrava num ônibus cheio e levava minha inveja pra longe.

Depois descobri que o Tom Zé trabalha como jardineiro. Ganhando um salário mínimo. E com direito à folga nas terças-feiras.

Pirei!

No curso de História soube a origem do nosso escroto preconceito: na Grécia Antiga - berço da cultura ocidental - o trabaho manual já era etiquetado como indigno.

A minha desgraça foi agora, já no fim, voltar a fazer Filosofia. Numa dessas aulas, discutimos o Trabalho. A definição da professora: ‘a dialética entre o homem e a natureza, sendo uma atividade EXCLUSIVAMENTE humana. Através dele o homem acrescenta um mundo novo (cultura) ao mundo natural já existente’.

Há duas visões do trabalho: uma positiva, que promove a realização do indivíduo, a edificação da cultura e a solidariedade humana; e outra negativa, quando o trabalho é utilizado como instrumento de alienação do homem.
ALIENAÇÃO: ‘Situação econômica de dependência do proletário com relação ao sistema ao capitalista, na qual o indivíduo vende sua força de trabalho como mercadoria, tornando-se escravo' (Marx)..

É fácil perceber no decorrer da nossa história, as várias significações que a noção de trabalho adquiriu. A que mais se repete, no entanto, é a imagem do sacrifício. E, em troca, sua ‘honra’. Bonito, né?

Tem mais: a etimologia da palavra (TRABALHO) deriva do latim TRIPALIUM: instrumento formado por três paus, utilizado para prender os animais. Ou, ainda, para torturar.

Fica realmente confuso. Mas, já tô aqui mesmo...

Pois pense agora na SUA relação com o SEU trabalho. Marx (de novo) abre mão de outro conceito, o de trabalho alienado, em que: 'quanto mais o operário produz, menos ele custa para a economia e, consequentemente, mais ele se desvaloriza, chegando ao ponto de se tornar uma mercadoria do capitalismo. Quanto mais o operário produzir, mais ele está valorizando o mundo das coisas e desvalorizando o mundo dos homens. O operário recebe primeiro o trabalho, e depois o meio de subsistência' (money!). Em primeiro lugar o OPERÁRIO; depois a PESSOA FÍSICA. Que torna-se, assim, paulatinamente, escrava de seu próprio trabalho.

Cruel?

Mas pode estar acontecendo com você agora mesmo, sentado na sua mesa de escritório, enforcado na sua gravata, achando o máximo seu ar repleto de ácaros e poeira, sua xícara de café repassado, seu computador de última geração e seu telefone que o liga direto a alguma secretária. Chiquééérimo!

O trabalho alienado, meu amigo, ocorre quando você passa a não ser mais livre na sua pró-atividade. Independente do grau de 'elaboração' ou 'hierarquização' da mesma. E, por isso, quando você não é obrigado, foge da labuta como o diabo da cruz!

Uma última reflexão, proposta pela professora de filosofia e que repasso a vocês: quando você pensa, você age? E quando age, você pensa? A resposta não é tão simples assim, e ajuda a sabermos o quanto o trabalho manual, tem sim, muito valor! Não sendo realizado, necessariamente, por pessoas ‘menos capazes’. Ou que agem sem precisar formular nenhum tipo de pensamento - algo impossível ao nosso cérebro.

Por isso lhe digo: se você aí, algum dia, já invejou um jardineiro, o carpinteiro da esquina, o dono daquele camping paradisíaco, ou o sujeito sempre sorridente que limpa sua piscina... sei não! Vai...

... fazer filosofia!

Veja: The Corporation (Mark Achbar e Jennifer Abbott)
Ouça: Senhor Cidadão (Tom Zé)
Leia: A Revolução dos Bichos (George Orwell)



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Quinta-feira, Março 12, 2009


Mais cinefilia

Dando continuação...

Esse vai por democracia. Dia desses postei aqui a carta do meu amigo Marcelo Treistman, residente em Israel.

Hoje, posto um documentário, que pode ser visto através do Youtube.

O outro lado da moeda.

Para vocês - os que realmente se importam em 'ganhar' 1 hora no dia:

OCCUPATION 101 - VOZES DA MAIORIA SILENCIADA.

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6
Parte 7
Parte 8
Parte 9








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Terça-feira, Março 10, 2009


Pena de vida

Sim, eu sei. Michael Moore é muitas vezes tendencioso, sensacionalista, ‘estrelinha’...

Mas o cara é bom! Ontem, assisti ao último documentário dele, SICKO – SOS Saúde (EUA, 2007). E confirmei o que já tinha me seduzido em ‘Tiros em Columbine’: a edição das imagens, a linguagem e a abordagem transformam a narrativa do cineasta numa obra prima. Além de trazer à tona discussões pra lá de relevantes e que geram reflexão.

O filme denuncia a máfia dos planos de saúde, do sistema de assistência médica e da indústria farmacêutica norte-americana. Dá voz (e cara) às assustadoras estatísticas que comprovam que num país como os EUA 47 milhões de pessoas (!!) vivem sem amparo público à saúde – e os que dependem dos planos privados são vítimas de verdadeiros atos criminosos. Que democracia é essa, cara pálida?

É impossível não fazer uma analogia com o Brasil. O sistema de saúde dos EUA é o 35º do mundo, enquanto o nosso é o 125º. Se esse filme fosse realizado aqui, sei não...

Moore defende a ideia de que os tratamentos de saúde devem ser gratuitos. E de qualidade. Para tal, viaja até países como Canadá, Inglaterra, França e (até!) Cuba. E chega a ser constrangedor comparar a nossa realidade à forma como os cidadãos são tratados nesses países. Como cidadãos.

Na França, por exemplo, uma mulher tem 6 meses de licença maternidade e o governo manda uma pessoa até sua casa para ajudá-la a tratar do bebê, lavar a roupa, fazer almoço... Tudo de graça! Em Londres há uma taxa fixa na farmácia: 10 euros. Qualquer medicamento, em qualquer quantidade.

Mas o apse do humor ácido de Moore ocorre quando ele leva para Cuba (em 3 lanchas!) pessoas resgatadas do atentado ao World Trade Center. E que desenvolveram problemas respiratórios e psicológicos. Lá, os cidadãos, abandonados pelo Tio Sam e incapacitados de pagar a alta quantia de seus tratamentos, são atendidos em excelentes hospitais públicos e recebem o tratamento devido (e merecido). Sim, o sistema médico gratuito da ilha socialista de Fidel é melhor que o capitalista de Bush. Aliás, é um modelo para o mundo.

É nesse ponto que o filme faz sua melhor abordagem. Moore lança uma reflexão sobre a relação entre o povo e o Estado. E o quanto isso constrói os pilares de uma nação.

'Nos EUA, o povo tem medo do governo; na França, o governo tem medo do povo', diz sabiamente o documentarista. E continua sua argumentação de que, por isso justamente, o Estado francês faz de tudo para que essa massa de pessoas não vá às ruas protestar – um fato recorrente no país. E, como em diversos aspectos tupiniquins, é triste constatar que, nesse sentido também, estamos mais para nossos vizinhos da América do Norte que para a Europa.

PS1: o filme é imperdível! Copiei. Quem quiser, só pedir.
PS2: depois de ver você definitivamente quer ir embora do Brasil. Ou quer ficar pra mudá-lo.

TRAILER SICKO

Ouça: Black Star (Radiohead)



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Segunda-feira, Março 02, 2009


Limões e risadas

Mais duas dicas diretas do ‘escurinho’:

Lemon Tree
Direção: Eran Riklis
Israel/ Alemanha/ França - 2008

O filme, (repleto de simbologias!) toca na questão Israel X Palestina de maneira sutil e ao mesmo tempo incisiva. Salma, uma humilde viúva, vê sua plantação de limoeiros ameaçada quando o Ministro de Defesa de Israel se torna seu mais novo vizinho.
Já tá na locadora!

Rumba
Direção: Dominique Abel, Fiona Gordon E Bruno Romy
França / Bélgica – 2008

Sabe aquelas produções que despertam amor e ódio? Pois é. Uma comédia non-sense que, inegavelmente, surpreende o espectador (positiva ou negativamente). Passado no interior da França, um casal de professores tem uma paixão em comum: dança latina. Mas um acidente de carro muda por completo suas vidas.
PS: o filme exige um despreendimento total. Um digamos, "não leve a vida tão a sério"... Liberte-se e enjoy it!



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