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Quinta-feira, Novembro 27, 2008


O amor e a loucura
Jean de La Fontaine

No amor tudo é mistério: suas flechas e sua aljava, sua chama e sua infância eterna.

Mas por que o amor é cego?

Aconteceu que um certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Aquele ainda não era cego. Surgiu entre eles um desentendimento qualquer. Pretendeu então o Amor que se reunisse para tratar do assunto o conselho dos deuses. Mas a Loucura, impaciente, deu-lhe uma pancada tão violenta que lhe privou da visão.

Vênus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança, aos gritos. E diante de Júpiter, Nêmesis – a deusa da vingança – e de todos os juízes do Inferno, Vênus exigiu que aquele crime fosse reparado. Seu filho não podia ficar cego.

Depois de estudar detalhadamente o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia ao Amor.

Ouça: Carnalismo (Tribalistas)
Veja: Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen)



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Terça-feira, Novembro 18, 2008


Ainda sobre a cegueira

A chuvaça de hoje substituiu minha ida de bicicleta à faculdade pela (já sabida) luta de carro no trânsito caótico que reina no Rio nesses dias. Mas a aula era importante.

No caminho ouço pelo rádio que, além do velho problema das enchentes, alguns sinais de trânsito haviam se apagado.

A seguir, me vem uma ilustrativa visão da nossa caótica realidade urbanóide: no cruzamento entre duas ruas de fluxo intenso, um mar de carros. Embaralhados, os motoristas faziam daquela esquina um espetáculo sobre a sua própria natureza. Um verdadeiro documentário da National Geographic se encaixaria ali. Os animais? Nós. Em nosso ‘habitat natural’, realizando uma das nossas atividades selvagens cotidianas.

Os dois sinais apagados e a anarquia que imperava naquele cruzamento permitia que qualquer um seguisse com seu carro adiante. Mas por aqui, sabe como é né? Foi necessário colocar “ordem” até na bandeira.

Duas lâmpadas. Uma vermelha, outra verde. Que falta faziam! Deixaram órfãs pessoas desbarateadas, atormentadas em meio ao buzinaço que explanava bisonhamente uma incapacidade de formulação de um bom senso autônomo. Sem regras, pessoas perdidas. Sem ordem, humanos ‘selvagens’.

Lembrei do ‘Ensaios sobre a cegueira’; do ‘Disciplina, é liberdade’; e até do velho paradoxo entre Locke (estado natural=caos) e Rosseau (estado natural=paraíso).

E constatei, triste: haja sinal.

***

Falando nessas coisas...

http://www.espacoacademico.com.br/014/14cbuarque.htm


Ouça: Copacabana (Móveis Coloniais de Acajú)
Veja: O fabuloso destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet)
Leia: Memórias do Cárcere (Antônio Gramsci)




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