Aula de Historiografia Brasileira. Após a leitura do texto que fazia um apanhado geral da ‘história da história’ do Brasil, a professora pergunta aos alunos o que ficou marcado:
Aluno 1: ‘Para mim foi perceber que essa miscigenação de povos, essa mistura entre negros, índios e brancos deu origem a um povo único. É um grande barato perceber isso, essa mistura saudável que se deu. O que me fez questionar ao mesmo tempo sobre o porquê de não existir um patriotismo maior de nosso povo, uma identificação com nosso país...’
Levanto o dedo, ansioso, e não me agüento:
‘Essa miscigenação tão difundida mascara, na verdade, a predominância da cultura do branco europeu em detrimento de outras etnias. Um negro e um índio escravizados, oprimidos culturalmente, marginalizados socialmente e economicamente. O que se reflete nos dias de hoje. Talvez seja essa a justificativa para essa ausência de um patriotismo intenso. Com qual país esse cidadão historicamente oprimido se identifica?’
Corta.
take 2
Soube por email e amigos do Movimento Pró-Democracia.
Acabo de chegar do Centro, onde fui sozinho, desprendido de qualquer preconceito ou militância, na passeata organizada pelo Movimento. Fui conferir de perto qual seria a ‘cara’ do manifesto.
A chegada foi um tanto assustadora. Um menino que conheço de vista, 17 anos aproximadamente, se aproxima. Uma lata de cerveja na mão: ‘Tá florido isso aqui!’
Sigo apresado, para não me deixar influenciar demais pela recepção duvidosa e para conferir a heterogeneidade da coisa sem perder minha ‘flutuação observadora’. Perto do carro de som, pessoas mais, digamos, ‘engajadas’ serviam de entusiastas para o restante. Em frente ao TRE gritavam palavras de ordem como ‘Justiça!’, ‘3º turno!’ e, claro, o Hino Nacional.
Em cima do carro de som um garoto tremula uma grande bandeira do Brasil e outro, com microfone em mãos, comanda a manifestação.
De pronto, lhes digo: passeata de estudantes liderados por pessoas com interesses, digamos, suspeitos, que repetiam lugares comuns; fashion week de ‘politicamente corretos’; caras pintadas em busca de um engajamento com aroma de modismo. Ao final o 'do microfone’ manda a pérola: ‘Viemos aqui exercer nosso papel como CIDADÕES (!!)...’
E nessa hora, juro, ouvi um gemido de dor em alguns ao meu lado. Alguns!
Corta.
take 3
Após a ‘aventura-passeata’ a volta pelo Centro deixava claro que a grande maioria das pessoas, a classe trabalhadora, a massa proletária real não havia sido tocada pelo tal Movimento. Alheios, iam e vinham pelas ruas, no ritmo apressado de sempre.
O meu parecer sobre a passeata é subjetivo, ligeiro, pois assim mesmo quis ser. Passar como um simples espectador que se envolve (ou não) pela atmosfera presente. Mas a legitimidade do protesto, da reivindicação poderia estar presente ali também. Por que não?
Com esse debate interno, entro no ônibus de volta. Sento ao lado de uma senhora negra, de idade avançada. Encolhida, quase não ocupa lugar no banco. As pernas fechadas, os ombros curvados para dentro, inclinava-se na direção da janela. As mãos muito magras e desgastadas seguram três sacolas plásticas aparentemente pesadas. Que, no entanto, a velha senhora não deixava recostar no chão.
E foi assim a viagem toda. O olhar cansado e melancólico da velha. As mãos apoiadas nos joelhos, agarrando firme a alça das bolsas acima do chão.
O ônibus parou ao lado de um imenso outdoor do Bob´s. Dois sanduíches apetitosos, eram apresentados como Vif´s, (Very Important Frangos). A espalhafatosa propaganda chamou a atenção de quase todos, menos da senhorinha ao meu lado. Que logo percebi, não tinha sua atenção despertada por nada.
Foi quando constatei que a alienação estava ali, exposta e justificada nas raízes daquela velhinha. Sua miserável brasilidade; sua marginal ‘africanidade’; sua social invisibilidade.
Pensei na aula de Historiografia. Pensei nas pessoas que vi no tal Movimento.
Teria aquela senhora um modelo de Brasil?
Corta.
Veja: Estômago (Marcos Jorge)
Veja: Linha de Passe (Walter Salles)
Veja: Zelig (Woody Allen)
Veja: Laranja Mecânica (Stanley Kubrick)
Ouça: Swing de Campo Grande (Novos Baianos)