Desde o início desse blogger (minha auto-terapia em forma de palavras) venho tentando escrever sobre essas belezas quase imperceptíveis das minúcias da vida. As entrelinhas do nosso cotidiano.
Aspectos que passam despercebidos a nós, ocupados pelas coisas 'importantes' do dia-a-dia. O fluxo alucinado de uma dinâmica que não permite a muita gente titubear no sentir. No perceber.
Ao nosso entorno e em nós mesmos, no entanto, há um mundo em eterno desenrolar. Vidas que trilham caminhos em nossa condição de seres que habitam essa realidade, e que se esbarram como partículas, como moléculas em movimento.
Disso é composta nossa existência. Um vai-e-vem de coisas e acontecimentos. Encontros e desencontros. Pequenos e grandes - hierarquizados segundo sua própria concepção.
O que gera um contexto pra lá de curioso. Imprevisível. Subjetivo. Naturalmente sedutor. Grotesco e tosco, muitas vezes. Mas singular em beleza tantas outras. Como podemos ignorar essa coisa ebulitiva, a essência e a formosura da vida e seus milagres pelo simples fato de que seu papel deve ser cumprido à risca? Pergunto: qual papel?
Um exemplo disso: quando viajamos, nos aproximamos da nossa origem. Acho que é isso que marca tanto. É se retirar por um instante de todo o seu calejado mundinho e se reconstruir (ou indagaria alguém: calejar-se de novo?). É contemplar sem amarras. Conectar você e o mundo da maneira singela como esquecemos um dia que é. Surpreender-se com coisas 'pequenas'. Deixar-se levar.
Tudo isso me veio à cabeça depois de ver 'Ensaios Sobre a Cegueira' (Baita 'Saramago' adaptado para o cinema por Fernando Meirelles).
Ver é muito além de olhar. 'É, sobretudo, questão de sensibilidade', como diz o fotógrafo Cartier-Bresson.
A sessão terminou, a luz acendeu. A cena dos cegos tomando banho de chuva pelas ruas foi o que me marcou primeiro.
Todos no cinema se levantam. Desbaratinados, entorpecidos, seguimos inconscientemente - como um bloco de gente cega - em direção a uma porta. Não era a correta. Voltamos como formigas, juntos, até o ponto de luz que indicava a saída.
E fomos embora, nos espalhando, cada qual com sua miopia... e, talvez, suas tentativas de cura.
***
Já foi até 'pauta' de mesa de bar: os desenhos animados de hoje em dia são muito chatos!
Não é visão saudosista, não. Sem essa de apologia do 'eu vi e você não!'
Mas eles legitimam esse papo anterior. Essa coisa do olhar que já se desenvolve na criança com ausência de sensibilidade para coisas menos densas e carregadas de significados (contestáveis, diga-se de passagem).
E veja bem: desvirtuar isso numa criança é uma missão bem difícil de ser cumprida!
Hoje de manhã assisti um trecho de um velho desenho que eu adorava: Snoopy.