Cotidiano Crônico
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Segunda-feira, Junho 30, 2008


Lamento sertanejo
música e letra: Gilberto Gil
música e letra: Dominguinhos
1973
http://www.youtube.com/watch?v=Blgzu0r-OUk


Por ser de lá do sertão
Lá do cerrado
Lá do interior, do mato
Da caatinga, do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado

Por ser de lá
Na certa, por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada
Caminhando a esmo



Veja: Antes de partir (Rob Reiner)
Ouça: Shiver (Cold Play)



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Terça-feira, Junho 17, 2008


Sonhos, meninos e mariposas

A mariposa, coitada, mal sabia que iria servir de cobaia numa das lembranças mais doces da minha infância.

Numa tarde qualquer, daquelas monótonas do pós-escola, meu irmão e eu assistimos atônitos à invasão do quarto por aquele estranho inseto (ainda mais estranho diante da nossa tenra idade). Depois de saciada a curiosidade visual, a idéia: capturamos o bichinho, que foi parar num pote plástico. Que tivemos o cuidado de furar para que não faltasse ar. Em seguida, o congelador.

Lá a mariposa foi brevemente esquecida, enquanto nos divertíamos com alguma outra coisa. Quando nos lembramos do bichinho, já haviam se passado alguns gelados minutos.

Retiramos a pobre mariposa do congelador. Uma camada branca e fina de gelo cobria todo o seu corpo, agora completamente duro. Depois de algumas risadas de excitação, outra idéia (e essa seqüência para mim simboliza a imensa diferença entre espontaneidade infantil e o ceticismo adulto): colocamos a mariposa embaixo da nossa luminária.

A alta temperatura da lâmpada fez a fina camada de gelo sumir em alguns segundos. E de repente... zum! Como num surto ressuscitador, a mariposa saiu voando pela janela! Sumiu rapidamente, deixando, naquele quarto, duas crianças estupefatas. Assombradas pelas possibilidades que aquela pequena experiência fez nutrir.

Logo após esse episódio, me lembro de ouvir a lenda do Walt Disney – que estaria congelado para retornar à vida em outra época. E na minha saudosa infância, me recordo de sempre afirmar, com fé ardorosa: sim, aquilo era possível. Eu já havia presenciado coisa parecida. E tinha testemunha!

Já não acredito mais nesse tipo de coisa. Entre a mariposa e o Walt Disney sei que há um calor causado pela ausência das ilusões infantis. Que ajudou a derreter, aos poucos, minha camada de inocência, meus sonhos de menino...

Ouça: O caderno (Chico Buarque)
Veja: A culpa é do Fidel (Julie Gravas)
Leia: Inocência (Visconde de Taunay)




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