O homem sentou-se no bar como se fosse um divã. E puxou papo comigo, seu analista talvez:
'O quê? Tá pensando que você é você? Nada disso, você é um número! E só.'
Cocei a cabeça. Fiz sinal de afirmativo. Cheguei mais perto.
'Um CPF, uma identidade... um título qualquer que passa por cima de toda sua história. Sem aquilo não há comprovação de que você é você!'
Pura verdade, pensei.
'Que se fodam suas intrigas e seus perrengues, sua histórias, convicções e vitórias. Sem o número você não é ninguém!'
O pseudo-sábio-bêbado desencadeou uma antiga reflexão minha. Desde adolescente, quando fiz meu primeiro CPF, já me indagava acerca da necessidade de se atestar tudo no mundo de hoje.
Nada é o que é sem comprovação. Sem um pedaço de papel, um número, um registro você não é você, o que você disse não está atestado, o ocorrido pode não ter acontecido. Precisa de contrato, assinatura, reconhecimento, testemunha.
O mundo evoluiu (?) a ponto de tudo ser duvidoso. Discuti em sala de aula quando um professor disse que a história oral é sempre frágil diante da história escrita. E a cultura indígena, cara pálida? Toda uma memória coletiva construída com palavras. Apenas.
O que deixamos de entender é que essa incessante necessidade de comprovação fez crescer o seu oposto: a mentira. Esse ar de desconfiança eterna fortalece a inverdade, como a maçã de Adão e Eva. É sedutor mentir de forma comprovada. Atestar, funciona como repetir uma mentira: se torna verdade.
Daí em diante soa até estranho cobrar ética num contexto em que se pode falar agora e desdizer depois. Sem comprovação daquilo, nada foi dito ou prometido. É tudo escorregadio.
Pois, paradoxalmente, somos cidadãos de papel também na contramão dessa argumentação. O papel atesta nosso direito à segurança, moradia, educação, dignidade... E, no entanto, onde estão esses mesmos direitos básicos? Ah, sim: no papel. E de lá parece que não sai. Contraditório, não?
Ouça: Cidadão de Papelão (Teatro Mágico)
Veja: O passado (Hector Babenco)
Leia: Cidadão de Papel (Gilberto Dimenstein)