Flávia logo percebeu que as outras moradoras do prédio, mãe dos amiguinhos do seu filho, Paulinho, 6 anos, olhavam-na com um ar de superioridade. Não era para menos. Afinal o garoto até aquela idade - imaginem – se limitava a brincar e ir à escola. Andava em total descompasso com os outros meninos, que já desenvolveram múltiplas e variadas atividades desde a mais tenra idade. O recorde, por sinal, pertencia ao garoto Peter, filho de uma brasileira e um canadense, nascido em Nova Iorque. Peter tão logo veio ao mundo entrou para um curso de amamentação ('Como tirar o leite da mãe em 10 lições'). A mãe descobriu numa revista uma pesquisa feita por médicos da Califórnia informando sobre a melhor técnica de mamar (chamada técnica de Lindstorm, um psicanalista, autor da pesquisa, que para realizar seu trabalho mamou até os 40 anos). A maneira da criança mamar, afirmam os doutores, vai determinar suas neuroses na idade adulta.
Uma tarde, Flávia percebeu 2 mães cochichando sobre seu filho: que se pode esperar de um menino que aos 6 anos só brinca e vai à escola? Flávia começou a se sentir a última das mães. Pegou o marido pelo braço dizendo que os dois precisavam ter uma conversa com o filho.
- O que você gostaria de fazer, Paulinho? – perguntou o pai dando uma de liberal que não costumava impor suas vontades.
- Brincar...
O pai fez uma expressão grave.
- Você não acha que já passou da idade, filho? A vida não é uma eterna brincadeira. Você precisa começar a pensar no futuro. Pensar em coisas mais sérias, desenvolver outras atividades. Você não gostaria de praticar algum esporte?
- Compra um time de botão pra mim.
- Botão não é esporte, filho.
- Arco e flecha!
Os pais se entreolharam. Nenhum dos meninos do prédio fazia curso de arco e flecha. Paulinho seria o primeiro. Os vizinhos certamente iriam julgá-lo uma criança anormal. Flávia deu um calção de presente ao garoto e perguntou por que ele não fazia natação.
- Tenho medo.
Se tinha medo, então era para a natação mesmo que ele iria entrar. Os medos devem ser eliminados na infância. Paulinho ainda quis argumentar. Sugeriu alpinismo. Foi a vez de os pais tremerem. Mas o medo dos pais é outra história. Paulinho entrou para a natação. Não deu muitas alegrias aos pais. Nas competições chegava sempre em último, e as mães dos coleguinhas continuavam olhando Flávia com uma expressão superior. As mães, vocês sabem, disputam entre elas um torneio surdo nas costas dos filhos. Flávia passou a desconfiar que seu filho era um ser inferior. Resolveu imitar as outras mães, e além da natação, colocou Paulinho na ginástica olímpica, cursinho de artes, inglês, judô, francês, terapeuta, logopedista. Botou até aparelho nos dentes do filho. Os amiguinhos da rua chamavam Paulinho para brincar depois do colégio.
- Não posso, tenho aula de hipismo.
- E depois do hipismo?
- Vou pro caratê.
- E depois do caratê?
- Faço sapateado.
- Quando poderemos brincar?
- Não sei. Tenho que ver na agenda.
Paulinho andava com uma agenda Pombo debaixo do braço. À noitinha chegava em casa mais cansado que o pai em dia de plantão. Nunca mais brincou. Tinha todos os brinquedos da moda, mas só para mostrar aos amiguinhos do prédio. Paulinho dava um duro dos diabos. 'Mas no futuro ele saberá nos agradecer',dizia o pai. O garoto estava sendo preparado para ser um super-homem. E foi ficando adulto antes do tempo, como uma fruta que amadurece de véspera. Um dia Flávia flagrou o filho com uma gravata à volta do pescoço tentando dar um laço. Quando fez sete anos disse ao pai que a partir daquele dia queria receber a mesada em dólar. Com oito anos, entre uma aula de xadrez e de sâncrito, Paulinho saiu de casa muito compenetrado. Os amiguinhos da rua perguntavam aonde ele ia:
- Vou ao banco.
Caminhou um quarteirão até o banco, sentou-se diante do gerente, pediu sugestões sobre aplicações e pagou a conta de luz, como um homenzinho. A façanha do garoto correu o prédio. A vizinhança começou a achá-lo um gênio. As mães dos amiguinhos deixaram de olhar Flávia com superioridade. Os pais, enfim, puderam sentir-se orgulhosos. 'Estamos educando o menino no caminho certo', declarou o pai batendo no peito. Na festa de 11 anos, que mais parecia um coquetel do corpo diplomático, um tio perguntou a Paulinho o que ele queria ser quando crescesse.
- Criança!
Paulinho cresceu. Cresceu fazendo cursos e mais cursos. Abandonou a infância, entrou na adolescência, tornou-se um jovem alto, forte, espadaúdo. Virou Paulão. Entrou para a faculdade, formou-se em Economia. Os pais tinham sonos de vê-lo na Presidência do Banco Central. Casou com uma jornalista. Paulão respirou aliviado por sair debaixo das asas da mãe, que até às vésperas do casamento queria colocá-lo num curso de preparação matrimonial. Na lua-de-mel avisou à mulher que iria passar os dias em casa se dedicando à sua tese de mestrado. A mulher ia e vinha do emprego e Paulão trancado no seu gabinete de estudos.
Uma tarde o marido esqueceu de passar a chave na porta. A mulher chegou, abriu e deu de cara com Paulão sentado no tapete brincando com um trenzinho.
(Carlos Eduardo Novaes, A cadeira do Dentista e outras crônicas)
O trânsito não enganava. Feriado, sol, Rio-Santos lotada! Em meio ao caos da manhã do 7 de setembro eu podia ver o típico cidadão médio carioca procurando o seu lazer preferido: a informalidade. Que se inicia já com o fluxo de carros pelo acostamento, a cervejinha em cima do painel, o veículo caindo aos pedaços desafiando a estrada.
Um vistoso Toyota enguiçado, que provavelmente rumava para algum destino alto burguês da Costa Verde, é auxiliado por um Passat que contrariava as leis da física: um monte de ferro dependurado em quatro rodas! 'É bateria, uma chupeta resolve!', vocifera o solícito homem, enquanto passamos.
Mais a frente um Chevette antigo. Nele 5 ocupantes aparentando mais de 70 anos, todos uniformizados. A camisa era a mesma, anunciando o elo entre eles: o Tai chi chuan. Imaginei a expectativa das 4 senhorinhas (que também usavam bonés do Tai Chi Chuan) e do senhor ao volante em busca de um lugar tranqüilo para um feriado repleto de movimentos harmoniosos. Agora frustrados por essas horas infernais na estrada. O velhinho ao volante, no entanto, não parecia perder as esperanças, já colocando em prática os princípios de relaxamento da arte marcial chinesa. Um iluminado.
E as quase 5 horas na estrada tornam-se, aos poucos, cômicas: gente interagindo com outras pessoas que quase abandonam os carros a cada parada; banheiros em postos de gasolina que viram points da ala feminina; comida de beira de estrada (tem pra todo mundo!); som alto, gente dançando (!?); e viva a independência do Brasil!
No dia seguinte, nos jornais, há um culpado óbvio para toda essa ebulição nas estradas: a crise do sistema aéreo brasileiro.
Que nada, o povo adora! E agradece.
Ouça: Pecado, rifa e revista (Tom Zé)
Veja: Brilho eterno de uma mente sem lembrança (Michel Gondry)
Leia: A viuvinha (José de Alencar) posted by RFerraz
2:41 PM
Tropa de Elite é um bom filme. E seu principal mérito é abordar a questão da guerra do tráfico sem maniqueísmos, explorando todos os ‘lados da moeda’: a vida dura e curta do operário do movimento, o preconceito da população com a polícia - instituição criada para manter a ordem e proteger cidadãos (de quem?), mas que se transformou ao longo do tempo em mais uma facção criminosa apoiada numa burocracia genuinamente brasileira – e até o infeliz papel do usuário. Esse último, aliás, merece uma atenção especial.
Durante o filme os ‘maconheiros’ são acusados incessantemente pelo narrador (Capitão Nascimento, do BOPE) de ser a principal fonte de sustentação do tráfico de drogas. O que não chega a ser uma mentira. Obviamente, se alguém vende outro alguém compra. A grande questão é: o usuário também faz parte de um sistema previsível. Pode ele ter sua própria planta em casa? Como fugir desse ciclo vicioso? A proibição do cultivo da maconha condenou uma espécie da natureza à completa extinção. O mesmo não foi feito, por exemplo, com cogumelos ou trombeta (entorpecentes naturais da mesma forma).
Com certeza muita gente boa, mas de raciocínio curto, deve ter vibrado ao ver suas convicções serem expostas ali na telinha, achando rapidamente um culpado para toda a problemática carioca: o usuário. ‘É isso que eu digo!’, comentam com o colega ao lado.
Mas há milhares de outras questões, que um ponto de vista simplista como esse ignora. Que tal a impunidade? Pelo que percebemos na narrativa, e ao contrário do que se pensava, a polícia pode sim reprimir eficientemente as ações dos traficantes. Mas não há vontade para tal. Seja pelo baixíssimo salário ou pela preparação duvidosa da Polícia Militar, ou pelo atual nível de corrupção a que se chegou dentro da própria instituição.
Que tal a intolerância e ignorância de enviar para as favelas, local onde vivem milhares de pessoas de bem em situações limites, uma corporação com as mãos sujas de sangue? Que entoa um hino que diz: "Homem de preto, qual é a sua missão? É invadir favela / é deixar corpo no chão."
Alguém poderia argumentar, então, que essas incursões na favela não têm conotação social alguma. É apenas uma tática de guerra. Mas fora as ONGs, de boas intenções muitas vezes inclusive, que outra instituição social sobe o morro? Alguma de iniciativa pública?
O playboy, o maconheiro universitário, a ‘burguesia com consciência social’, o policial corrupto e o justo, o empregado do tráfico, o favelado inocente... Estão todos à deriva no mar escuro da incompetência administrativa e da falta de visão de um país com câncer. Uma doença quase proposital, um tumor cultivado em prol de um exorbitante lucro para os envolvidos, apesar de todo sangue derramado e das estatísticas vergonhosas.
A curiosidade como mola mestra! Foi assim a vida de Leonardo Da Vinci. Inventor, cientista, artista, engenheiro, escultor, biólogo, músico, anatomista, desenhista, filósofo...
Na mostra Leonardo Da Vinci, a exposição de um gênioimpressiona ver até que lugares inimagináveis pode ir a mente humana quando curiosa. Não importando o contexto em que vive, nem as limitações a que está submetida.
Da Vinci criou o automóvel, a bala, as pontes e os canhões, os sistemas diferenciais, o rolamento de esferas e, demonstrando-se também engajado, até uma ‘Cidade Ideal', ambiente higiênico que serviria para livrar o seu mundo da peste. Era fascinado pelo estudo da natureza e tudo que criou tinha suas raízes em princípios naturais. Disse certa vez: ‘Embora a criatividade humana seja capaz de fazer várias invenções (...) ela jamais projetará nada mais belo ou mais simples, ou mais pertinente que a natureza, cujas invenções nada têm de incompleto, tampouco de supérfluo’.
Paradoxalmente (algo bem recorrente na nossa existência, aliás!) o criador da obra de arte mais visitada no mundo, a Mona Lisa, morreu solitário e descontente em 1519, em Amboise (França), deixando entre seus últimos escritos: ‘Eu ofendi a Deus e a Humanidade porque minha obra não alcançou a qualidade que deveria’.
Uma autocrítica injusta de um gênio que afirmou sabiamente: ‘A arte nunca é acabada, apenas abandonada’.
Ouça: Homem das ruas (Celso Blues Boy)
Veja: Os Suburbanos (Rodrigo Sant' Anna)
Leia: Elite da Tropa (Luis Eduardo Soares) posted by RFerraz
2:59 PM