A vendedora boa praça usava um óculos de grossas hastes brancas.
'Essa essência é maravilhosa. Depois de um dia de trabalho você relaxa os pés mergulhados nela misturada com água quente...', assim vendia já o segundo produto para minha mãe. Uma retórica impressionante ela tinha.
A loja era na verdade uma daquelas 'bancas' que ficam no meio do shopping, e que vendem produtos, digamos, esotéricos, tais como incensos, essência-para-os-pés-depois-de-um-dia-de-trabalho-estressante etc.
Foi então que a música me chamou atenção. Parecia Mozart, talvez. Eu olhava os CDs da prateleira quando a moça interrompeu-me:
'Acho que é Mozart. Mas temos outro de um cantor com nome esquisito também, que me fugiu agora'. A seguir me aponta duas indicações suas: 'Amanhecer' e 'Acordar Bem 2' (veja bem, já havia uma primeira tentativa!).
Eu e minha mãe já não conseguíamos disfarçar, rindo em frente à solícita vendedora.
'Falando em Amanhecer tenho essa essência aqui que combina perfeitamente com o começo do dia!', a essa altura já borrifando o frasco com um líquido azul, que empesteou o ambiente e nossa risada em segundos.
Fomos embora um tanto constrangidos, quando já dentro do elevador, em meio às gargalhadas, sentimos o cheiro à nossa volta: estávamos, assim como o elevador, Amanhecidos como jamais estivemos antes!
Parque Industrial - Tom Zé
É somente requentar e usar
Porque é made, made, made, made in Brasil
Retocai o céu de anil, bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação.
Despertai com orações o avanço industrial
Vem trazer nossa redenção.
Tem garotas-propaganda
Aeromoças e ternura no cartaz,
Basta olhar na parede,
Minha alegria
Num instante se refaz
Pois temos o sorriso engarrafado
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar e usar,
É somente requentar e usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil
A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme porque pode derramar.
É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado,
É somente folhear e usar
Porque é made, made, made, made in Brasil
Made in Brasil
Ouça: Parque Industrial (Tom Zé)
Veja: Flores do Amanhã (Zhang Yang)
Leia: On The Road (Jack Kerouack) posted by RFerraz
4:08 PM
Tom Zé - A Briga Do Edifício Itália Com O Hilton Hotel
O Edifício Itália
Era o rei da Avenida Ipiranga:
Alto, majestoso e belo,
Ninguém chegava perto
Da sua grandeza.
Mas apareceu agora
O prédio do Hilton Hotel
Gracioso, moderno e charmoso
Roubando as atenções pra sua beleza.
O Edifício Itália ficou enciumado
E declarou a reportagem de amiga:
Que o Hilton, pra ficar todo branquinho
Toma chá de pó-de-arroz.
Só anda na moda, se veste direitinho
E se ele subir de branco pela Consolação
Até no cemitério vai fazer assombração
O Hilton logo logo respondeu em cima:
A mania de grandeza não te dá vantagem
Veja só, posso até ser requintado
Mas não dou o que falar
Contigo é diferente,
Porque na vizinhança
Apesar da tua pose de rapina
Já andam te chamando
Zé-Boboca da esquina
E o Hilton sorridente
Disse que o Edifício Itália
Tem um jeito de Sansão descabelado
E ainda mais, só pensa em dinheiro
Não sabe o que é amor
Tem corpo de aço,
Alma de robô,
Porque coração ele não tem pra mostrar
Pois o que bate no seu peito
É máquina de somar.
O Edifício Itália sapateou de raiva
Rogou praga e
Até insinuou que o Hilton
Tinha nascido redondo
Pra chamar a atenção
Abusava das curvas
Pra fazer sensação
E até parecia uma menina louca
Ou a torre de Pisa
Vestida de noiva
Acabou de chegar. Não é nada demais, só o cartão do meu dentista desejando feliz aniversário (que por sinal não é hoje).
O cartão que eu sempre jogo fora, dessa vez deixei em cima da estante da sala. De maneira inconsciente.
Na data que marca o meu nascimento, que pessoas estarão ao meu lado agora? Vou comemorar? De que maneira?
Cada aniversário é uma lembrança simbólica que fica armazenada na nossa ilha de edição, chamada memória. E que guarda pistas sobre os diferentes períodos por que passamos.
Uma metonímia, um recorte daquele pedaço de vida. Da sua vida.
Ouça: I'll see you soon (Cold Play)
Veja: Cão sem dono (Beto Brant e Renata Ciasca)
Leia: O casamento (Nelson Rodrigues) posted by RFerraz
1:23 PM
E o Circo demonstrava que isso era verdade. A platéia tranquila, chegava vagaroza e calma, numa quantidade rara de se ver hoje em dia em shows aclamados.
A noite começou com uma sonzeira que ia de Led Zepellin, passando por Beatles e Raul e desenbocando em Jimi Hendrix. Introduzindo o clima psicodélico.
Foi então que tudo se fez festa, num clima dionisíaco.
E quando, já na finalização, Sérgio Dias apresentou a banda, foi que eu percebi:
'(...) eu sou o Sérgio Dias e nós somos os Mutantes. Vocês também'.
Ouça: Não vá se perder por aí (Mutantes)
Veja: Sons da alma (Kaige Chen)
Leia: O menino no espelho (Fernando Sabino) posted by RFerraz
4:30 PM