A rolinha, aquele passarinho urbanóide marrom - uma miniatura do pombo tanto na aparência rotunda, quanto no desprezo que desperta em nós seres humanos - foi que me deu a coceira inicial.
Bem em frente à janela do meu apartamento fica a ponta do poste. A base de madeira por onde passam os fios é utilizada há anos pelo mesmo casal de rolinhas para seus momentos de fornicação.
Minha avó, que fumava 'escondida' durante tardes e madrugadas na beirada da janela do apartamento ao lado do meu, sempre achou aquilo uma 'pouca vergonha'. 'Essas rolinhas só querem saber disso!', dizia ela em tom irônico e indignado.
Ela morreu ano passado.
Mas hoje, quando as rolinhas iniciaram seu ritual de acasalamento percebi quanto somos efêmeros. O quanto a nossa vida é passageira, transitória nesse mundo que não vai parar, não senhor!, depois que seu botão de OFF for acionado.
As rolinhas vão continuar copulando; o trânsito vai continuar confuso; o jornal vai chegar diariamente repleto de notícias novas...
Nossa trajetória é pra lá de fugaz diante de um mundo que existe há bilhões de anos.
A ferida narcísica da finitude da vida tem lá suas razões em perturbar a cabeça do ser humano - e não à toa a religião surge como um conforto. Não importa qual seja sua crença, há sempre uma explicação para essa única coisa que o homem jamais viveu para contar como é: a morte.
E a gente segue. Fazendo planos de minutos, horas e dias em pacotes já rotulados e estranhamente previsíveis.
Sem notar, no entanto, a trivialidade de nossos passos.
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