Na minha infância eu comia calango vivo
Comia calango seco, comia calango lá
Na minha infância eu comia calango vivo
Comia calango seco, comia calango lá
Era buchudo que nem baiacu virado
Meu joelho era inchado de eu tanto caminhar
Mas no que a fome me batia era cegueira
Eu saía a fazer poeira
Pra caçar calango lá
Bicho ligeiro anda virado na cachorra
Corre mais do que uma porra
Era impossível de alcançar
Era preciso um bocado de inteligênça
As armadilha e a paciênça
Pra mode a gente almoçar
Matava o bicho com uma pedrada na cabeça
E pendurava ele na cerca
Pra carne poder secar
E a carne seca eu comia com macaxeira
E espantava a mosca bicheira
Que queria o meu jantar
Mas êita que é agora que eu me espalho
Que plantaram um festifude (fast food)
Bem no meio do sertão
Larguei a calangada do balaio
E me juntei a fila armada
Pra fazer a refeição
Big Calango com alface, queijo, pão com gergelim
Suco de xiquexique e eu SEM CAPITAL!
Pois é que agora nem caçar a gente pode
Porque foi privatizado pela multinacional
Acontece que o gerente do franxaize (franchising)
Que contrata funcionário
Ouviu falar do meu norrau (know how)
E hoje eu ando caçando calango tanto
De frilance (free lancer) pago um lanche com o salário semanal
refrão:
Deus me dê grana pra eu poder casar com Ana
Me dê poupança pra eu comprá-lhe as alianças
Sucesso pra eu me adaptar ao progresso
Caçando calango tanto, caçando calango lá
Caçando calango tanto, caçando calango lá
Acabo de 'descobrir' uma simples e contemporânea maneira de traçar o perfil psicológico de uma pessoa. O único pré-requisito necessário é, para tal, possuir uma TV a cabo.
O processo é simples. Deixe o controle remoto com a cobaia em questão. E, silenciosamente, busque o anonimato. Permita que o objeto de estudo mude os canais à vontade sem que perceba a sua presença. Nesse caso, quanto maior a variedade de canais, melhor.
Esse fenômeno, trazido pela Era Digital, denominado 'zapear,' determina, sem dúvida, os interesses, as aspirações, e até mesmo o humor; e, mais profundamente, o grau de influência midiática a que a pessoa esteve e se deixou ficar exposta durante sua vida.
As escolhas feitas pela sua cobaia, os canais a que se atém, mesmo que por alguns segundos, a imagem que a faz parar em determinada emissora falam muito mais sobre ela do que poderíamos imaginar.
O 'estudo' torna-se ainda plausível se considerarmos o quanto o ato de zapear ilustra nosso 'way of life', nossa mania de simultaneidade, de superficialidade, unidos a tradicional pressa da contemporaneidade. Para quê assistir a apenas um canal, quando posso 'passar' por 2 ou mais?
'A essência do zapear [termo originário do verbo alemão zapfen] representa achar, retirar e transportar determinadas coisas significativas, que podem ser desde objetos concretos a outros elementos abstratos como a informação. (...) Portanto, com o zapear, apresentamos novos sentidos para o uso da informação sem barreiras de tempo ou espaço. Não falamos de movimentos impensados e impulsivos diante da tela, mas de momentos de seleção, reflexão e leitura.'
BLATTMANN, Úrsula; FRAGOSO, Graça Maria. O Zapear a informação em bibliotecas e na Internet. Belo Horizonte: Autêntica, 2003
Ouça: CNFS Comunicado 2 (Mundo Livre S.A)
Veja: O pianista (Roman Polanski)
Leia: Menina a caminho (Raduan Nassar)
Domingo fui ver '300'. O filme se tornou a sensação na mídia em pouco tempo, o que é completamente previsível para um roteiro orçado em 60 milhões.
A história em si, baseada nos quadrinhos de Frank Miller, tem um grande apelo visual, com cenas de impacto, efeitos visuais à exaustão e, ainda, frases de efeito para tudo que é lado. Conta também com a participação de estrelas do cinema - como o meu, o seu, o nosso Rodrigo Santoro!, interpretando Xerxes, o rei da Pérsia (que mais parece o Ney Matogrosso com 3 metros de altura, e detalhe: sem nenhum pêlo no corpo, embora isso pareça um tanto contraditório para um persa).
As características gerais apontam: é um baita filme pipoca, bem executado. Mas deixa a desejar pela grandeza que foi a batalha das Termópilas e o tanto que poderia ser explorado. Indo muito além dos diálogos rasteiros que se apresentam, como quando os atenienses são 'xingados' de filósofos e homossexuais pelos destemidos (e hiper-masculinizados) espartanos.
Em '300', muita coisa é omitida para, mais uma vez, simplificar e entregar a domicílio ao público simpatizante dos filmes-pipocas algo já mastigado e pronto para ser engolido (como quase tudo consumido pela massa). Por exemplo: ao contrário dos 'machões' do filme, há uma corrente da historiografia que conta que os guerreiros espartanos eram companheiros homossexuais, o que os tornava ainda mais unidos na árdua tarefa de proteger um ao outro durante as batalhas.
Além disso, a trama se desenrola de forma tão simplista que parece ter sido propositalmente concebida pela paranóia norte-americana e pela vontade crescente de fazer a guerra com o Irã (a antiga Pérsia!). O maniqueísmo que coloca os Persas como tiranos 'maus' e 'loucos' é uma clara alusão ao contexto atual, em que os EUA imperam a sua 'democracia' e 'libertação' pelo Oriente Médio. Ocidente versus Oriente. Bonitos versus feios. Coincidência? (Cabe aqui um parêntese: esse ponto meu amigo Danilo, em seu blogger Bonde da História, link aí do lado, já havia me alertado).
Isso sem falar na propaganda fascista de Esparta, ilustrada como algo glorioso no filme, que seleciona apenas as crianças 'saudáveis e fortes' para compor sua população, exterminando as demais com genes 'defeituosos' já no nascimento.
No mais, transformaram filme épico em 'Matrix'. 'Photoshoparam' a História. E fizeram do etnocentrismo uma desculpa escancarada para que na próxima festa à fantasia que você vá dê de cara com um monte de 'bombados' vestidos de rei Leônidas.
Ouça: O comedor de calango e o gerente da multinacional (Baia)
Veja: 300 (Zack Snyder)
Leia: O macaco nú (Desmond Morris)