O cenário: um típico refeitório de colégio público. Um prato requentado, de aspecto desagradável e pouco atraente, é servido a três crianças que o recebem com uma feição clara de insatisfação. A cena é o desfecho de 'Pro dia nascer feliz' (de João Jardim) e representa uma das melhores metáforas que vi no cinema nos últimos anos.
O excelente documentário retrata as diversas situações e adversidades vividas pelo jovem brasileiro nas escolas, passando por questões como preconceito, precariedade do ensino público, violência e esperança. Os protagonistas são 3 alunos de estados e classes sociais distintas que falam de suas vidas na escola, seus projetos e inquietações.
Tirando algumas surpresas que se revelam - como um incrível talento literário mirim em plena escassez dos cafundós do nordeste brasileiro (que recebia notas baixas de seus professores, por considerarem suas produções simples plágios) - o que mais me chamou a atenção no filme foi constatar o que eu já desconfiava há tempos: a escola enquanto instituição tradicional está falida. Acabada.
Como uma velha roupa que já não cabe mais nos moldes do estudante contemporâneo. Ou como o prato requentado e desinteressante servido a esse aluno que chega de um banquete de informações facilmente adquiridas (apesar de sua legitimidade duvidosa) fora do mundo da sala de aula. Como fazer da escola, e do professor, fonte real de conhecimento para esses jovens, sejam eles ricos ou pobres?
A questão urge ainda mais se pensarmos que a imensa parte da nossa rotina de barbáries deve-se diretamente à defasagem na Educação. Que se desdobra e potencializa a ignorância em questões que vão desde o voto, passando pela ecologia e desembocando no desrespeito à vida.
Sem esse quesito nosso avanço torna-se cada vez mais improvável. E iremos acabar assim: presos a essa incapacidade, sendo arrastados por quilômetros em direção a um futuro que se traça cada vez mais trágico.
Ouça: Fim do dia (Arnaldo Antunes)
Veja: Pro dia nascer feliz (João Jardim)
Leia: Não-coisa (Ferreira Gullar)
Vale aqui uma introdução.
Vinte dias entre a Bolívia e Peru me tornaram uma pessoa diferente. Com uma visão mais periférica, expandida pelos ares que só a dádiva de viajar e presenciar coisas distintas pode realizar.
Me formei como jornalista porque sempre acreditei que na origem desta profissão está a capacidade e possibilidade de ver e, principalmente, contar histórias.
Pretendo contar algumas das que eu pude sentir de perto.
Um dia lá, outro cá
Saímos da Bolívia após o reveilón e entramos no Peru em direção a Machu Picchu. Durante nossa estadia, tornou-se comum, quando nos perguntavam sobre nossa nacionalidade, ouvirmos o seguinte comentário, posterior e imediato, sempre acompanhado de um baita sorriso:
- De Brasil? El país más grande del mundo!
Nas primeiras vezes, essa mesma exclamação soou para nós como aqueles elogios que tem como objetivo final a cumplicidade de turistas (e a gorjeta conseqüente). Mas após o quinto ou sexto peruano repetir a mesma e exata frase, resolvemos matar nossa curiosidade, influenciados pela mentira geográfica que aquela afirmação evocava.
Foi então que um peruano chamado Armando, justificou tudo de maneira simplista, nos contando que o Brasil estava sempre 'nas pontas': tinha Ronaldinho Gaúcho, pentacampeonato mundial, Kaká, Guga, Senna, Lula, carnaval e tudo mais. Estávamos sempre 'querendo ser' o maior do mundo.
É claro que isso era o ponto de vista do Armando especificamente. Mas pelo que eu entendi, e pesquisando posteriormente, a lenda surgiu depois que o Pelé (e seu reconhecido poder com as palavras) disse, durante entrevista, que o Brasil era o país com o 'estádio más grande del mundo' e mais algumas coisas acompanhadas pela adjetivação 'más grande del mundo'. Daí os peruanos brincarem com essa nossa mania de ufanismo.
Uma brincadeira muito sadia, aliás. Pois, segundo o que me contou também Armando, quando a seleção canarinho vence, a festa toma conta de muitas cidades do Peru. Pude perceber, então, que mais do que esse estereótipo, essa simpatia, o Brasil leva em si uma esperança de projeção do povo sul-americano. Resumindo: é a parcela do nosso continente que, segundo eles, tem tudo para dar certo!
Era inegável o sorriso besta que se estendeu no meu rosto tupiniquim após ouvir isso. E a renovação da minha esperança de que um dia, quiçá!, daremos certo.
O mesmo sorriso besta que deu lugar a uma tristeza indiscreta esses dias, quando topei na realidade. O bloco do 'Imprensa Que Eu Gamo' estava animado. Parei para comprar cerveja num isopor grande, que escondia uma família de 3 peruanos - um casal e uma pequenina chamada Michele.
Conversamos. Me contaram que eram de Arequipa (a segunda maior cidade do Peru, por onde também passamos) e que estavam tentando a vida por aqui há pouco mais de 3 meses.
Naquele instante eu já sabia que rumo a vida daquelas pessoas tomaria. Percebia discaradamente a desilusão nos olhos daqueles que procuravam um lugar digno em nossa suposta grandeza. E que se viam, nesse momento, como apenas mais uns, abandonados num sonho e a mercê de um país que nem lhes deu bola.
Levei 2 latinhas, deixei meus desejos de boa sorte e virei as costas. Corroído por saber que agora eles também saberiam: não, não somos tão grandes assim.