Pelas estradas que beiram as Cordilheiras dos Andes podemos ver constantemente pilhas de pequenas pedras. Representam pedidos e preces da população local.
Para um viajante como eu, serviram como um símbolo maior da intensa relação do povo com a fé e a terra, o respeito e a íntima cumplicidade com a natureza à volta.
Entendemos, por fim, o porquê da civilização Inca adorar o sol e a lua; utilizar as lhamas em seus rituais de sacrifício; e as referências astronômicas em suas construções.
Tudo que os cercava exercia influência direta sobre seu cotidiano. Estavam conectados e ligados visceralmente à terra que pisavam.
E ainda é assim, apesar de toda miséria que assola os povos andinos - potencializada ainda mais pela adoção no neo-liberalismo mundial que desconsidera as virtudes de países como Peru e Bolívia.
Eis uma forma de respeito e inteligência que falta a nós urbanóides contemporâneos.
Deixei minha pequena pilha de pedra e fui embora.
Chega a ser irônico voltar à nossa realidade.
'Eu perdi o meu medo da chuva
Vendo as pedras que sonham sozinhas no mesmo lugar'.
Medo da Chuva (R. Seixas)