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Quinta-feira, Outubro 05, 2006


Nem só de Osamas vive o islã

Lembro-me de comprar O que é etnocentrismo (Coleção Primeiros Passos, Everardo P. Guimarães) logo quando entrei na PUC. Mal imaginava o quanto um pequeno livro e um vocábulo mudariam tanto as minhas concepções. O mundo à minha volta e a forma de enxergá-lo.

O etnocentrismo fala de uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos; os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual, o etnocentrismo pode ser visto como a dificuldade de pensar a diferença; no plano afetivo, como sentimento de estranheza, medo, hostilidade, etc.

Pois bem. Essa semana, curiosamente, tive oportunidade de fazer uma breve e superficial pesquisa antropológica. Primeiro, através do livro O caçador de pipas (Khaled Hosseini). Boa sugestão de leitura aliás. Simples e bem escrito, demonstra um modo de vida completamente distinto a nós ocidentais. De repente me vi encantado com as tradições islâmicas, com a simplicidade e o respeito que seu povo demonstra em relação ao seu passado, às suas tradições. Chega a ser engraçado a visão e os pensamentos expostos de Amir e seu pai, personagens principais da trama, quando se mudam para os EUA, muito mais como refúgio durante a guerra entre Afeganistão e Rússia, do que por afinidade com o Tio Sam. E o embate causado pelas diferenças sócio-culturais.

Como no trecho em que o pai de Amir, recém empregado num posto de gasolina norte-americano recusa o benefício-alimentação: '(...) com isso abrandou um de seus maiores medos: que algum afegão o visse comprando comida com dinheiro dado de esmola. Ele saiu do escritório da previdência como um homem curado de um tumor.'

Esses dias pude assistir na TV a Prostituição Velada, documentário exibido pelo GNT. O foco agora eram duas iranianas que, para manter os filhos e pagar as contas, vendem o corpo nas ruas de Teerã. Um problema comum à nossa realidade, não fosse o fato de elas, para tal, serem obrigadas a burlar a rígida lei islâmica, mostrando um lado do Irã raramente visto. A diretora, Nahid Persson, filma o cotidiano das duas jovens prostitutas que vivem num país onde essa profissão é proibida. As duas, viciadas em heroína, procuram por homens nas ruas da cidade, levando seus filhos pequenos. Seus clientes encontram uma maneira de burlar as leis islâmicas conservadoras: eles praticam o sighe - que pode durar de uma hora até 99 anos - e se casam temporariamente com as prostitutas.

Quais referências utilizamos em nossos posicionamentos? De que maneiras julgamos o distinto? O que é em que contexto ocorre o 'diferente'?

Relativizar é preciso...

Ouça: See Saw (Pink Floyd)
Veja: Anti-herói americano (Shari Springer Berman e Robert Pulcini)
Leia: O caçador de pipas (Khaled Hosseini)



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