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Sexta-feira, Junho 09, 2006


A aura perdida

Não fui ao último show dos caras na Fundição Progresso. Além da prova no dia seguinte, outros motivos me afastaram tais como: o alto preço do ingresso (agora virou moda: se aceita carteira de estudante duplica o preço) e o mesmo em relação à cerveja (4 reais). Sou da época que ir à Fundição era comprar ingresso antecipado a 12 reais e tomar Skol a 2.

O Los Hermanos anunciara, porém, um próximo show, numa terça feira, somente para fãs. Dois mil ingressos limitados. Apesar dos absurdos 4 reais por um copinho de chopp, a proposta do Circo Voador me soou mais interessante. E lá estava eu no último dia 06 com os velhos amigos de sempre num show que prometia. E parou nisso.

De repente as músicas que cantarolávamos timidamente, em rodas de violão, ou encontros e churrascos na casa de uns e outros haviam se tornado fenômenos da indústria fonográfica. Explanou geral!

A proposta dos barbudos é clara. Fazer um som de alma, autêntico, sem muito retoque marqueteiro ou intenções mercadológicas. E o que soara estranho para muitos no começo , tornou-se uma referência transgressora com o segundo CD Bloco do Eu Sozinho.

Resumindo: Los Hermanos agora é cult. Vi gente se esgoelando, batendo palma e assoviando a cada verso. Eu procurava o suave 'Veja você...' e esbarrava no 'Olha só o que eu te escreviiiiiii!!'. Alguns gritos no tímpano e finalmente chamei meu amigo Maurício. Discretamente perguntei, ao ouvido: 'Tá ouvindo alguma coisa?'
Era só o primeiro indício da histeria que foi a noite.

Não. Nada de preconceito ou segregação. Deixamos o show meio de lado, nos afastamos da multidão e discutimos sobre que presenciávamos. Um defendia a causa de que era ótimo ver um monte de gente curtindo coisa boa. Outros alegavam a deturpação da arte.

Concordei com argumentos dos dois lados, assim como outros de nós. Mas continuo a favor da anti-tietagem - como já dizia Raul 'Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha e eu era agora um cérebro vivo a vinagrete / Meu cérebro logo pensou: que seja, mas nunca fui tiete'.

E lembrei dos estudos de Walter Benjamin acerca da perda da 'aura' das obras de arte. A Mona Lisa que você vê na tela do seu computador não é a mesma que está lá no Louvre, em Paris, por exemplo. Onde estão os detalhes dos traços do pintor ou as diferentes camadas da tela? Até que ponto esse potencial de difusão da mídia nos aproxima ou nos afasta, atrapalha e distorce a arte como obra em si?

Aos meus amigos deixo aqui um trechinho de textos que pude ler, e que, mesmo resumidamente, serve para apimentar mais essa discussão:

'No ensaio a obra de arte na época de suas técnicas de reprodução (1936), o filósofo Walter Benjamim afirma que, com as novas possibilidades de reprodução técnica desenvolvidas entre os séculos XIX e XX, a obra de arte perdeu a sua 'autenticidade' e 'autoridade', que lhe era conferida através de sua duração no tempo, aliás, autenticidade e duração são qualidades que perdem o sentido diante destas novas técnicas de produção e reprodução das obras, representada principalmente nas formas da fotografia e principalmente do cinema. Por outro lado, ao perder aquilo que o filósofo chamou de 'aura', a arte deixa pra trás o aspecto elitista e tradicional, deixando de ser privilégio de apenas alguns para atingir a grande massa. Ou seja, segundo Benjamin, as novas técnicas de reprodução da arte poderiam, em última análise, promover a democratização no campo das artes. Neste ensaio Walter Benjamin busca, através da análise das novas experiências estéticas do século XX, um diagnóstico para o indivíduo e a sociedade de seu tempo'.

Sem mais pretensões, queria apenas ouvir opiniões. Dá muito pano pra manga.

Ouça: Panis et circenses (Mutantes)
Veja: Ilha das Flores (Jorge Furtado)




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