Cotidiano Crônico
corner



HOME

ARCHIVES


Textos sobre o cotidiano, o trivial. Vistos de um ponto de vista pessoal e crítico.

Links

Patavinas.

Marcelão.

Pri Barcellos.

Música Artesanal.

Ideafixa.

Confissões de um amigo imaginário.

Bonde da História.

Gustavo Bomfim.

L'Observateur.

Mauricio Coutinho.

Observatório da Indústria Cultural.

Carta Maior.

Baú de saudades.

Cocadaboa.

Pega no Meu Blog!.

O mentor.

Allan Sieber.

Brinquedo de Palavra.

Sexta-feira, Abril 28, 2006


Degraus

Retratos do Brasil a gente vê diariamente. Na miséria cotidiana, na informalidade do dia-a-dia, na roubalheira de gente de gravata etc.

Mas a capacidade do brasileiro de fazer dinheiro em situações impensáveis é muito autêntica. Já vi até calça jeans sendo alugada na porta do Detran - onde, na época, não se podia entrar de bermuda.

E esse tal 'jeitinho' possui uma dinâmica impressionante!

Acabei de ouvir uma história que ilustra isso perfeitamente. Ontem, meu irmão e alguns amigos foram até o sambinha de quinta da UFRJ. Chegam lá e se deparam com portões fechados devido ao horário.

Resolvem então pular o muro. Mas as mulheres que os acompanhavam não conseguem. Eis que encontram, porém, uma escada, daquelas duplas, que temos para fins domésticos, em meio a um entulho. A mesma é colocada prontamente à disposição da ala feminina dos usurpadores.

Durante o processo, a escada quebra, porém, em dois. O que não desanima a turma, que aproveita cada pedaço para uma parte do muro: a de fora e a de dentro. Agora já eram várias pessoas que esperavam para utilizar os malandros degraus como principal acesso.

Meu irmão e seus amigos entram, deixando para trás o muro e seus novos transgressores. E, já no final da noite, encontram com alguém que conta:

'Paguei só 2 reais para entrar por uma escada que colocaram lá na entrada'.

Ouça: LA Woman (The Doors)
Veja: Bicho de sete cabeças (Laís Bodanzky)
Leia: Dom Casmurro (Machado de Assis)



Comments:

Quinta-feira, Abril 20, 2006


De perto

Aquele homem realmente me intrigava. Naquele dia eu voltava do batente e quando me preparava para saltar quase na esquina de casa, como sempre faço, percebi que ele estava no mesmo ônibus. O que nunca havia acontecido antes.

Eu o identificava como o 'manco'. Seu andar era desequilibrado e cambaleante, como se o tronco desejasse uma direção e as pernas outra. Na esquina da minha rua, num bar tipicamente carioca - onde as mesmas pessoas bebem todas as noites dos dias úteis e somem nos fins de semana - o 'manco' era figura certa. Pálido, cabeça dividida entre a careca e os cabelos longos, olhos claros e penetrantes que transpareciam um mistério doentio. O copo sempre cheio, a boca sempre calada.

Diversas vezes, ao passar pelo boteco, pensava sobre qual seria a história daquele homem. Qual tragédia o teria deixado assim? Por que bebia todo dia? Quais seriam suas convicções? Possuía família, trabalhava, onde morava?

Foi então que saltei do ônibus junto a ele nesse dia. Encolhi-me buscando proteção da chuva e fui andando atrás do 'manco' sem que fosse percebido. Seu andar era atabalhoado como sempre e, mesmo assim, mais ligeiro que o meu. Parecia correr não só da forte chuva, mas em direção a algum lugar que fosse, enfim, seu porto seguro. Eu, logo atrás, guiando minha curiosidade, pensando que finalmente teria alguma referência sobre aquele homem patético e soturno. Ao fazer a curva e entrar na minha rua, porém, pude ver por cima dos ombros do 'manco' um bêbado abrigado naquele mesmo boteco de esquina, copo na mão, lhe abrindo os braços: 'Olha ele aí'!

As pernas giram e lá se vai. E eu sigo em frente, sabendo o mesmo que antes - ou talvez não - sobre a realidade manca, indiscreta e inconstante daquele homem.

Ouça: Ninguém=Ningém (Engenheiros do Hawai)
Veja: As invasões bárbaras (Denys Arcand)
Leia: Anarquistas graças a Deus (Zélia Gattai)



Comments:

Sábado, Abril 01, 2006


Em órbita

Cismei de fazer concurso público. Sobre os prós e os contras dessa minha escolha, não discuto mais. Sendo assim, peguei-me obrigado a reaprender conteúdos que davam arrepio na época de escola e achei ter me livrado desde o instante que optei pela carreira de jornalista.

E no ranking dos que continuo querendo distância a maldita Matemática é líder insuperável. Foram, no total, desde a faculdade de comunicação e minha formatura, alegres 7 anos sem binômios, fórmulas e cálculos - úteis apenas na hora de dividir a conta do bar.

Reconheço a importância histórica da linguagem numérica, da trigonometria, da álgebra, etc. Mas vou bem sem tudo isso, obrigado.

Nesses meus dias, lembrei-me dos sombrios tempos de vestibulando praguejando contra Newton e todos os outros criadores da minha maldição.

Mas acho que cheguei no apse mesmo da minha loucura há dois dias atrás. Na televisão acompanhava aquele astronauta tupiniquim sendo lançado aos céus - que, aliás, contrariava minha convicção, diante dos recentes fatos, de que o Brasil já havia ido pro espaço há muito tempo.

E eu, já deitado após mais uma massacrante noite mergulhado naquela lógica insana de fórmulas e números, sentia pena:

'Coitado desse sujeito. Deve ter aprendido tanta matemática na vida'.

Ouça: A seta e o alvo (Paulinho Moska)
Veja: Corra, Lola, corra (Tom Tykwer )
Leia: Vidas secas (Graciliano Ramos)




Comments:



eXTReMe Tracker

This page is powered by Blogger.