Cotidiano Crônico
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Sexta-feira, Março 17, 2006


Flying

Parado no ponto o que mais me chamava a atenção não era a demora do ônibus, o trânsito já excessivamente movimentado da manhã de sexta-feira ou a polícia que passava freneticamente com motos, carros e sirenes pela rua. Mas sim a borboleta amarela sobrevoando leve acima da copa de folhas da amendoeira que invadia a rua tomada por carros.

Quando me dei conta, enfim, da demora excessiva do ônibus, já não tinha certeza se era melhor permanecer ali ou seguir até outro ponto na rua acima, no qual teria acesso a outras linhas mais rápidas do que o 422 diário.

Fui. E embarquei em seguida, sem notar, num 232 lotado. Depois de passar pela roleta e um corredor que desafiava a regra de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço físico, dei sorte. Uma moça se levantara, deixando seu o lugar disponível. Sento. O que me permite abrir o livro um pouco.
Entra então um idoso de cerca de 70 anos que encara a todos com olhar fuzilante de 'bom dia mal educado, seu lugar por favor!'. O resultado vem logo na terceira fileira, quando uma gentil menina cede seu conforto.

E, dois pontos depois, a grávida pára ao lado da estressada secretária, que parecia madrugar às 8 e meia da manhã. As lentes escuras dos meus óculos permitiam que eu fitasse de leve o olhar e o pensamento da última: será que é grávida mesmo? Tão nova. Gravidez na adolescência é uma merda! Espera! É uma barriga sim. Mas que não carrega um feto.

A da barriga passa então adiante no corredor e todos desviam a atenção e seus confortáveis lugares da pseudo-grávida.

Um solavanco, porém, dá o sinal de que a partir dali não poderíamos seguir mais. O ônibus enguiçara. Em meio a protestos e resmungos revoltados, os passageiros deixam o veículo e já se posicionam para a espera do próximo.

Agora estávamos todos zerados. A batalha a seguir determinaria um lugar na janela ou uma simples, incômoda e frustrante carona no corredor. As pessoas se entreolhavam, enquanto alguns tentavam organizar uma fila que, sugestivamente, sempre começava pelo mentor da idéia. E assim formaram-se 3 fileiras de gente distintas, cada qual com seu líder e seguidores que carregavam em si a certeza de sua legitimidade.

O 232 seguinte encosta, abre a porta traseira enquanto alguns correm, se acotovelam e obtém sucesso. O ônibus vazio ainda oferecia alguns lugares vagos.

Ao lado de outros e de pé no corredor, onde permaneci até saltar, eu procurava enfim minha irônica definição: um preguiçoso maldito, um homem de poucas ambições ou um acomodado de merda?

Me identifiquei, porém, muito mais com a borboleta amarela. E sua cínica sutileza em meio ao caos.

Ouça: Cabide (Mart'nália)
Veja: Capote (Bennett Miller)
Leia: Depois do jantar (Carlos Drummond de Andrade)



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Segunda-feira, Março 06, 2006


Destino

Aconteceu mesmo em pleno domingo de carnaval. O síndico do meu prédio estava fora da cidade e não deixara nem ao menos a chave da casa de máquinas do elevador, que havia parado desde a madrugada. Entra em ação, então, meu pai, que trabalha com essa incompreendida máquina de subir e descer há anos.

Existem ambientes que nos tornam diferentes. Nem que sejam por alguns instantes. O ônibus cotidiano, as filas de banco... E o elevador.

Essa caixinha que apenas sobe e desce, nos leva ao escritório e à rua, ao trabalho e ao lazer, ao céu e a terra. E de volta para casa. Sempre nesse vai-e-vem constante e metódico.

Lembro-me do Jô Soares, certa vez, filosofando: 'por que quando estamos num elevador e alguém adentra agimos sempre como se estivéssemos sozinhos? Assoviamos, olhamos para o alto, batucamos na parede...'

A caixinha que sobe e desce nos obriga, mesmo que apenas por alguns segundos, a ficar a sós e compartilhar um espaço de poucos metros quadrados com um, ou mais, estranhos.

Surge também do elevador a profissão mais monótona e exploratória de todas: o ascensorista. Aquela carinha que aparece ao abrir das portas, com um bom dia ou boa tarde, falando sobre qualquer assunto e exteriorizando a sua solidão profissional - a mesma, aliás, que aflige a outros trabalhadores comuns como o taxista, por exemplo.

Além disso, o elevador, e o ascensorista em anexo, são daquelas coisas que a gente só dá falta quando algum problema o retira de nossas vidas. E então temos de subir as escadas ou entramos na cabine e aguardamos bestamente alguém que aperte o botão do nosso andar.

E assim foi nesse singular domingo carnavalesco. Depois de ajudar meu pai a arrombar a porta da casa de máquinas, dei de cara com a mais inusitada das cenas: o pleno funcionamento de um coração de elevador. E meu pai lá. Como um mega-cirurgião-psicólogo, mexendo no cansado e gigantesco motor, ajustando freios e compreendendo, enfim, o drama de um renegado fadado a viver eternamente nessa sua condição vertical. Nesse sobe e desce desmerecido, silencioso e previsível.

Ouça: Meu guri (Chico Buarque)
Veja: Match Point (Woody Allen)
Leia: Cem anos de solidão (Gabriel García Márquez)




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