Cotidiano Crônico
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Terça-feira, Janeiro 31, 2006


Poesia de Raimundo

Olhando assim, de longe, Raimundo é só mais um 'paraíba' típico. O nordestino, aliás, é a prova viva da 3ª Lei de Newton, o princípio da ação e reação: a vida lhe imprime uma ação, o nordestino desdenha sua reação. Forte como uma tora, nunca entrou numa academia. Mas é assim, firme, que resistiu à escassez, sobreviveu na dificuldade e venceu na seleção natural humana.

Pela manhã, como muitos de nós, me levanto praguejando contra o relógio e sua pontualidade racional. O implacável tempo não perdoa. Dane-se seu sono, suas angústias e tudo mais. De pé!

Em meio ao efeito entorpecente do sono, eis que dou de cara com um Raimundo disposto, ereto e sisudo. 'Bom dia. Vim acabar o banheiro'.

Bom dia e OK, já me dirigindo à casa ao lado, de meu avô, pro banho matinal.

Quantos banheiros, cozinhas, pisos e tetos fazem esses raimundos? Ledo engano meu ou não, mas o implacável tempo não surte o mesmo efeito em mim e nele. Eu de pé às 7h praguejando; ele às 5 agradecendo.

Volto à mesa do café, assoviando uma música que não sai da minha cabeça desde o último feriado. Sento e começo a comer.

Ele, agora, atende seu celular: 'Dona Graça, estou acabando o banheiro aqui de uma senhora e às 11 estou aí'. E martela, quebra e cimenta com convicção.

E repentinamente, quando eu menos esperava, inicia seu assovio, parecido com o meu, mas infinitamente melhor, com tons e notas perfeitamente adequadas à música que eu de forma simplista e crua tentava assoprar anteriormente.

Pronto. Meu mundo e o de um raimundo conectaram-se. Ao menos, por alguns instantes. Despeço-me sem interrompê-lo e saio de casa com a alma feliz, ao som do lindo assovio do nordestino e da sublime poesia que evocava:

'Minha vida é andar por esse país...'

Ouça: A vida do viajante (Luiz Gonzaga)
Veja: Munique (Steven Spielberg)
Leia: On the road (Jack Kerouac)



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Terça-feira, Janeiro 17, 2006


Terça

E depois falam mal da segunda, coitada.

Acordo em plena terça-feira e um dia lindo daqueles parece pintar um quadro na janela. Nada contra. Adoro trabalhar com dias bonitos. Mas há aqueles em que acho que qualquer compromisso deveria ser censurado. O caso de hoje.

Banho, rádio, leite, pão, jornal. Aos poucos os afazeres da manhã vão te anestesiando:

'Outro princípio da dualidade estabelecida por Nietzsche é o Dionisíaco. Este ultrapassa o mundo do sofrimento pelo mergulho à unidade do próprio universo, uma experiência mística, levando ao inconsciente. Dionisío é o deus do vinho, liga-se a música e a arte não-figurada. A experiência dionisíaca rompe com o princípio de individualização (Apolo). É a perda de si mesmo, de sua individualização, e essa idéia de perda de si nos remete à de terror. Essa experiência vai selar o laço que une pessoa a pessoa, eliminando todas as diferentes individualizações.

O apolíneo e o dionisíaco têm entre eles um movimento incessante, o devir. E este produz formas. Eles através desse movimento atuam juntos para produzir o mundo, porém não são frutos de uma produção da consciência.

Portanto, temos a unidade do Apolíneo com o Dionisíaco, juntos formando o devir, a vida.

Desse modo, Nietzsche parte do princípio de que o universo humano é constituído de forças conflitantes, sendo que cada força é em princípio um centro explosivo tentando uma síntese precária que tende a dominar as demais, incorporá-las, crescer às expensas delas, aumentamos, assim, o setor próprio de dominação, pois tal é o impulso de cada singularidade conflitante.'


Enfim, entro no ônibus. O Pink Floyd em meu walkman é tão agradável que faz do meu destino apenas um detalhe. As pessoas entram e saem e o sol lá fora reluz como nunca. A viagem é interrompida pelo meu celular que vibra incessantemente:

- Oi filho! Acabei de pescar um cação-viola!
- Hum!

Salto no ponto seguinte.

Ouça: Eus (Baia e Rockboys)
Veja: Quase dois irmãos (Lucia Murat)



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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006


Um 11 de setembro em cada esquina

O 11 de setembro foi um divisor de águas na história. Mas o que fica de mais marcante é essa sementinha plantada por Bin laden e sua trupe: a paranóia. Uma neurose sem maniqueísmos - o mal e o bem estão difusos, o próximo homem bomba pode estar sentado ao seu lado num trem cotidiano; sem previsões; sem controle.

E o desencadeamento brutal dessa insanidade tornou-se diário. Vistos são cada vez mais difíceis de serem obtidos (cadê o nosso direito primordial de ir e vir?). Fronteiras e locais comuns são policiados ao extremo com abusos de privacidade e até assassinatos justificados - isso mesmo que você acaba de ler! - como o do próprio Jean Charles, apenas um brasileirinho perdido por aí, na hora errada, no lugar errado.

E hoje, ao abrir o jornal, dou de cara com mais uma notícia aterradora: 'EUA bombardeiam civis no Paquistão'. O saldo? Dezoito mortos, entre eles mulheres e crianças. Apesar disto, os americanos dizem ter atingido o número 2 da Al-Qaeda, que nem ao menos estava na região!

Isso mesmo: a sementinha de Bin Laden cresceu! E vem sendo regada desde o 11 de setembro, com o devido cuidado pelos principais interessados no seu florescimento. A fim de justificar, enfim, seus atos e colher os futuros frutos dessa árvore maldita: intolerância, preconceito e invasões bárbaras. Ações que, agora sim, possuem um álibi. O etnocentrismo ganhou asas!

Ontem subi o Bico do Papagaio, um dos mais altos picos do RJ. Lá de cima percebe-se não só o barulho ensurdecedor que a cidade faz mas também suas divisões, suas distintas ocupações. E, posso ser eu um brasileirinho qualquer, em cima de um morro qualquer. Mas acho que uma sementinha também foi plantada aqui. Que do mesmo modo foi regada por pessoas interessadas nesse caos urbano que apavora e aliena. E de maneira demonstrativa, nos tornamos uma cidade-cobaia que exemplifica o poder do florescimento em questão, pois seus frutos por aqui andam sendo bem aproveitados: segregação social, chacinas, impunidade. Tudo sob controle.

O 11 de setembro pontua o mundo. Triste de nós que nem ao menos lembramos quando tudo isso começou.

Ouça: Cachorro Urubu (Raul Seixas)
Veja: Vocação do poder (Eduardo Escorel e José Joffily)



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Terça-feira, Janeiro 03, 2006


Underground

Eram os dois, de uma forma só, exemplos reais da cidade partida. Da heterogeneidade que os cerca de forma banal.

A linha do metrô traça o abismo social. De um lado o 'Zona Norte'. Do outro o 'Zona Sul'. Agora frente a frente aguardam a carona que os leva de volta às suas distintas realidades.

'Não ultrapasse a faixa amarela'.

Eis que chega um carro lotado. Vai acolhendo seus filhotes perdidos como aquele peixe que carrega sua prole dentro da boca. O Zona Norte acha com dificuldade seu espaço. E parte.

Alguns minutos depois a estação é tomada pelo carro do sentido contrário, que chega vagaroso. E pára tranqüilo, acomodando seus passageiros em vagões vazios e convidativos. O Zona Sul se vai.

E a estação permanece, aguardando pelo próximo embate silencioso.


Ouça: Fat old sun (Atom Heart Mother - Pink Floyd)
Veja: Hotel Ruanda



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