Pela manhã abro o Globo On no trabalho. A manchete: 'São Paulo é a cidade mais violenta do Brasil. Estudo aponta a cidade na liderança das mortes por homicídio e armas de fogo. Rio fica em segundo lugar'.
De cara acho graça. Penso que é aquela tecla em que o Ancelmo Góis vive batendo: é o estereótipo do RJ ser violento, e é assim que enxergam a gente. No rádio rola um debate sobre a cobertura que é feita pela imprensa no RJ. Parece que alguns até comemoravam a vice-liderança carioca(?!)
Mas a ironia transforma-se em indignação numa conversa com minha amiga Fernandinha. Ela me conta a incrível história de um amigo seu que num show do Araketu no Canecão foi assaltado dentro do banheiro durante um blecaute. Violentado pelos bandidos, dirigiu-se à segurança da casa para relatar o fato e... foi espancado covardemente, pressionado para que a história não vazasse.
'O Brasil anda violento', concluímos quase instantaneamente. Não é o Rio de Janeiro ou São Paulo, ou o conforto aparente gerado por um ranking como esse. É uma questão mundial, antropológica, cultural. E sangrenta. A humanidade sofre de um vírus chamado violência.
E nem toda a evolução tecnológica, conquistas políticas como a democracia ou qualquer outro sucesso obtido pela raça humana em sua curta existência, são capazes de frear essa contaminação coletiva.
O estudo torna-se ainda mais curisoso. Em segundo lugar vem Rio de Janeiro, seguido por Belo Horizonte, Recife e Brasília. Todas metrópoles nacionais, locais onde o ser humano está concentrado. Num aparente atrito, uma auto-flagelação social coletiva.
A violência está difundida em nosso dia-a-dia. E, de maneira banalizada e imperceptível se apresenta através de facetas distintas: no 180, a linha criada ontem para atender a mulher violentada (uma em cada 6!); na administração Garotinho e sua cegueira e incompetência em relação à realidade carioca; na sujeira da política nacional; no estímulo constante a um ambiente anti-ético composto por competições acirradas, valores distorcidos e burrice crônica; na substituição gradual do cidadão pelo consumidor; na ausência de gentileza cotidiana e da maciça presença da desconfiança em nosso cotidiano. Tudo isso é violência.
Semanas atrás oferecemos carona a um velho sorveteiro, que sobe e desce a Joatinga todos os dias, carregado de isopores e sacos de biscoito Globo. Paramos o carro e ele foi se distanciando, negando a oferta e pedindo que continuássemos. Há poucos dias ele nos reconheceu na praia, agradeceu de forma veemente e desculpou-se pela indelicadeza: 'Hoje em dia, sabe como é...'
Sei.
Mas luto todo dia para viver no sentido contrário.
posted by RFerraz
1:41 PM
'Ele vivia no cerne do afeto'. Gilberto Gil define Vinícius de Moraes que era assim: intenso. Movido a paixões. Foi essa a trajetória de um gênio que disse certa vez: 'A vida só se dá a quem se deu'.
O documentário Vinícius, recém estreado no cinema nacional, é uma obra prima indispensável a todos os brasileiros. Indispensável a todas as almas que ainda perambulam aqui na terra. Através de sua obra e de sua personalidade marcante Vinícius nos deixou um legado de simplicidade e amor.
O filme vale mais ainda pela linda trilha sonora e comentários de grandes cabeças tupiniquins como Ferreira Gullar, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Edu Lobo, entre outros. Todos celebrando a alegria e a rica oportunidade de, um dia, ter conhecido ou convivido com o 'poetinha' (denominado assim mesmo, sem a grande megalomania do poeta): 'Ele contribuiu para a felicidade do povo brasileiro', afirma Ferreira Gullar; 'Odiava pão duro', confirma Chico.
A semente vai sendo plantada. 'A arte não ama o covarde', dizia Vinícius. E coragem não lhe faltou. Nove casamentos e personalidade forte. Milhares de amizades, contemplando essa troca que priorizava tanto, regada sempre a muito whisky ('Nunca vi ninguém fazer amizade em leiteria', dizia). E mais: um exemplo a ser seguido por muitos de nossas elites e dirigentes. Como diplomata engajado que era, foi na contramão de preconceitos e padrões. Achava que todo negro deveria ser branco; e vice-versa. A hipocrisia não fazia parte de seu dicionário.
Ao final Chico Buarque prevê: 'Não vejo onde Vinícius estaria hoje com a vitória de tantas coisas que não concordava como a ostentação, e esse pragmatismo onde tudo tem um objetivo claro à frente'.
As luzes da sala se acendem e deixamos o cinema assim: sorrindo um pouco mais; amando um pouco mais a vida e sua beleza tão óbvia.
De rolé aqui no Centro da cidade, parei para ver uma pelada de meninos de rua, perto do largo da carioca. Ali, na calçada mesmo, a bola ia de um lado pra outro, de pé em pé. Minha cabeça voltava lá atrás e resgatava um pensamento meu: ricos não sabem jogar bola.
Desde moleque afirmava isso a todos os meus amigos. Sim, moro na Tijuca, estudei em colégio particular da zona sul, depois fiz jornalismo na PUC. E toda vez que o futebol rola é sempre a mesma história: um joguinho descompromissado que me deixa maluco!
Sei que sou meio neurótico também. Anos e anos de futebol de campo, atuando por alguns clubes pequenos do Rio me deixaram com esse calo mental. Futebol era coisa séria.
Tive a oportunidade de disputar diversos campeonatos ao lado de meninos que pouco comiam e pouco tinham para vestir. Mas jogavam muito. Era de se admirar a superação de alguns. Como Bruninho, nosso lateral esquerdo da época do Light, clube do Grajaú. Doávamos roupas periodicamente para o garoto, que certa vez nos retribuiu com um gol decisivo contra o Vasco, já no final. E chorou copiosamente, nos levando não só à final daquele ano, mas também a um rio de lágrimas que só foi interrompido horas depois. Não foi a vitória somente. Foi a superação de um garoto de morro. De um Rio de Janeiro personificado num pretinho pequenino e desnutrido que, apesar de todas as contradições e injustiças que lhe pesavam, teve seu domingo de herói.
A bola. Essa sim poderia relatar fielmente a diferença no seu trato. Serve como simbolismo. O garoto da baixada, do morro, a recebe como as poucas oportunidades que a vida lhe fornece. E a valoriza como tal. Retém e carrega a pelota de maneira dedicada em busca de um grande objetivo: o gol. Tem vontade e sangue pulsando em cada drible. O tento faz parte de um sonho democrático, que independe de credo, cor ou classe social.
Nas quadras e gramas sintéticas de condomínios e clubes o quadro é outro: a bola é tratada de maneira indiferente. Pobre dela. Passa de pé em pé renegada a ser apenas um acessório do dia a dia; só mais uma bola potencializando vaidades.
Não à toa a redonda contorna milhares de locais, disputas, sonhos e donos, mas encontra-se mesmo aconchegada é nos pés de Robinhos, Pelés e Ronaldinhos.
Vejam bem, são fardos que carregamos de maneira distinta: nós as pernas de pau; eles a ignorância que os cerca. E, no entanto, quando a bola rola... posted by RFerraz
11:45 AM