Cotidiano Crônico
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Sexta-feira, Novembro 25, 2005


Violência personificada

Pela manhã abro o Globo On no trabalho. A manchete: 'São Paulo é a cidade mais violenta do Brasil. Estudo aponta a cidade na liderança das mortes por homicídio e armas de fogo. Rio fica em segundo lugar'.

De cara acho graça. Penso que é aquela tecla em que o Ancelmo Góis vive batendo: é o estereótipo do RJ ser violento, e é assim que enxergam a gente. No rádio rola um debate sobre a cobertura que é feita pela imprensa no RJ. Parece que alguns até comemoravam a vice-liderança carioca(?!)

Mas a ironia transforma-se em indignação numa conversa com minha amiga Fernandinha. Ela me conta a incrível história de um amigo seu que num show do Araketu no Canecão foi assaltado dentro do banheiro durante um blecaute. Violentado pelos bandidos, dirigiu-se à segurança da casa para relatar o fato e... foi espancado covardemente, pressionado para que a história não vazasse.

'O Brasil anda violento', concluímos quase instantaneamente. Não é o Rio de Janeiro ou São Paulo, ou o conforto aparente gerado por um ranking como esse. É uma questão mundial, antropológica, cultural. E sangrenta. A humanidade sofre de um vírus chamado violência.

E nem toda a evolução tecnológica, conquistas políticas como a democracia ou qualquer outro sucesso obtido pela raça humana em sua curta existência, são capazes de frear essa contaminação coletiva.

O estudo torna-se ainda mais curisoso. Em segundo lugar vem Rio de Janeiro, seguido por Belo Horizonte, Recife e Brasília. Todas metrópoles nacionais, locais onde o ser humano está concentrado. Num aparente atrito, uma auto-flagelação social coletiva.

A violência está difundida em nosso dia-a-dia. E, de maneira banalizada e imperceptível se apresenta através de facetas distintas: no 180, a linha criada ontem para atender a mulher violentada (uma em cada 6!); na administração Garotinho e sua cegueira e incompetência em relação à realidade carioca; na sujeira da política nacional; no estímulo constante a um ambiente anti-ético composto por competições acirradas, valores distorcidos e burrice crônica; na substituição gradual do cidadão pelo consumidor; na ausência de gentileza cotidiana e da maciça presença da desconfiança em nosso cotidiano. Tudo isso é violência.

Semanas atrás oferecemos carona a um velho sorveteiro, que sobe e desce a Joatinga todos os dias, carregado de isopores e sacos de biscoito Globo. Paramos o carro e ele foi se distanciando, negando a oferta e pedindo que continuássemos. Há poucos dias ele nos reconheceu na praia, agradeceu de forma veemente e desculpou-se pela indelicadeza: 'Hoje em dia, sabe como é...'

Sei.

Mas luto todo dia para viver no sentido contrário.



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Quarta-feira, Novembro 16, 2005


Alegria de Moraes

'Ele vivia no cerne do afeto'. Gilberto Gil define Vinícius de Moraes que era assim: intenso. Movido a paixões. Foi essa a trajetória de um gênio que disse certa vez: 'A vida só se dá a quem se deu'.

O documentário Vinícius, recém estreado no cinema nacional, é uma obra prima indispensável a todos os brasileiros. Indispensável a todas as almas que ainda perambulam aqui na terra. Através de sua obra e de sua personalidade marcante Vinícius nos deixou um legado de simplicidade e amor.

O filme vale mais ainda pela linda trilha sonora e comentários de grandes cabeças tupiniquins como Ferreira Gullar, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Edu Lobo, entre outros. Todos celebrando a alegria e a rica oportunidade de, um dia, ter conhecido ou convivido com o 'poetinha' (denominado assim mesmo, sem a grande megalomania do poeta): 'Ele contribuiu para a felicidade do povo brasileiro', afirma Ferreira Gullar; 'Odiava pão duro', confirma Chico.

A semente vai sendo plantada. 'A arte não ama o covarde', dizia Vinícius. E coragem não lhe faltou. Nove casamentos e personalidade forte. Milhares de amizades, contemplando essa troca que priorizava tanto, regada sempre a muito whisky ('Nunca vi ninguém fazer amizade em leiteria', dizia). E mais: um exemplo a ser seguido por muitos de nossas elites e dirigentes. Como diplomata engajado que era, foi na contramão de preconceitos e padrões. Achava que todo negro deveria ser branco; e vice-versa. A hipocrisia não fazia parte de seu dicionário.

Ao final Chico Buarque prevê: 'Não vejo onde Vinícius estaria hoje com a vitória de tantas coisas que não concordava como a ostentação, e esse pragmatismo onde tudo tem um objetivo claro à frente'.

As luzes da sala se acendem e deixamos o cinema assim: sorrindo um pouco mais; amando um pouco mais a vida e sua beleza tão óbvia.



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Sexta-feira, Novembro 04, 2005


Ricos não sabem jogar bola

De rolé aqui no Centro da cidade, parei para ver uma pelada de meninos de rua, perto do largo da carioca. Ali, na calçada mesmo, a bola ia de um lado pra outro, de pé em pé. Minha cabeça voltava lá atrás e resgatava um pensamento meu: ricos não sabem jogar bola.

Desde moleque afirmava isso a todos os meus amigos. Sim, moro na Tijuca, estudei em colégio particular da zona sul, depois fiz jornalismo na PUC. E toda vez que o futebol rola é sempre a mesma história: um joguinho descompromissado que me deixa maluco!

Sei que sou meio neurótico também. Anos e anos de futebol de campo, atuando por alguns clubes pequenos do Rio me deixaram com esse calo mental. Futebol era coisa séria.

Tive a oportunidade de disputar diversos campeonatos ao lado de meninos que pouco comiam e pouco tinham para vestir. Mas jogavam muito. Era de se admirar a superação de alguns. Como Bruninho, nosso lateral esquerdo da época do Light, clube do Grajaú. Doávamos roupas periodicamente para o garoto, que certa vez nos retribuiu com um gol decisivo contra o Vasco, já no final. E chorou copiosamente, nos levando não só à final daquele ano, mas também a um rio de lágrimas que só foi interrompido horas depois. Não foi a vitória somente. Foi a superação de um garoto de morro. De um Rio de Janeiro personificado num pretinho pequenino e desnutrido que, apesar de todas as contradições e injustiças que lhe pesavam, teve seu domingo de herói.

A bola. Essa sim poderia relatar fielmente a diferença no seu trato. Serve como simbolismo. O garoto da baixada, do morro, a recebe como as poucas oportunidades que a vida lhe fornece. E a valoriza como tal. Retém e carrega a pelota de maneira dedicada em busca de um grande objetivo: o gol. Tem vontade e sangue pulsando em cada drible. O tento faz parte de um sonho democrático, que independe de credo, cor ou classe social.

Nas quadras e gramas sintéticas de condomínios e clubes o quadro é outro: a bola é tratada de maneira indiferente. Pobre dela. Passa de pé em pé renegada a ser apenas um acessório do dia a dia; só mais uma bola potencializando vaidades.

Não à toa a redonda contorna milhares de locais, disputas, sonhos e donos, mas encontra-se mesmo aconchegada é nos pés de Robinhos, Pelés e Ronaldinhos.

Vejam bem, são fardos que carregamos de maneira distinta: nós as pernas de pau; eles a ignorância que os cerca. E, no entanto, quando a bola rola...



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