Dia desses comprei um aquário. Dizem que é uma forma de terapia inclusive. Não comprei nesse intuito exatamente. Foi mais pela minha admiração pela vida marinha, intensificada ainda mais após a conclusão do curso de mergulho autônomo. Mas acho que no final das contas serve como terapia. Ou ao menos deveria servir.
Pois meu aquário vinha me deixando indignado recentemente. Entendam-me: colocamos diversos peixes a princípio; mas resolvemos mudar o ph da água, afim de criar peixes do tipo ciclídeo, que se assemelham mais aos de água salgada tanto na beleza quanto na fragilidade. Muitos morreram em meio a esse processo. Tudo bem, faz parte.
Mas eis que agora me encontro na posição de um deus. Exatamente isso. O seguinte: meu novo aquário é composto somente de peixes do tipo ciclídeo. O meu grande problema é um peixinho azul, o único ciclídeo que já estava lá desde antes.
Tudo bem, ele é o mais bonito de todos. Soube aproveitar o período de transição do aquário, quando ainda era pequenino, para comer muito e ficar cada vez mais forte e vistoso. Enquanto os outros morriam, todos os recursos e alimentos do pequeno ambiente iam ficando somente para ele.
E foi assim que se apoderou da melhor toca na pedra, que o protege e lhe fornece o melhor refúgio contra a luz. Além de não deixar que também os outros peixes, mais fracos, comam antes dele quando a comida é despejada. Basta que um deles vá em direção ao alimento que pimba! Toma uma bela mordida no rabo.
Pois bem. Há alguma semelhança nessa história que me incomoda. Não sei se foi culpa do meu ponto de vista conspiratório ou da minha revolta em relação ao nosso sistema neo-liberal, capitalista, individualista etc. Mas me sinto na obrigação de não deixar isso acontecer. Não no meu democrático aquário!
Há um claro interesse do peixe azul de que as coisas conservem-se da mesma forma. De maneira territorialista e monopolizadora ele impede que os outros peixinhos se alimentem minimamente, mantendo-os fracos, assustados, desorientados e sem a mínima capacidade de combaterem o seu domínio sobre o ecossistema ali presente.
Até essa semana, quando comprei uma brava lagosta e um destemido peixinho amarelo, que sendo da mesma espécie do azul, está crescendo e ganhando um espaço cada vez maior no aquário. E parece até que isso encorajou os demais habitantes que, agora, buscam de maneira unida e organizada o alimento.
O peixinho azul? Anda confuso e pouco sai da toca com medo de perdê-la. Seus dias de hegemonia estão contados.
Realmente descobri no aquário não só uma terapia, mais que isso, uma inspiração...
Aquele vendaval de ontem deixou minha rua e mais algumas sem luz até quase hoje de manhã. Mas teve algumas consequências a mais que isso. Ao menos para mim.
Sempre me considerei um privilegiado. Moro com meus pais e irmão e tenho como vizinho, no apartamento ao lado, meus avós, tio, tia e 2 primos. Ou seja: nunca estamos sozinhos por aqui. Mas ontem, por voltas das 20:30 eis que o vendaval repentino tirou de nós a luz. E logo a luz!
Pois bem. O que a princípio seria um transtorno tornou-se uma sexta-feira singular. Voltamos no tempo algumas décadas. Senti-me quase que teletransportado para a época de meus avós.
Num horário em que, normalmente, estaríamos distribuídos cada qual em seu canto - uns vendo a novela, outros assistindo ao jornal ou entretido pela tela de um computador ou preparando um lanche - nos víamos, agora, reunidos num mesmo apartamento.
À luz de velas transformamos aquele espaço numa calçada daquelas de antigos subúrbios. Cada qual puxou uma cadeira, falamos sobre banalidades, rimos um tanto quando meu primo apareceu com uma vela de 100 dias, que nos deixou meio apavorados: quanto tempo o garoto achava que ficaríamos na penumbra? Debatemos sobre o referendo do desarmamento e recordamos outros apagões.
Peguei a câmera e bati algumas fotos.
O prédio tem um síndico, porém. Um destemido policial civil que vagava pelos corredores conferindo se estava tudo em ordem. Parou no nosso corredor. Com uma lanterna, cara de assustado, passou em frente aos dois apartamentos entreabertos: 'Tudo bem por aí?'
Alguns minutos depois, recostado no portal do apartamento, ria das piadas de meu avô.
Deveria ser apenas mais um dia de academia. E estavam lá todos os elementos para tal: pesos, cheiro de suor, barulho de ferro e aquelas músicas - que ninguém me explica o porquê afinal! - estimulam o exercício (!?). Pouco diálogo. A TV era a que mais falava através de imagens mudas.
Meus 18 anos me colocavam ali todos os dias no mesmo horário. Abaixo da sala, que era mais um espaço aberto, ficava a piscina. De lá saíam as pessoas que estavam nadando ou na hidroginástica. Ao final da aula, subiam as escadas e passavam por nós destinando-se aos vestiários.
Pois bem, a aula de natação acabara. Eis que surgem 3 moleques molhados ainda. Param e observam a maromba alheia. Olhos espantados e incompreendidos, quanta força! Até que começam a humilhação: cochicham, comentam e riem. Ou melhor, gargalham!
Na verdade, as crianças não compreendiam o motivo para tanto esforço. E o pior: as caretas, os uivos e gemidos alheios se transformaram em desenho animado. Caricaturas de gente. Que graça! E para que tudo isso?
Eu lá. Parado, escondendo-me antes que virasse motivo de chacota também. Eis que chega o resto da turminha, que é prontamente parada pelos 'donos da brincadeira': 'Olha só esse. Parece um sapo cagando! Ahahahaha!'
A essa altura, já encurralado no cantinho da sala, comecei a ver os primeiros sinais de incômodo nos demais marombeiros. Os intervalos entre as séries foram aumentando. As caretas eram evitadas ao máximo. E os gemidos então... Só se ouvia no máximo um 'ugh!'. A boca fechada. Os dentes cerrados.
Alguns mais valentes continuavam seus exercícios. Mas as crianças se acabavam de rir cada vez mais. Agora já eram 10 deles. Uma maioria esmagadora.
Chega o professor de natação. 'Bora galerinha, todo mundo para o vestiário!'
Alívio.
Na época, não voltei a malhar de tarde. Só à noite, quando as perversas criancinhas já estavam em casa. posted by RFerraz
7:21 PM