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Segunda-feira, Junho 29, 2009


O maconheiro, meu irmão e a vizinha

A vizinha.
Daquelas de tom ‘reaça’, dona de casa com aparência ‘gordinhadebobsnocabelo’. Mal-amada, um tanto negligenciada na concorrência com o bar junto ao marido. Ar insalubre e uma decadência particular – daquelas que não sabem mais do que a trama da novela das sete.

Meu irmão
Fisioterapeuta. Escalador nas horas vagas. Cara de poucas palavras. Sisudo. E sereno (como? não sei). Admirador do que é bom e simples. Prático.

O maconheiro
Na verdade, são ‘os’. Um casal de vinte e poucos anos dando o pontapé inicial na ‘vida a dois’. Ela: tatuagem na perna, talvez designer. Ele: surfista, talvez gente boa. Eles: vi apenas uma vez. Os dois com uns elásticos amarrados ao portão do hall de entrada do prédio. Fazendo Pilates.

Meu irmão e a vizinha já se conhecem. O primeiro não gosta da segunda. Por causa dela não se pode nem lavar o carro na garagem. ‘Proibido pela legislação!’, alega a moça. Dividem o mesmo metro quadrado do elevador por dois andares. Suficiente pro seguinte diálogo.

Vizinha: Tá sabendo dos mais novos maconheiros do prédio?
Irmão: Hã?
Vizinha: É um cheiro de noite! Não sei como vou fazer pra dormir...
Irmão: Quem sabe assim a senhora não dá uma relaxada?

Veja: 21 gramas (Alejandro González Iñárritu)
Veja: Um homem bom (Vicente Amorim)
Veja: O curioso caso de Benjamin Button (David Fincher)



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Quinta-feira, Junho 18, 2009


Pedra do Rio



A caraça dela fica lá de cima. Vigiando o Rio de janeiro, nosso vai-e-vem.

Agora é assim que vejo a Pedra da Gávea.

Do Alto da Boa Vista então, nem se fala. Vislumbro ela imponente, absoluta.

Sonhando sozinha no mesmo lugar, talvez.

Me lembro de ter tido a mesma sensação quando passei pelas montanhas do Peru. Algumas chegavam a assustar tamanha grandeza e força que demonstravam. Elas pareciam imperar aquele lugar. As estradas eram apenas espectadoras (e nós também). Ou súditos que habitavam o reino das pedrosas gigantes, coroadas de branco pela neve dos Andes.

Quem disse que pedra não vive?
A ‘da Gávea’ expõe suas caras e bocas diariamente. Os olhos fixos que não perdem nada à sua volta. As sombrancelhas firmes e irremediavelmente sisudas.

Enquanto isso nego faz graça, tira foto. Sobe de corda ou caminhando pelas beiradas da sua face. Dorme na cabeça, no olho. Ela não se perturba.

Permanece sua vigilância diária, à luz da lua, no brilho do sol, por entre as nuvens...

Nada lhe escapa.

Veja: Waking Life (Richard Linklater)



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Terça-feira, Junho 16, 2009


Dita mole

Disciplina: História das Américas II. Na aula discutíamos um trecho do livro chamado O Estado Militar na América Latina, de Alain Rouquié. O autor discute a real influência da Doutrina de Segurança Nacional na difusão das ditaduras latino-americanas.

O argumento que apresenta é simples: não combate a ideia de que os Estados Unidos motivaram, apoiaram, manipularam, concubinaram, enfim, para o sucesso das ditaduras em países como Brasil ou Chile. Pelo contrário, admite a importância que o Tio Sam teve nesse processo, fornecendo apoio bélico, político e até econômico para regimes nem um pouco democráticos – logo eles, ironicamente, os ‘missionários’ da democracia pelo mundo!

Mas o autor RELATIVIZA essa importância. Não a ignora. Apenas defende a ideia de que esse apoio, essa doutrina norte-americana foi muito bem-vinda (obrigado!) por nossa elite militar. Que se dizia pronta a assumir esse papel messiânico de levar o progresso à nossa civilização tupiniquim.

Teve gente na sala torcendo a cara. ‘Coisa de milico’, vociferavam.

Eu lhes digo - diante do que li: os tais milicos não estavam a sós. Eram apoiados de perto por uma elite grotesca (espalhada por outros países da América Latina diga-se de passagem) que achava-se detentora de um poder civilizatório. Capaz de implantar essa tal ‘ordem’ tão necessária para o progresso. E nesse ponto destaca-se o papel (sujo e pedante) dos militares, obviamente.

Assim, a Doutrina de Segurança Nacional foi muito bem recebida e adapatada à nossa realidade. Formas de controlar de perto o tal inimigo interno, que já havia levado um país latino-americano, Cuba, pra pertinho da URSS.

Hoje, a ‘onda’ anti-EUA tem seus fundamentos. A atuação obscura do Império norte-americano fica cada dia mais evidente (até porque o capital está em crise: no money, no happiness!). Das Américas, passando pelo Oriente Médio, chegando à Ásia e África tem sempre a marca deixada pelo dedo sujo do Tio Sam. Mas existem horas que não podemos ser assim tão maniqueístas. Essa é uma delas.

A maior comprovação da relevância dos argumentos do autor, nós mesmos, alunos, percebemos em sala: todos conhecíamos ao menos uma pessoa da geração dos nossos pais e avós que tem elogios à Ditadura Brasileira.

Elogios à oferta de emprego, à ‘segurança nas ruas’ e até à imposição de uma moral ‘puritana’ (leia-se caretice e alienação) que caracterizaram os anos de chumbo em certo aspecto.

Gente que não deve ter tido nenhum parente ou amigo morto, torturado ou desaparecido. Que pertence àquela direita bisonha, egocêntrica e reacionária, que anda bem debaixo dos nosso narizes. Gente que desfila preconceito em piadas sutis - ou descaradas - e que apóia a impunidade aos que ‘podem’. Que em pleno século XXI, no apagar das luzes de um mundo caótico, ainda acha que estando numa classe abastada devem por isso ser dirigentes de uma ordem tosca, previsível, anêmica. Em que o dinheiro e o poder comandam um mundo seco.

Para eles a Ditadura foi ‘dita mole’. Foram esses indivíduos que receberam a ditadura de braços abertos (ou cruzados) junto com os tais ‘milicos’. Que, conforme constatou a turma – e eu, que me pego a cada dia mais ignorante - ajudaram a difundir de alguma forma o terror.

Pessoas que devem ter em suas mãos o mesmo sangue fedorento dos que apoiaram ou fecharam os olhos para as atrocidades no nazi-facismo.

E repito: gente como a gente. Não adianta fugir, a história sempre recai sobre nossos braços. Isso sim é instigante! Somos atores históricos, personagens do nosso tempo.

O que você anda por aí fazendo, discutindo, buscando, difundindo, aprendendo, pensando, questionando, conhecendo...?

Veja: Batismo de Sangue (Helvécio Ratton)
Veja: O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger)
Ouça: Muito obrigado ('Quem precisa de ordem?') (Mundo Livre S.A)
Ouça: É proibido proibir (Caetano Veloso)



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Terça-feira, Junho 02, 2009


Energia Racional

Relevem o fato de ser uma matéria do Fantástico. Que desfila todo o preconceito do cidadão médio brasileiro com relação a qualquer coisa que vá além de sexo, dinheiro e fama.

Mas a título de curiosidade vale muito!

A melhor parte: Paulinho Guitarra tenta explicar a seita 'Universo em Desencanto':

'Achava mó barato a origem da humanidade... Que a humanidade veio de uma planície Racional que derreteu, aí foi descendo e foi formando o sol, as estrelas...'

Carajo!

Em tempo: pra mim um dos melhores álbuns da música brasileira.

Aqui, a matéria do fantástico.

E um som



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Quinta-feira, Maio 21, 2009


Relações musicais

Música é como conhecer uma mulher.

Me explico.

A música, assim como a mulher, lhe agrada muito mais quando entra no mesmo fluxo que você, quando é compatível com seu momento de vida. Como aquela baita banda que você ouviu ainda adolescente, sem ‘maturidade auditiva’ para absorver a complexidade do som. Afinal, sensibilidade também precisa de tempo para ser treinada, desenvolvida. Sem dramas. Led Zeppelin e Tom Zé me conquistaram assim. Música Clássica também.

Tem a música que você flerta. Mas não passa disso. Aquela banda, ou tipo de som, que lhe apetece por algum momento, desce bem numa noitada agradável, num clima propício. É casual, e talvez sua beleza esteja nisso mesmo. A música eletrônica é meu flerte mais antigo.

Tem a paixão musical. É fugaz e intensa! Um som arrebatador que você vicia, ouve sem parar por meses, dia e noite. Como aquele casal que não pode ficar a sós por 2 minutos. Sai faísca! Mas uma hora se vai da mesma maneira que chegou. Se consome até a última ponta. Raimundos foi meu caso clássico.

Tem a música que trai. Não lhe põe um par de chifres, mas é quase isso. Aquele som que você sempre curtiu, mas por alguma discordância repentina – política, comportamental, ideológica ou até gosto (que muda mesmo oras!) - você ‘não quer mais ver nem pintado’. Um caso típico que conheço da minha geração: Charlie Brown Jr. Depois da porrada no Camelo, então. Tiro no pé!

Tem o amor musical eterno. Artistas de que você se orgulha por ter aquele vinil raro, guardado como a fotografia de uma viagem inesquecível com a pessoa que você acha vai guardar no ‘pra sempre’. Pink Floyd, Jimi Hendrix, Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados; Chico, Caetano e Gil. Los Hermanos. Tenho muitos, graças a Deus!

Em contrapartida, tem o amor musical bastardo. Esse não há um que não tenha. Metaforicamente, é aquele som que você ADORA, mas só ouve sozinho. Tem vergonha de apresentar aos amigos. Você pode até amar. Mas diminui o som depressa até quando desconfia que o MP3 está muito alto - e alguém ao seu lado no metrô pode flagrar seu gosto duvidoso. Bom exemplo (meu): Fagner (com todo respeito!).

E a música inteligente, com ‘conteúdo’? Aquele som que, como a pessoa que você curte de ‘dentro pra fora’, soa interessante pela letra, pelas coisas que lhe diz ao pé do ouvido e que faz você ignorar completamente qualquer imperfeição da ‘embalagem’. Estilo Amy Winehouse, saca?

Intenso também é o amor musical novo. A música ‘de agora’, que lhe arrebata o ouvido com um simples acorde, com a mesma ternura de um doce sorriso da mulher que habita seus pensamentos do presente. Tem a virtude da novidade. Lasciva Lula, Móveis Coloniais de Acajú, Supercordas, Songoro Cosongo, Cordel do Fogo Encantado... Gente nova e (muito boa!) que me conquistou recentemente.

Ah! Tem ainda o amor musical do tipo ‘rolo eterno’: não importa quanto tempo você esteja sem ouvir, quando esbarra... Tem a química, mas não a presença constante. Você gosta, mas não tem nenhum CD. Não que isso afete em alguma coisa. Você sabe que talvez com ela nunca chegue a lugar nenhum. Mas basta encontrar que ocorre um transe. A música toca e você se joga a dançar! E vai matando a saudade com a sede dos deuses! Meu rolo histórico: Beatles.

E tem mais: a música ‘bom partido’ - todos acham interessante, mesmo os que não se sentem atraídos; a ‘galinha’ – aquela que todo mundo exclama ‘essa é minha música!’ quando toca (inclusive você!); a ‘conquistadora’ - basta apresentá-la ao ouvido de alguém que o arrebate é certo; a ‘feinha simpática’ – só agrada a alguns, mas é legítima; a ‘guerreira’ - você só encara depois de umas cervejas... E por aí vai.

Enfim, ouvidos e coração. Mais próximos do que se imagina.



Veja: Exposições OSGEMEOS (CCBB) e 28 milímetros (Casa França-Brasil)



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Terça-feira, Maio 19, 2009


Uma pausa

Dia 23 de março. Um grupo de dança belga resolve fazer uma apresentação surpresa na estação de trem da Antuérpia.

O resultado: a beleza da arte do inusitado impregnando por instantes a correria (e cegueira) diária.

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=0UE3CNu_rtY

****

O sono da Razão produz Monstros
Francisco José de Goya


Veja: Daens - Um grito de justiça (Stijn Coninx - BEL)



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Sexta-feira, Maio 15, 2009


Leve... e suave coisa nenhuma

Amor (Secos e Molhados)
http://www.youtube.com/watch?v=r5klvl9ctbU&feature=related

Leve, como leve pluma muito leve, leve pousa
Muito leve, leve pousa.

Na simples e suave coisa, suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma!

Sombra, silêncio ou espuma
Nuvem azul que arrefece

Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma, que me amadurece

Leve, como leve pluma muito leve, leve pousa
Muito leve, leve pousa.



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Quarta-feira, Abril 29, 2009


Pra ler

Galeano. Um dos melhores autores latino-americanos contemporâneos. No entanto, seus artigos não são publicados regularmente no Brasil.

Recentemente, Chávez presenteou Obama com um livro do escritor: ‘As veias abertas da América Latina’. Excelente por sinal!

Li o texto abaixo, dele, esses dias. Gostei. Repasso.



Eduardo Galeano
De pernas pro ar

Educando com o exemplo
A escola do mundo ao avesso é a mais democrática das instituições educativas. Não requer exame de admissão, não cobra matrícula e dita seus cursos, gratuitamente, a todos e em todas as partes, assim na terra como no céu: não é por nada que é filha do sistema que, pela primeira vez na história da humanidade, conquistou o poder universal.

Na escola do mundo ao avesso o chumbo aprende a flutuar e a cortiça a afundar. As cobras aprendem a voar e as nuvens a se arrastar pelos caminhos.

Os alunos
Dia após dia nega-se às crianças o direito de ser crianças. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana.
O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.

Curso básico de injustiça
A publicidade manda consumir e a economia o proíbe. As ordens de consumo, obrigatórias para todos, mas impossíveis para a maioria, são convites ao delito. Sobre as contradições de nosso tempo as páginas policiais dos jornais ensinam mais do que as páginas de informação política e econômica.

Este mundo, que oferece o banquete a todos e fecha a porta no nariz de tantos, é ao mesmo tempo igualador e desigual: igualador nas ideias e nos costumes que impõe e desigual nas oportunidades que proporciona.

Pontos de vista
Do ponto de vista da coruja, do morcego, do boêmio e do ladrão, o crepúsculo é a hora do café-da-manhã.

A chuva é uma maldição para o turista e uma boa notícia para o camponês.

Do ponto de vista do nativo, pitoresco é o turista.

Do ponto de vista dos índios das ilhas do Mar do Caribe, Cristovão Colombo, com seu chapéu de penas e sua capa e veludo encarnado, era um papagaio de dimensões nunca vistas.

Fonte: Carta Maior


Veja: Luz Sileciosa (Carlos Reygadas - MEX)
Veja: A vida dos outros (Florian Henckel von Donnersmarck - ALE)
Leia: Projeto Criança e Consumo
Ouça: Segue o Seco (Marisa Monte)




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Quarta-feira, Abril 22, 2009


E agora, cara pálida?

NA AMAZÔNIA, ÍNDIOS TENTAM LEVAR MENINA PARA ALDEIA
Justiça teme infanticídio e mantém criança, que está com tuberculose, internada em Manaus


SÃO PAULO. Índios Ianomâmis lutam para levar de volta para a aldeia, em Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas, uma menina de 1 ano internada desde setembro de 2008 com hidrocefalia em um hospital de Manaus. Eles ameaçaram retirar a menina da enfermaria, contrariando decisão da Justiça que a mantém no Hospital Dr. Fajardo. A tribo quer que a garota seja tratada pela medicina indígena.

A criança está isolada porque sofre também de tuberculose. Ela se alimenta por sonda, mas respira sem ajuda de aparelhos. Sua perspectiva de vida é de dois anos, segundo o secretário de Saúde do Amazonas, Agnaldo Gomes da Costa. A aldeia fica a 639 quilômetros de Manaus.

A preocupação da Justiça é com o infanticídio. Segundo o administrador da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Manaus, Edgar Fernandes Rodrigues, as atividades domésticas em uma aldeia ianomâmi competem à mulher, e o assassinato de crianças é permitido se ela gerar um filho deficiente. Rodrigues explicou, no entanto, que esse não seria o caso da garota. Segundo ele, a criança estaria em estado terminal e deveria ficar ao lado da família nos últimos dias de vida. Para ele, a cultura do povo indígena não está sendo respeitada.

Fonte: O Globo, 22 de abril de 2009



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Sexta-feira, Abril 17, 2009


Terra e sangue

Hoje é o Dia Internacional de Luta pela Reforma Agrária.

Em nosso país, um dos únicos no mundo onde nunca foi feito essa tal Reforma, lembremos a morte da Irmã Dorothy; ou os 13 anos de impunidade da chacina de Eldorado de Carajás (19 trabalhadores – desarmados! - assassinados pela polícia).

Numa semana que vimos trabalhador chicoteado nos trens da Central, deixo aqui texto de Luis Fernando Veríssimo. Com quem divido a opinião que sempre defendi acerca da LEGITIMIDADE de um movimento como o MST.

A evidência

É fácil ter opiniões firmes sobre, por exemplo, o câncer (contra) e o leite materno (a favor). Já outros assuntos nos negam o conforto de pertencer a uma unanimidade, ou mesmo a uma maioria. São assuntos em que os argumentos contra e a favor se equilibram e sobre os quais a gente pode ter opiniões, mas elas estão longe de ser firmes. Até opiniões que você julgaria indiscutíveis - exemplo: nada justifica a tortura - são controvertidas, e basta ler as seções de cartas dos jornais para ver como a pena de morte, oficial ou extra-oficial, tem entusiastas entre nós. Em assuntos como aborto, cotas raciais nas universidades, etc. coisas como a religião, a formação, a ideologia e até o saldo bancário de cada um determinam as opiniões divergentes. E não vamos nem falar nos extremos opostos de opinião provocados por qualquer avaliação do governo Lula.

Mas há um assunto sobre o qual você talvez ingenuamente imaginasse que nenhuma discordância seria possível. A brutal evidência - geográfica, cartográfica, literalmente na cara, portanto independente de interpretação e opinião - da iniquidade fundiária no Brasil, um continente de terra com poucos donos, era tamanha que durante muito tempo uma genérica 'reforma agrária' constou do programa de todos os partidos, mesmo os dos poucos donos da terra. Era uma espécie de reconhecimento da injustiça inegável que desobrigava-os de fazer qualquer coisa a respeito, retórica em vez de reforma. O aparecimento do Movimento dos Sem Terra acrescentou um novo elemento a essa paisagem de descaso histórico: os próprios despossuídos em pessoas, organizados, reivindicando, enfatizando e até teatralizando a iniquidade, para contestar a hipocrisia. A evidência insofismável transformada em drama humano.

Pode-se discutir os métodos do MST, e até que ponto as invasões e a violência não dão razão à reação e não desvirtuam o ideal, além de agravar a truculência do outro lado. Mas sem perder de vista o que eles enfrentam: não só a injustiça que perdura, apesar de programas governamentais bem intencionados e de alguns avanços, como um Congresso recheado de grandes proprietários rurais, o poder político e financeiro dos agro-business e uma grande imprensa que destaca a violência mas sempre ignorou a existência de acampamentos do MST que funcionam e produzem - inclusive exemplos de cidadania e solidariedade. É a minha opinião.




Leia: Os Sertões (Euclides da Cunha)



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Quinta-feira, Abril 16, 2009


Dedução

Sei que pode (ou deve) ser um raciocínio rasteiro meu.

Mas tem a sala de aula. Do lado, um banheiro e à sua frente, um bebedouro.

Toda vez que tocam a descarga (dá pra escutar) a água do bebedouro mirra...

Parei de beber água ali.

Leia: Escravidão e cidadania no Brasil monárquico (Hebe Maria Mattos)



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Segunda-feira, Abril 13, 2009


Ideologia futebolística

A rivalidade no futebol... Cada um tem a sua preferência.

A minha sempre foi ganhar do Fluminense.

Não só pela aura do Fla X Flu em si, disparado o clássico mais colorido do Maracanã. Ou pela constante atuação do Sobrenatural de Almeida, personagem do Nelson Rodrigues, responsável por lances místicos no clássico que nascera ‘quarenta minutos antes do nada’. (Ontem, aliás, vi, da arquibancada, ele tirar uma bola de dentro do gol!)

Mas explico minha preferência pelas vitórias sobre o ‘tricolete’: eles se auto-representam através de um discurso típico de uma parte da população brasileira bisonha. Que se autodenomina ‘elite’. E como toda elite brasileira (principalmente essas que se assim se autodefinem), é burra.

No alto da sua mesquinhez, segregam. Renegam a raiz mestiça nacional com um discurso que soa neo-fascista: ‘somos a torcida mais bonita, branca’. Uma ‘raça ariana’ - que se esbalda em sua pobre ‘brancura’, mergulhados num pó de arroz de gosto duvidoso.

O mesmo pó de arroz, aliás, que um jogador mulato utilizou pelo corpo no começo do século passado. Numa época em que os negros não eram aceitos nos clubes da Zona Sul carioca, tentou disfarçar sua negritude, para ser bem aceito no clube das Laranjeiras. Feio. E simbólico demais!

Comprei essa briga.

E no Maraca, a cada Fla X Flu (que, aliás, nunca foi Flu X Fla) eu visto minha camisa ideológica por debaixo do manto rubro-negro. Me junto à ‘ralé’, à torcida mais democrática e brasileira que existe. E açoito de lá essa porca massa de gente preconceituosa.

A cada fuzilamento como o de ontem, me delicio um pouquinho com o gosto de uma vitória quase política. 'Silêncio na favela'? Não, dia de festa. Daquelas!

E me junto, ao fim, num coro só: ‘é nóis, mané!’

Veja: Che (partes 1 e 2)


Jano, cartunista francês, retrata um dia de Maraca no livro/documentário O Rio de Jano



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Segunda-feira, Março 30, 2009


(Des) conexão

Essa é uma reflexão já velha. Mas nem um pouco obsoleta, pelo contrário. À medida que cresce a rede de sites e programas de relacionamentos virtuais ('relacionamento' chega a soar irônico), diminui proporcionalmente o grau de inteligência na utilização dessas maravilhas modernosas.

De todos, sou usuário do Orkut e MSN. E por isso acompanho de perto as peripécias que rolam. E também por isso defendo a ideia de que qualquer um desses pode sim ter uma utilização, digamos, inteligente. Promovendo uma comunicação mais ligeira e sem distâncias, seja no trabalho ou com amigos. Capaz de dinamizar a troca de opiniões, pensamentos e informações.

Por outro lado, vejo claramente que essa nova ideia de compartilhamento simultâneo de informação gerou uma intensa mudança de comportamento. Notória e muito mais mais intensa do que se imagina.

Em tempos de culto à celebrização, pessoas comuns – e nem sempre interessantes – se apropriaram dessas redes sociais cibernéticas como um pseudo palco. Onde exibem ao ‘mundo' novidades duvidosas, que vão desde a última descoberta contra o câncer até dor de barriga que estão sentindo pela manhã.

Quem de nós nunca viu alguém fazer um papel constrangedor, seja no MSN ou no Orkut? Explanando aos amigos da sua “rede”, incluindo você, assuntos irrelevantes; sentimentos que antes mereciam ser guardados; ou até estados de humor, que naturalmente mudam com certa constância. É como aquele papo indiscreto que você escuta sem querer na praia. Com uma diferença: as pessoas ao seu lado na areia não estavam necessariamente querendo tornar pública sua conversa.

Agora pense bem, faça um mea culpa e perceba que você também não escapa. E dificilmente nunca fez esse exercício de exibicionismo ao menos uma vez nos últimos anos, mesmo que por um impulso quase inconsciente. É uma armadilha discreta. Uma onda fácil de surfar.

A revista Época da semana retrasada, trazia na na capa um novo fenômeno de sucesso internacional que segue essa linha, o TWITTER. Serviço gratuito de troca de mensagens que se propõe a partir de uma pergunta: What are you doing?. Que resume exatamente não só o que falei anteriormente, mas principalmente o rumo vislumbrado pelos criadores dessas ‘maravilhas’ e seus seguidores.

Mas bom mesmo é o vídeo abaixo, que consegui encontrar legendado. É a própria síntese desse novos tempos, produzido pela série de animação SuperNews! .

TWOUBLE WITH TWITTERS




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Quinta-feira, Março 26, 2009


...

SÓCRATES: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?

GLAUCO: Naturalmente.

SÓCRATES: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

GLAUCO: Sem dúvida alguma, eles o matariam.

SÓCRATES: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que aprendemos pela vista à estada na prisão; a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e você não se enganará sobre minha esperança, já que deseja conhecê-la.
Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo caso, eis o que me aparece tal como me aparece: nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem que se percebe com dificuldade, por último, mas que não pode se ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de justo e belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que concede a verdade e a inteligência.
Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

GLAUCO: Tanto quanto sou capaz de compreendê-lo, concordo contigo.


Trecho final da ‘Alegoria da Caverna’ (Platão)



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Quarta-feira, Março 25, 2009


Não resisto...

Mais dois imperdíveis:

The Corporation (Mark Achbar e Jennifer Abbott)
Persépolis (Marjane Satrapi)

***

PUNK! Agora imagina ao vivo, na veia: Karma Police (Radiohead)



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