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Domingo, Novembro 27, 2011


Amostragem

O contexto: cinema em Ipanema, estreia do novo filme do Almodóvar, sala cheia.

Mal o filme começa e a tela se apaga repentinamente. Das duas uma: ou havia algo de errado naquela exibição ou o cineasta gostava mesmo de surpreender o público.

A segunda opção é descartada em menos de um minuto, à medida que o silêncio e o nada na telona permanecem. E se inicia então uma daquelas situações emblemáticas de Brasil – ou algo mais generalizante, latente aos seres humanos.

Alguns começam a vaiar e gritar num coro esquizofrênico. Aêêê!, Uhhh!, Ôôô! Como se a força daquelas vogais fosse capaz de fazer o filme voltar ao curso normal. Passados mais alguns segundos, muitos praguejam (sentados!) contra um suposto operador, que estaria conspirando contra o seu programa de sábado à noite. Pegam pesado e não satisfeitos em vociferar contra o vento – já que hoje a tecnologia desempregou o pobre operador das películas em rolo – levantam-se decididos em meio ao escuro, dirigindo-se ao fim da sala e socando o vidro que separaria o operador – que repito, não existia! - da plateia. Umas pessoas acompanhavam tudo atônitas, outras apoiavam o ato de vandalismo com palavras de incentivo. Cena de cinema!

Em meio ao caos, um ou dois dirigiam-se calmos e certeiros à porta da sala para comunicar à administração o problema – ou talvez fugir das reações insanas que imperavam naquele escurinho infernal.

A luz se acende e então entra a moça uniformizada, funcionária escalada para realizar a ingrata missão de encarar a ira da clientela. Todos silenciam por instantes – “o silêncio que precede o esporro” – para ouvir a seguinte frase-atendente-de-telemarketing: “Estamos com um problema na lâmpada do projetor, mas em breve estaremos comunicando o procedimento adotado.” E sai, antes do esporro que se traduziu num murmurro coletivo do tipo e agora o que vai acontecer?

Cinco minutos e volta a do uniforme com os seguintes dizeres: “Sentimos informar, mas a lâmpada do projetor queimou. Estaremos cancelando a sessão e estaremos devolvendo o dinheiro...” Mal acaba de falar e é interrompida por um cidadão descontrolado gritando: “Não acreditooooo!”. Não, ele não era parente da lâmpada do projetor, mas abriu os trabalhos para o caos irradiar novamente. Enquanto isso, a funcionária saía de fininho, deixando a ira da plateia para um novo alvo: a moça da bilheteria, que ouvia desaforos enquanto devolvia a grana dos ingressos.

Quantos estereótipos havia naquela sala de cinema? Muitos. Que representam as diversas atitudes e personalidades que se manifestam espontaneamente entre nós em situações ilustrativas como essa: os que não fazem nada; os que fazem sem saber bem o que fazer; os que fingem fazer; os que confundem fazer com ofender/praguejar; os que fazem o que os outros fazem; e os que, mesmo sendo exceção, procuram o mais correto a se fazer.

Um recorte de Brasil. Uma amostra de Humanidade.

Veja: Piaf - um hino ao amor (Olivier Dahan)
Ouça: Going To California (Led Zeppelin)



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Sábado, Outubro 29, 2011


Leituras II

"(...) A sorte é o árbitro de metade das nossas ações.

(... ) Ela deixa a outra metade, ou quase isso, para nós governarmos."

"Deus não quer fazer tudo sozinho."

Maquiavel

Leia: Paisagens da História (John Lewis Gaddin)
Veja: O palhaço (Selton Melo)



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Sexta-feira, Outubro 14, 2011


A teoria do cachorro do mendigo

A primeira vez que me atentei para o fato foi aos 10 anos mais ou menos. E ficou marcado para mim como uma prova de fidelidade ou talvez apenas mais uma lição rasteira dessas que a vida nos dá – dependendo obviamente da sua subjetividade.

O fato é que desde pequeno me impressiona o mesmo fenômeno: a cumplicidade entre os moradores de rua e seus bichos de estimação.

Aparentemente há uma espécie de “contrato” firmado entre ambas as partes. O que eu interpreto, na minha divagação de boteco, como algo metafísico: o cachorro compreende que ele e seu "dono" se encontram na mesma situação limite, marginal. E por isso valoriza cada pedaço de pão compartilhado, cada folha de jornal que espanta o frio, cada caixa de papelão ou tentativa de lar.

Não é preciso coleira para cachorro de mendigo.

Se não, vejamos: basta ao cão fugir, pois para ele há toda uma infinidade de ruas com seus restos de comida e poças d’água. Para o vira-lata não seria uma queda de padrão tão acentuada. Pelo contrário, levando-se em conta todo o sabor da liberdade – mesmo que miserável - com um importante adendo: as cadelinhas errantes em pleno cio.

Mas eles permanecem ali, pelas calçadas e sarjetas escuras e sujas, fiéis àquele seres que dividem com ele cada recanto das suas misérias. O cão e o homem unidos por um mesmo propósito: sobreviver.

E então eu penso na capacidade humana de compartilhar. Coisas materiais, emoções, ideias... Enfim, nossos potenciais de vida. Sabemos realmente fazer isso?

E volto aos meus 10 anos, com a minha antiga certeza - derivada da minha apressada teoria de criança - de que podemos ser mais por muito menos.

Veja: A partida (Yojiro Takita)
Veja: Um conto chinês (Sebastián Borensztein)
Ouça: Fountains and tramways (Beirut)



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Quinta-feira, Setembro 29, 2011


Leituras

"A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas."

Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil

Veja: Carne Trêmula (Pedro Almodóvar)
Ouça: Atenção (Arnaldo Antunes)
Leia: Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira (Paulo Prado)



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Quarta-feira, Agosto 17, 2011


Quebra

Tudo igualzinho, como sempre, quase na mesma sequência: banho, roupa, leite, pão, jornal, banheiro, mochila, porta… Mas antes de terminar, essa mesma porta fez um barulho sutil. Uma voz que dizia meu nome, acompanhada de um arrastar de mãos que me fez matar a charada. A artrose não deixa girar a maçaneta. A tia avó do apartamento ao lado.

O mundo dela é "estranho", paralelo ao dos que a cercam. O paradoxo de um dia que caminha lentamente e uma realidade que corre rápido demais. Por isso, também pergunta demais – e isso não é bem aceito naquele tal mundo diferente do seu. Mudar o canal da televisão, às vezes, é o desafio da manhã. Recorre ao vizinho. O que é típico, pois já não há referências do seu tempo. A maioria faleceu. Ou permanece senil, esquecida num asilo ou nos cantos de uma casa. Envelhecer é para poucos.

Ela pergunta pela empregada – sua companheira de prosa. Não vem hoje. Depois pede um pedaço de cebola. Ganha uma inteira, promete devolver dois terços. Não precisa. Vai caminhando até a porta, falando sobre amenidades que de repente me soam relevantes: o sol forte, o jornal atrasado, a poeira da obra, o frango que seria feito sem a cebola…

E antes da despedida, já quase no elevador, ouço meu nome soar uma última vez pelo corredor. Acompanhado pelo real sentido daquela visita matinal da velhinha: “Isandro vai ser pai!” E da porta da sua casa, ela chora como talvez tenha feito quando ganhou o primeiro presente especial da mãe, ou quando teve seu primeiro filho. Naquela altura da vida o acaso ainda lhe reservara algum ineditismo. Um neto pai e quatro gerações conectadas por um fio que saía de dentro daquela frágil mulher. Um abraço nela, que agora parecia tão forte, ampla.

E a percepção no estalo daquele abraço: o atrofiado era eu.

Veja: O veneno está na mesa (Silvio Tendler)
Ouça: One more kiss, dear (Blane Runner Soundtrack de Vangelis Papathanassiou)
Leia: Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda)



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Quarta-feira, Junho 29, 2011


Dois grandes autores, duas grandes mensagens





"A utopia está lá, no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

"O medo ameaça:
Se você ama, terá Aids
Se fuma, terá câncer
Se respira, terá contaminação
Se bebe, terá acidentes
Se come, terá colesterol
Se fala, terá desemprego
Se caminha, terá violência
Se pensa, terá angústia
Se duvida, terá loucura
Se sente, terá solidão."

Eduardo Galeano

Veja: Meia-noite em Paris (Woody Allen)
Veja: V de Vingança (James McTeigue)
Ouça: Último Romance (Los Hermanos)



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Domingo, Junho 12, 2011


Janela

Tão miúdo, minucioso, detalhista. Coisinhas pequenas, mas só suas.

A perna balança quase involuntariamente.

O olho arregala antes da risada; a risada que começa com um leve grito.

Uma mão abraça a outra na frente do corpo quando sente frio (ou sono).


A visão aguçada, regada a curiosidade de mundo.

A vida... Com seu lado doce e salgado. Misturados!

E falando nisso, tem a liturgia da comilança - típica de programa predileto: o mel; a xícara; o cheiro do café; mastigação lenta; sabedoria da degustação. Orgasmo gastronômico.

Degustação de vida, de mundo.

Prazer latente e o melhor: sem culpa.


A serenidade expressa no rosto que dorme. O travesseiro de cabelos espalhados.

Sonha.

E abraça(mos).

A preguiça matinal da cama-ninho. Ou seria o ninho-cama?

A ternura expressa no carinho mais singelo que faz tudo ficar pra depois.


A (nossa) paixão pelo “invisível” da vida.

E por falar em compartilhar:

Amor.

A moldura da minha janela.


Veja: Hanna e suas irmãs (Woody Allen)



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Terça-feira, Junho 07, 2011


Cara e coroa

Dizem por aí que a antiga dualidade entre “ser de esquerda” ou “de direita” acabou. E se olharmos para as posições adotadas pelos principais partidos políticos no Brasil, esse argumento é reforçado. Agora o que vale é “centro-alguma coisa”.

Confesso que tenho minhas dúvidas e acho esse ideia de ser “centro-alguma coisa” no mínimo monótona - ou até conformista. E, principalmente, sintomática! Hoje somos um pouco de tudo – o que nem sempre é de todo ruim - mas por isso temos dificuldades em assumir uma posição com firmeza e clareza. E nesse ponto fico com o Lobão, que disse em entrevista recente que vivemos uma “lucianohuckzação” do Brasil.

Porém, apesar da tentativa do “centro-alguma coisa”, é evidente que há uma eterna dicotomia entre os seres humanos. Oposições intrigantes, curiosas que inegavelmente permeiam todos nós. Nas atitudes, nas escolhas que fazemos diariamente. De uma forma ou de outra você acaba se posicionando.

Notado isso, podemos pegar como exemplo quaisquer tipos de pontos de vista e posições que se opõem, independente da nomenclatura e contexto histórico. Exemplos: liberais e conservadores; progressistas e regressistas; revolucionários e contra-revolucionários; humanistas e tecnicistas; alternativos e convencionais; individualistas e coletivistas.

Isso tudo me veio na cabeça, porque acabo de chegar da rua com duas dúzias de bananas. Eu saí para comprar apenas uma. Mas no caminho do Hortifruti, encontrei um ambulante, vendedor de frutas. Acabei comprando duas dúzias, não só porque provavelmente era mais barato, mas porque algo me dizia que aquele cara precisava muito mais da grana de duas dúzias do que os empregados do Hortifruti – que provavelmente recebem o mesmo salário, independente do quanto vendem.

E pensei que talvez seja essa a real dicotomia humana: no que você pensa – o que nem sempre fazemos – durante cada escolha sua?

Talvez o Hortifruti fosse oferecer mais “conforto”, “segurança” e, quem sabe?, até uma banana de melhor qualidade. Mas eu, mesmo sem notar, já havia tomado partido nessa história: na dúvida, escolho pessoas.

Veja: Doze homens e uma sentença (Sidney Lumet)
Veja: Um dia como os outros (Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri – Teatro Poeira)
Leia: Garoto linha dura (Stanislaw Ponte Preta)
Ouça: Lady Writer (Dire Straights)



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Terça-feira, Maio 31, 2011


Um ponto final, para causar reticências...



"Por trás dessa questão das drogas existe um processo de criminalização da pobreza."
Orlando Zaccone - Delegado da Polícia Civil (RJ)

"O que a gente chama de populismo criminológico é exatamente um discurso que vai sendo repetido e que não informa. Ele produz o que a gente chama de senso comum criminológico".
Vera Malaguti - Secretária Geral Instituto Carioca de Criminologia

"Os burocratas que constroem as políticas de drogas têm usado a proibição como uma cortina de fumaça para evitar encarar os fatores econômicos e sociais que levam as pessoas a usar drogas. A maior parte do uso ilegal e do uso legal das drogas é recreacional. A pobreza e o desespero estão na raiz do uso problemático da droga."
John Grieve - Inteligência Criminal da Scotland Yard



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Quinta-feira, Maio 19, 2011


Ao vivo

Hoje eu saí de casa e vi uma mulher andando pela rua. Ela carregava duas sacolas das quais retirava a comida que ia deixando para cada cachorro que encontrava no portão de uma casa. Deixou também uma pequena quantidade de arroz na calçada, pela qual brigava uma horda de pombos famintos. E, enquanto me distrai com os pássaros, ela sumiu, na sua caminhada missionária.

Vi também duas meninas que esperavam para atravessar o sinal. Uma filha com uniforme de colégio público esfarrapado era cuidada por outra “filha” - e algo me dizia que aquilo era comum (e cíclico) no universo delas.

Eu vi no mercado, em plena hora do almoço, um monte de gente triste e solitária.

Vi uma mulher atormentada socar a buzina no trânsito.

Vi um ônibus quase atropelar um moleque numa bicicleta bacana – e então eu poderia ter sido a única testemunha dos últimos segundos de existência daquele ser.

Assisti ao entusiasmo de dois engravatados falando sobre futebol; e de dois garis comparando a tecnologia de seus celulares.

Senti (de longe) a alegria da avó buscando a neta na escola num delicioso final de tarde frio de um quase inverno carioca – o que me lembrou minha infância. E me perguntei se um dia eu chegaria num mesmo patamar de prazer tão simplório: “como foi seu dia?”

Vi uma pessoa se espreguiçando na varanda, se deliciando com a beleza da tarde que caía; e na mesma rua uma criança se escondendo atrás de um poste.

Vi um “homem-estátua” comendo “podrão” no Centro.

E quando achei que não havia mais nada a ver: acompanhei o dia sumir na noite; a rotina se reinventar em algumas páginas de livro; gente adotar o boteco como lar e a internet como espelho.

É meio que isso... Vida ao vivo. O espetáculo mais autêntico da Terra.

Veja: Sonhando acordado (Michel Gondry )
Leia: O velho e o mar (Ernest Hemingway)
Ouça: Castle made of sand (Jimi Hendrix)



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Terça-feira, Março 29, 2011


Grandes merda

O velho tenta entrar no metrô. Correndo, como quase todos.

É engraçado porque nessa hora da manhã a gente percebe todo nosso egoísmo latente. Esse corre-corre patético por um simples assento lembra aquela "dança das cadeiras" das festinhas de criança. Só que sem a inocência da criança. Mas é lá que isso começa, ou deve ser. Podiam servir um bolinho no metrô pelo menos...

E lá estava o velho. Antes de entrar ele teve que passar por um dos obstáculos matinais clássicos: entrar no vagão. Na hora que a porta abre as pessoas que pretendem sair não conseguem simplesmente porque as que querem entrar não deixam a saída livre. E vice-versa! Isso sim é subdesenvolvimento. Nossa incapacidade de conviver harmonicamente em grupo em momentos ilustrativos como esse. É como no trânsito: cada um por si e Deus (ou o guarda na próxima esquina) contra todos.

Mas no fim das contas, no metrô "lata de sardinha" todo mundo, incrivelmente, ri. Juntos! Tem gente que chama isso de ignorância, alienação, falta de educação, acomodação. Somos transportados que nem gado e ainda conseguimos fazer piada disso? Mas bora combinar que é, no mínimo, autêntico.

Voltando ao velho. Depois de conseguir entrar, ele não consegue o lugar ao qual tinha direito. E então resolve encarar os que já estavam sentados à sua frente. E escolhe categoricamente sua “vítima”: um daqueles típicos yuppies, "enjaulado" em seu próprio terno, que o olhava torto, provavelmente pensando: "O que esse velho mala tá fazendo no metrô a essa hora da manhã? Devia estar dormindo em casa com sua fralda geriátrica e seu fim de vida melancólico..."

E nessa hora o velho grita: “Eu mereço respeito! Tá pensando o que?!”

Os demais passageiros se assustam, mas logo começa uma risada coletiva, talvez desdenhando da atitude do senhorzinho ou da cara assustada do yuppie.

O velho não se dá por vencido e lança: “Tá pensando que você tá falando com quem? Sou advogado e professor!”

É exclusivismo, conservadorismo, e muito “ismo” pruma manhã só. E o famoso “sabe com quem você está falando?” para botar tempero no nosso feijão do dia a dia.

Só que justamente nessa hora, em que o “advogado e professor” se revelara como um "diferenciado" na hierarquia social tupiniquim, uma moça não se aguenta: “Grandes merda! Eu também sou!”

E toma-lhe mais risada. O vagão quase vem abaixo, mas a viagem segue. Afinal, nada de anormal. Grandes merda.

Veja: Incêndios (Denis Villeneuve)
Leia: Guia politicamente incorreta da História do Brasil (Leandro Narloch)
Ouça: O que você quer saber de verdade (Arnaldo Antunes)



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Quarta-feira, Março 16, 2011


Antônio José, um jardineiro
Fonte: revista Vida Simples

O que aconteceria com o mundo se todos os homens resolvessem cuidar das plantas do prédio da frente?

Tom Zé é um dos músicos brasileiros mais bacanas. Tem 24 discos, é sucesso internacional e um dos "melhores artistas do mundo na década de 90", segundo a revista Rolling Stone. Há coisa de 20 anos, quando, por assim dizer, apareceu uma casca de banana, ele se empregou numa fazenda no Embu, nas cercanias da capital paulista. Foram três anos nessa, sacolejando no caminhão, misturado aos peões. Depois, enfrentou outra temporada de enxada numa chácara macrobiótica, até descobrir que era possível praticar sua devoção à terra no próprio quintal. Assim, desde o começo dos anos 90, Tom Zé cuida do jardim de um prédio de apartamentos, no bairro de Perdizes, São Paulo - e nem mora mais ali, mudou-se para o edifício da frente. Ganha um salário mínimo, planta flores e frutas e exercita sua arte zen no dia-a-dia, aprendendo a esgrimar pragas das folhas, formigas enxeridas e condôminos de mau humor. 23 horas. As terças-feiras são livres.

Quando deu o estalo de cultivar a terra?
Foi nos anos 80. Queria uma válvula de escape para os meus nervos. Desde pequeno, em Irará, na Bahia, aprendi que a terra alimenta a gente. Ali a principal cultura era o tabaco, o fumo. E quando se tentava plantar outra coisa, não vendia. Plantaram abacaxi lá, deu um abacaxi doce, maravilhoso. Fiz uma música pra isso, em 1972, "O Abacaxi de Irará". Tentei saber como se negociava, fui ao Ceasa (hoje Ceagesp), mas não deu. De modo que a terra sempre esteve presente na minha vida.

Mas você foi mexer na terra bem mais velho...
Eu estava com dificuldades e resolvi consultar o planeta Terra. Fazia terapia também, faço terapia, uma coisa não substitui a outra. Aí fui trabalhar numa fazenda mantida pela prefeitura do Embu.

Como era isso?
Ia duas vezes por semana. Chegava lá bem cedo e saía com os peões, de madrugada, fazendo qualquer coisa que eles faziam, o que estava programado. Um dia era para cuidar de cenouras, outro para limpar a terra, outro para carpir. A gente plantava alface, agrião, tudo sem agrotóxicos. E a prefeitura doava os alimentos para entidades beneficentes. A cenoura de lá tinha um sabor incrível. Aquilo, natural, é um suco. No dia em que eu comi um pedaço, me veio a minha infância. Sabe aquela coisa de Proust, na página 36, de provar a madeleine e voltar no tempo? Eu senti isso com aquela cenoura.

O pessoal sabia quem você era?
Não. Mas um dia levei o violão, cantei pra eles, gostaram. Qualquer peão entende a minha música, que o pessoal acha tão sofisticada. Eles se divertiram bastante. Mas, logo depois, mudou o prefeito e o prefeito novo acabou com a fazenda. Aí, eu já me alimentava com comida macrobiótica e o presidente da associação macrobiótica tinha uma chácara e deixou a plantação por minha conta. Eu fazia tudo absolutamente sozinho, plantava verduras e temperos: manjericão, alecrim e pimentas. Aí, depois de um tempo, também tive de sair de lá.

E o jardim?
Foi seu Rômulo, um italiano que morava ali no prédio (aponta para onde cuida do jardim, bem em frente) que me ensinou. Ele entendia, fazia uns enxertos de rosa e de plantas em geral. Consultei-o para saber que plantas podiam dar mais flores, como fazer enxertos, a adubação certa.

E o que você planta lá?
Nosso jardim é muito caipira. O jardineiro também. Não uso chapéu, luvas... Só ponho para tirar retrato. Bom, tentamos manter a tradição de ter flores: buganvílias, primaveras, rosas, azaléias, marias-sem-vergonha, beijinhos americanos, manacás-da-serra, lírios cor-de-rosa - essa dá em janeiro, lindo, e em março já acabou. Compro no Ceasa ou planto mudas que o pessoal traz.

Você tem suas preferidas?
Ah, acho que as roseiras são especiais. Eu dou nome para elas por causa da personalidade. Tem a "seu Rômulo", tem a "Paulo Freire", que é uma roseira boa, generosa, uma prostituta. Tem a roseira "Bailarina", dada por Sofia e Eliana, que são as bailarinas do prédio, filhas do professor de grego, seu Cavalcanti. Elas me deram uma rosinha cor-de-rosa delicada e resistente como o diabo. E tem as vermelhas, as "Trovadores Urbanos", porque a Maída, dos Trovadores, fez uma serenata para mim e, na hora em que ela cantou na frente do prédio, as rosas levantaram, ficaram lindas.

O que você aprendeu de mais bacana, mais importante?
A época de podar é uma novela. Já aprendi vários tipos de poda, a lua certa, essas coisas. Aprendi a sublimar o barulho da rua. E também aprendi a lidar com as pessoas do condomínio. Porque tem todo tipo de gente, não é? Há pessoas que têm ciúme, algumas reclamam que eu estou gastando muita água, outras trazem plantas e não entendem quando digo que não dá para plantar ali porque uma pode fazer sombra para a outra... Mas eu converso, explico, vou me virando.

Por esse trabalho você ganha um salário mínimo mensal, é isso?
Olha, tem épocas que o síndico compreende o charme do pagamento e me paga. Tem épocas que ele não compreende, de modo que não sei bem quando recebi pela última vez. As pessoas aceitam me pagar, sim. Mas eu mesmo compro quase tudo, vou ao Ceasa, pago do meu bolso. Tem gente que traz plantas novas também. Quando vejo que não vai dar certo, eu negocio. Por exemplo, uma das moradoras, a Cacilda, trouxe um pau-brasil, mas aquilo cresce demais, vai tomando espaço. Aí eu negociei, comprei uma buganvília cor-de-rosa, linda. E assim vai...

Cuidar do jardim ajuda nas idéias? Ajuda a fazer música?
O jardim está presente em tudo o que eu faço. Me ajuda, assim como a psicanálise ajuda também. A terra é alimentadora e minha cabeça fica com saúde para fazer a navegação da música, do terreno, dos materiais que ainda não entraram no universo da música. O jardim fornece combustível, alimenta a divagação cósmica.

Veja: Fabricando Tom Zé (Decio Mator Jr.)
Ouça Tom Zen (Kevin Johansen)



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Sexta-feira, Fevereiro 25, 2011


"Eu quero mais é decolar toda manhã"

Arnaldo Batista (Loki)


Veja: Bonequinha de luxo (Blake Edwards)
Veja: Lixo extraordinário (Lucy Walker, Karen Harley, João Jardim)
Ouça: Nostalgia da Modernidade (Lobão)



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Terça-feira, Janeiro 04, 2011


Futebologia

Que o futebol pode ser parte integrante de uma cultura é inegável. Mas às vezes ele parece supremo na arte de retratar costumes, histórias, pensamentos, preconceitos, paradigmas... E então vira um caldo de evidências – mesmo que às vezes meros julgamentos – acerca de um povo.

Aqui no Brasil, por exemplo. Time nordestino tem alma de retirante! Estádios sempre lotados, a massa apoiando uma equipe aguerrida, "arretada". Ganham na persistência, na perseverança do sertanejo. Se o jogo é contra uma equipe do “Sul Maravilha” então é que o “bicho pega mermo!”.

Os times da “terra da garoa” também são a síntese da alma paulistana: os mais organizados, sérios, cinzas. Mas fortes. Megalomaníacos também, até o Ronaldo (que já era grande) ficou “maior” por lá. Jogada... de marketing. Porque na essência time paulista é isso: futebol de resultado, de ares empresariais (à exceção histórica do Santos, mas por lá tem praia, não vale). Tenta imaginar o Joel Santana no São Paulo, por exemplo. Não rola.

Até porque o Joel já é símbolo de outra “alma futebolísitica”, antagônica à paulista: a carioca. O cara é “esteticamente não convencional”, enrola no “ingrish”, gosta é de boteco, porra! Mas é malandro, boleiro. E ganha. É a personificação, portanto, dos clubes do Rio de Janeiro. Que apesar de serem caóticos, endividados, desorganizados... não perdem a marra! Se der mole, a gente pimba!

Quem também “pimba”, e a gente não pode esquecer, são os de Minas. Cruzeiro e Atlético caricaturam o mineirinho: tem tradição e volta e meia, discretamente, beliscam um campeonatozinho aqui e lá. Comem pelas beiradas, desconfiados que são. Mas sabem a hora certa de agir.

As equipes do Sul também entram nesse meu "pensamento de arquibancada”. Desfilam na grama o espírito de uma Revolução Farroupilha. Jogador que se dá bem por lá é guerreiro, mistura uma influência da garra hermana (dos vizinhos próximos) com a ginga brasileira. É visceral que nem Renato e leva orgulho no nome: Gaúcho.

Ah, tem os times do Norte! Lembra? Alguns a gente até já ouviu falar, como o Remo, o São Raimundo... Negligenciados e com poucos recursos financeiros, ficam isolados da realidade futebolística nacional. Um retrato dessa região tupiniquim, lugar onde ainda se mata pela posse da terra, às vezes lembrado apenas pela existência da Amazônia. A não ser na Copa do Brasil ou por algum feito especial - como quando o Payssandu ganhou do Boca na Argentina – nem no noticiário esportivo aparecem.

Mais “viajante” fica, se começarmos a fazer as mesmas analogias planeta afora. E para isso a Copa do Mundo é prato cheio!

Com a bola no pé os europeus são tradicionais, mas nitidamente pragmáticos: o “chuveirinho” inglês, a disciplina tática alemã, a obediência defensiva italiana, a “arrogância” francesa dos Le Bleus. Muito toque de bola e pouco drible. Menos beleza, mais eficiência. A cada ano a FIFA elege o melhor jogador da temporada e TODOS sempre atuam na Europa. Uma espécie de Eurocentrismo com a bola nos pés.

Os principais rivais do "Velho Continente" são as seleções da América do Sul. Malandros na ginga. Compensam a pretensa desorganização, a disciplina "frouxa" com o que faz a diferença no futebol: talento. Quando não dá no talento, rola um toque de caudilhismo, numa luta quase política: vai na força, na raça revolucionária latino-americana.

Tem ainda as seleções da Ásia. Nunca se espera muita coisa, mas cuidado: um tigre asiático desse pode te surpreender! É assim na economia mundial; é assim nas quatro linhas.

Mas surpresa mesmo se espera da África. Um time do Congo botou o Internacional (do Brasil) na roda esses dias. A seleção de Camarões já fez bonito em algumas competições, a Nigéria também (inclusive contra o Brasil numa Olimpíada, quase um trauma nosso). As seleções africanas dão sempre um tom de imprevisibilidade nas Copas. São efusivos, irresponsavelmente empolgados. Tem muita alegria... mas pouco resultado. Perdem, mas ganham na espontaneidade.

Rende ou não rende uma teoria de boteco?

Veja: Paris (Cédric Klapisch)
Veja: O garoto de Liverpool (Sam Taylor-Wood)
Ouça Ce Matin La (Air)



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Quarta-feira, Dezembro 22, 2010


A nascente dos ideais


Ouça: De Ushuaia a la Quiaca (Gustavo Santaolalla)



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Terça-feira, Dezembro 14, 2010


"Pensar é ser humano.
Fantasiar também."

Todos os verbos do mundo (Zélia Duncan)



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Sexta-feira, Dezembro 03, 2010


Caminhos

Esbarrei no blog de uma amiga dos tempos da escola. Gostei. Repasso.


O tragi-mágico dia em que aprendemos que seremos sempre sozinhos ou uma bicicleta chamada solidão

Quando a gente é criança no nosso mundinho comunitário
cercado de cuidados, amor
e companheiros de diversão
sem hora prá acabar
é traumático o momento em que descobre que em muitas ocasiões
vai ter que se divertir sozinho. É uma espécie de morte.
mesmo
mas a gente sobrevive.

Quando a gente vira adulto em sociedades de conexões
que começam e acabam instantaneamente
sem nem sempre ter virado relação
se dá conta, não sem trauma, de que
por mais cuidadosos e companheiros
de que nos cerquemos, as cercas se tornam ilusão
e que prá amar o Outro
importante mesmo é saber se divertir sozinho.



Fonte: http://www.eslavadesol.blogspot.com/

***

Foi nada demais.

A manhãzinha de um dia qualquer de trabalho. E a música fluindo.

Ou talvez fosse bem mais que isso.

Quem sou eu pra saber?

Música boa é a que te pega de surpresa.

Vida também.



Ouça: Cérebro eletrônico (Gilberto Gil)



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Quinta-feira, Novembro 25, 2010


Hiperlink

Foi simplesmente GENIAL!
Era só uma mensagem encaminhada para uma lista de email de grandes amigos da qual participo. Mas a sequência das respostas é que me fez vibrar.

E mais: pude perceber numa simples troca de mensagens alguns dos múltiplos estereótipos dos cariocas. As verdadeiras vítimas do descaso, da corrupção e da malandragem de uma meia dúzia de pseudo-administradores engravatados, esses sim os grandes FDP desse país!

Viva as facilidades da Era Digital, a fluência da informação livre! E, claro, o debate. Esse sim a luz esclarecedora de tudo.

Segue a sequência dos emails – e comentários nos parênteses.

Email 1
Srs.,
Alguns amigos "mais humildes" me ligaram aqui e me pediram pra evitar sair de casa mesmo.
A Rocinha tá se armando forte. Facções rivais juntas reunidas e o foco é ataques em toda Zona Sul até o fds.
Cuidado, por favor.

(Pânico total! Cuidado com os amigos dos “mais humildes”! Eles estão vindo nos buscar, um a um...)

Email 2 (resposta)
É isso mesmo! Segundo o segurança aqui da empresa que é da Civil, os caras estão no desespero e mega acuados. Depois de 16 anos de guerra os caras se uniram, mas não chegam a estar organizados. O que não sei se é melhor ou pior...
(Esse também tem contato com um “humilde”: o segurança! Que também é da Civil e parece saber bastante sobre o eminente “conflito”. Suspeito...)

A idéia é causar pânico e, nesse caso, melhor evitarmos realmente muita exposição, andar de carro tarde da noite e utilizar vias como Linha amarela, Vermelha, Alto da Boa vista, Paulo de Frontin etc.
(Resumindo: saiam do Rio! Ou se escondam em seus feudos do século XXI, os aconchegantes e emparedados condomínios!)

Até o final de semana a Zona Sul estará tomada pela policia, eles estão organizando turno e o escambal, até escrivão vai pra rua... Pior é realmente para quem mora fora da Zona Sul pois sabemos que o contingente é bem menor.
(Uma afagada nos “mais humildes” e uma cutucada no “escrivão”: será que ele sabe atirar?)

Mas cuidado é realmente importante, o objetivo dos vagabundos é chamar atenção e por aqui chama mesmo...
(Jura?)

Email 3
(Encaminhado para uma outra lista com a conversa acima anexada, e cópia para a lista que faço parte)

Meninas,
Cuidado, evitem sair de casa...
Bjs!


Email 4
(Uma das “meninas”, naturalmente, se assusta)

Ai gente, isso é terrorismo???
Até quando teremos que viver assim?
Isso é apenas o reflexo das UPPs. Agora é hora da Polícia mostrar o seu planejamento e estratégias, porque isso já era previsto.


Email 5
(O fechamento da tampa, o tapa na orelha!)

Por favor, paremos com esses medos idiotas!
Esperavam o que?
UPPs são uma política de bota abaixo! Reunindo nas periferias os “marginais” das favelas do entorno da região de interesse econômico carioca...

(Leiam esse trecho de novo! Perfeito! Aliás, a gente já viu esse filme e não lembra! Pereira Passos que o diga, a demolição dos cortiços também...)

Agora que a situação chegou aos jardins babilônicos da burguesia carioca, todos os playboyzinhos e patricinhas tremem.
Trabalho de terça a sexta em Caxias, na beira da Washington Luis. Até o momento não vi nada de diferente. A violência continua a mesma, os casos de polícia também.
Daqui a pouco, a imprensa volta a reeditar termos como “poder paralelo”, “terrorismo” e outras imbecilidades do tipo. Por favor, continuem com suas vidas. Vivemos em clima de guerra civil faz tempo.

(Alguém duvida disso ainda?!)

Mas só quando importa às classes sociais da Zona Sul e aos meios de comunicação, o terrorismo ideológico é adotado.

“Morrerei de pé a passar a vida de joelho e com o rabo entre as pernas como a maioria.”

PAREM COM OS BOATOS... OU MUDEM-SE PARA FORA DO RJ!!!!


Veja: Tropa de Elite 2 (José Padilha)
Ouça: Anzol (Felipe Schuerry)



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Quarta-feira, Novembro 24, 2010


Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Cecília Meireles



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Quarta-feira, Novembro 10, 2010


Imagine uma menina com cabelos de Brasil



"O cabelo, a fronteira final. Entre caretas e escovas, as viagens em busca de aceitação."

História, roteiro e animação: Alexandre Bersot
Edição: Alexandre Bersot
Produção: Alexandre Bersot e Monica Henze
Ano de produção: 2010
Fonte: http://www.alexandrebersot.com.br/imagine.htm

Veja: As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky)



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Sexta-feira, Outubro 15, 2010


Madruga

Foi engraçado porque justamente agora lembrei do dia em que ganhamos essa beliche. Foi uma vitória! A gente não gostava muito da bicama antiga, ocupava muito espaço no quarto e atrapalhava a brincadeira (a gente até lutou boxe em cima dela uma vez!)

Mas um dia chegou a beliche, um sonho de consumo nosso. E então, tiramos na sorte: eu ganhei e escolhi a cama de cima. Parecia mais legal. Só que logo descobri, dava mais trabalho. Aquele sobe e desce. Você curtia mesmo assim e aceitou a troca - que perdurou até os dias de hoje.

Uma prova de que sempre fomos bons em acordos. Pelo menos entre nós. Acho que foi assim que descobrimos a graça que é dividir. Coisa boas e ruins. É um traço nosso: a gente jogava no mesmo time (eu melhor que você!); assistia à mesma televisão; tínhamos os mesmos brinquedos, as mesmas roupas; mais tarde, usamos o mesmo carro; e até hoje dividimos os mesmos (bons) amigos e (velhos) gostos...

Também existem as diferenças, que são ótimas aliás! Se bem que você é Vasco. Mas tudo bem, essa a gente acerta no futebol mesmo.

Nossa parceria é coisa de sei lá, "outro mundo". Até quem vem "de fora" percebe no primeiro contato.

Esses dias, tenho entrado no prédio e vejo a gente brincando de futebol na garagem. Com aquela bola ridícula de papel engomado com fita crepe! Outras vezes, saimos juntos para a escola ou correndo para ver quem chegava primeiro no elevador. Às vezes saindo para um "rolé" de bicicleta, uma pescaria bem cedinho com o pai ou mais um dia de praia...

O fato é que talvez a cerveja da noite tenha dado uma ajudinha. Mas quando acendi a luz do quarto, lembrei que é umas das últimas vezes que vejo essa cena: você aí, dormindo na cama de cima do beliche, a dias de seguir teu rumo e construir uma vida nova com a mulher que você ama (uma baita companheira, por sinal). Com certeza, uma conquista e tanto! Que eu festejo de alma com você. Afinal, tá mais do que na nossa hora!

Mas sabe aquelas saudades que dão antes de serem ainda propriamente saudades? Eu chamo de “pré-saudade”, aquelas coisas que você sabe que estão por acabar (um pouco mais triste) ou mudar (o que é sempre mais empolgante, pelo menos). A saideira de uma era; a vida virando história; o presente se mostrando as últimas vezes para você antes de se tornar... passado. Suas lembranças, bem ali. Por mais algumas - e únicas - vezes.

(Nessa hora, olhos vermelhos e embaçados de sono se abrem. E encaram o sujeito de pé no quarto.)

- Que horas são, cara? Que foi?

- Tranquilo... Tava aqui pensando na falta que você vai fazer nesse beliche aí de cima, pô...

- (algum resmungo)

- Até amanhã, então.

- Até.

Veja: A River Runs Through It (Robert Redford)
Ouça: Roda (Gilberto Gil)
Leia: Estabelecidos e Outsiders (Norbert Elias)



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Quarta-feira, Outubro 13, 2010


A mina

O homem olhava a televisão apaixonado. À sua frente, uma tulipa de chope. As horas foram passando e ele ali, com a bebida e seu cigarro. Inertes.

Acompanhava o resgate de um grupo condenado a viver durante meses a centenas de metros embaixo da terra. Ouviu na televisão que eram trinta e três ao todo. Histórias de vidas distintas que eram reveladas – até os detalhes sórdidos – aos espectadores. Cada um que emergia era recebido por uma família emocionada. As centenas de câmeras à volta levavam ao vivo para o mundo aquela quase reencarnação.

Porque aquilo lhe atraiu tanto? Era para ser apenas mais uma notícia – de grande repercussão - de um dia qualquer.

Foi então que olhou para o lado. E percebeu como eram numerosos os seus cúmplices. Dezenas de pessoas iam parando os seus afazeres diários, seus planos cotidianos, suas tarefas inadiáveis para ver o desfecho de uma história com final feliz.

Pediu mais um chope e acendeu outro cigarro, sem tirar os olhos da TV. E então lhe veio à cabeça o real sentido da identificação coletiva: moramos todos em minas! Umas mais outras menos profundas ou escuras, às vezes durante um tempo bem maior do que apenas meses.

O fato é que precisamos ser lembrados por mineiros com traços indígenas que ainda vale brigar, resistir, esperar. Para novamente dar valor à luz.

Era isso que ele e aquelas pessoas acompanhavam na TV de forma tão apaixonada. Uma metáfora de vida real, uma mensagem subliminar televisiva: a “segunda chance” daqueles mineiros de salários baixos.

Veja: Home (Yann Arthus-Bertrand)
Ouça: La dispute (Yann Tiersen)



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Domingo, Outubro 03, 2010


Eleições

A desordem do Progresso
Em nenhum outro país os ricos demonstraram mais ostentação que no Brasil. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres. São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos ônibus de subúrbio. E, às vezes, são assaltados, seqüestrados ou mortos nos sinais de trânsito. Presenteiam belos carros a seus filhos e não voltam a dormir tranqüilos enquanto eles não chegam em casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se vivessem nos tempos dos castelos medievais, dependendo de guardas que se revezam em turnos.

Os ricos brasileiros usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece, mas vivem encalacrados na pobreza social. Na sexta-feira, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da Europa não conseguiriam freqüentar, mas perdem o apetite diante da pobreza, que ali por perto, arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a ir a restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam de comer escondidos, são obrigados a tomar o carro à porta, trazido por um manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro, depois continuar até um bar para conversar sobre o que viram. Mesmo assim, não é raro que o pobre rico seja assaltado antes de terminar o jantar, ou depois, na estrada a caminho de casa. Felizmente isso nem sempre acontece, mas certamente, a viagem é um susto durante todo o caminho. E, às vezes, o sobressalto continua, mesmo dentro de casa.

Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo. Por mais riquezas que acumulem no presente, são pobres na falta de segurança para usufruir o patrimônio no futuro. E vivem no susto permanente diante das incertezas em que os filhos crescerão. Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.

No lugar de usufruir tudo aquilo com que gastam, uma parte considerável do dinheiro nada adquire, serve apenas para evitar perdas. Por causa da pobreza ao redor, os brasileiros ricos vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos têm de perder dinheiro, gastando cada vez mais, apenas para se proteger da realidade hostil e ineficiente. Quando viajam ao exterior, os ricos sabem que no hotel onde se hospedarão serão vistos como assassinos de crianças na Candelária, destruidores da Floresta Amazônica, usurpadores da maior concentração de renda do planeta, portadores de malária, de dengue e de verminoses. São ricos empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros.

Na verdade, a maior pobreza dos ricos brasileiros está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, cem anos atrás, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos, se lhes fosse dado direito de trabalhar a imensa quantidade de terra ociosa de que o país dispunha. Se tivessem percebido essa riqueza e libertado a terra junto com os escravos, os ricos brasileiros teriam abolido a pobreza que os acompanha ao longo de mais de um século. Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada e com uma população sem miséria.

A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.

Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos, com o dinheiro de colocar água e esgoto nas cidades, achando que, ao comprar água mineral, se protegiam das doenças dos pobres. Esqueceram-se de que precisam desses pobres e não podem contar com eles todos os dias e com toda saúde, porque eles (os pobres) vivem sem água e sem esgoto. Montam modernos hospitais, mas tem dificuldades em evitar infecções porque os pobres trazem de casa os germes que os contaminam. Com a pobreza de achar que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da doença.

Há um grave quadro de pobreza entre os ricos brasileiros. E esta pobreza é tão grave, que a maior parte deles não percebe. Por isso, a pobreza de espírito tem sido o maior inspirador das decisões governamentais, das pobres ricas elites brasileiras. Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os ricos brasileiros poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos interesses de nossas massas populares. Liberariam a terra para os trabalhadores rurais, realizariam um programa de construção de casas e implantação de redes de água e esgoto, contratariam centenas de milhares de professores e colocariam o povo para produzir para o próprio povo. Esta seria uma decisão que enriqueceria o Brasil inteiro. Os pobres que sairiam da pobreza e os ricos que sairiam da vergonha, da insegurança e da insensatez.

Mas isso é esperar demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas.

Por Cristovam Buarque
Professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor de A desordem do Progresso
Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/014/14cbuarque.htm



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Quarta-feira, Setembro 29, 2010


Porque nada se perde...



Veja: À prova de morte (Quentin Tarantino)
Veja: O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella)
Ouça: I should have known better (The Skatalites)
Leia: A formação das almas: o imaginário da República no Brasil (José Murilo de Carvalho)



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Segunda-feira, Setembro 13, 2010


O 11 de setembro de cada um

Alguns anos atrás, vi no cinema o filme 11'09''00 (produzido pelo francês Alain Brigand).

Realizado por 11 diretores de todo o mundo, a película retrata a visão de cada um deles sobre a data histórica do 11 de setembro de 2001.

Das produções, uma me chamou mais atenção: a do cineasta Ken Loach, que mostra o quanto a História pode ser irônica e cruel.

E nesses dias em que tanto se fala (novamente) sobre o atentado que colocou as torres gêmeas abaixo, deixo aqui essa pequena parte como forma de reflexão.



Ouça: Maybe (Janis Joplin)
Leia: O subsolo (Dostoiewski)



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Sexta-feira, Setembro 03, 2010


Bu!

Peguei a viola e resolvi resgatar umas músicas mais antigas, que há tempos não arriscava. Logo no início, dei de cara com uma fácil, do Capital.

Comecei a tocar, e no meio percebi: caramba! Essa letra não fala de uma mulher, ou de um homem, ou de um amor perdido qualquer...

O nome disso é assombração!

Eu vou estar
Eu não vou pro inferno
Eu não iria tão longe por você
Mas vai ser impossível não lembrar
Vou estar em tudo em que você vê:

Nos seus livros, nos seus discos
Vou entrar na sua roupa
E onde você menos esperar
Eu vou estar

Eu não vou pro céu também
Eu não sou tão bom assim
E mesmo quando encontrar alguém
Você ainda vai ver a mim;

Nos seus livros, nos seus discos
Vou entrar na sua roupa
E onde você menos esperar

Embaixo da cama
Nos carros passando
No verde da grama
Na chuva chegando
Eu vou voltar...



Medo.

Ouça: Crash (Dave Matheus Band)
Veja: Locki (Paulo Henrique Fontenelle)



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Terça-feira, Agosto 31, 2010


No peito dos desafinados

Foi uma das coisas mais grotescas que eu vi num show de música. Lugar de celebração, de expressão, de arte, incidental. E por isso mesmo, de respeito.

O vocalista do Móveis chamou Malú Magalhães para cantar. Uma menina. Veio ela para o palco... debaixo de sonoras vaias.

Vaias que conseguiram escurecer o brilho característico de qualquer olho de menina. Feliz de poder brincar (e, no caso dela, trabalhar) em cima do palco.

Primeiro ela agradeceu ironicamente e sem graça (e ainda vaiada): “nunca fui recebida de forma tão calorosa!”. Continuou cantando e, de tão nervosa, perdeu o tom. E virou uma flor, murchando em minutos, saindo assustada pelos cantos.

No fim, resgataram a flor cabisbaixa nos bastidores. E a presentearam com uma música no bis. Ela cantou, dessa vez sem as vaias... e bem!

O dia em que a platéia desafinou.

***



No topo da pirâmide, tirânica
Estúpida, tapada minoria
Cultiva viva como a uma flor
A vespa vesga da mesquinharia
Na civilização eis a barbárie
É a penúria que se pronuncia
Com sua boca oca, sua cárie
Ou sua raiva e sua revelia

Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz?
O último a sair do breu, acende a luz


Veja: 5 X Favela
Ouça: Clarity of mind (Spy Vs. Spy)



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Terça-feira, Agosto 24, 2010


Elevador

Era fim de tarde de uma sexta-feira. A última aula que eu daria aquele dia, para uma, por sinal, excelente aluna. Aula particular moleza, de História mesmo, revisão de conteúdo apenas. Além do mais, trabalhar com aluno bom (leia-se, minimamente curioso) é sempre agradável.

Subi a rua no Alto Leblon e entrei no prédio. Quando o elevador já estava quase fechando, percebi alguém se apressando e segurei a porta: Chico Buarque.

Em invisíveis segundos, pensei:

“O que eu deveria falar pra esse cara? To com um livro do pai dele na mochila, acabando de ler. E tava ouvindo agorinha uma música exatamente dele no MP3. Gênio! Mas porra, tietagem é ridículo. Já dizia Raul: ‘Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha / E eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete / Meu cérebro logo pensou: que seja, mas nunca fui tiete.’ Bom, mas um elogio do tipo ‘Seu trabalho é muito legal!’, sempre cai bem. Não? Outro dia falei isso pro apresentador do Larica Total. E ele, aparentemente, ficou bem feliz (apesar de estar doido pra caralho! Até eu ficaria). Mas peraí: entre o apresentador do Larica Total e o Chico há uma distância, hum..., artística. Pelo menos de histórico - apesar do cara do Larica ser demais! Aliás, olha a cara do Chico. Tá ficando velhinho o malandro! Como será o processo criativo desse cara? Deve ficar vagando por aí. E então chega em casa, senta com um livro bom, talvez um uísque. Ou nada disso. Aqui do elevador mesmo pode sair alguma coisa, quem sabe? Se bem que dizem por aí que a genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração. Com um cara desses não, duvido...”

E nessa hora notei minha cara de babaca refletida no espelho do elevador.

“Qual andar?”, soltei, subitamente.

Ele respondeu, e subimos. Naqueles tradicionais e silenciosos metros quadrados.

Afinal, elevador é tudo igual. Gente, no fundo, também.

Ouça: Nocturno en si bemol menor Op. 9 Nº 1 (Chopin)
Ouça: Doce em Madri (Fino Coletivo)
Leia: Visão do paraíso (Sergio Buarque de Holanda)
Veja: Cabeça a prêmio (Marco Ricca)



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Quarta-feira, Julho 28, 2010


Todo coração, uma célula revolucionária

Perdi o tesão de Hollywood há anos. Já nem flerto mais, prefiro quase sempre o cinema europeu (principalmente o francês), o brasileiro ou o argentino - não necessariamente nessa ordem.

Mas esses dias assisti a um filme e tanto vindo lá do Tio Sam! A história ajuda também. Invictus conta como Nelson Mandela, recém eleito presidente da África do Sul, utiliza a Copa do Mundo de Rúgbi realizada em seu país para unir uma população ainda dividida economicamente pelo Apartheid.

Filme bonito. Mas o que me impressionou mesmo é a capacidade transgressora, revolucionária, edificante de algo simples (e ao mesmo tempo tão negligenciado): o perdão.

Um sujeito fica preso durante três décadas num espaço de poucos metros quadrados. E quando sai, mesmo eleito presidente, não procura o caminho da vingança. Ao contrário, se lança numa cruzada de disseminação da igualdade, da liberdade, da reconciliação com os que lhe deixaram preso. Da paz. E da capacidade única do ser humano de perdoar (algum outro bicho faz isso?).

E agora, mais do que nunca, percebo a imensa quantidade de vezes que lidamos em nosso caminhar diário com o ato de desculpar. A indiferença, o conflito, a ignorância, a carência, o desprezo, a burrice, o ego inflado, a loucura, a imaturidade, o ódio... Fica tudo pequeno diante do bizarro e delicioso gosto de perdoar e ser perdoado.

Revolução pura. E das boas.

Invictus
Da noite que me cobre,
Negra como um poço de alto a baixo,
Agradeço quaisquer deuses que existam
Pela minha alma inconquistável. Na garra cruel da circunstância
Eu não recuei nem gritei.
Sob os golpes do acaso
Minha cabeça está sangrenta, mas ereta. Além, deste lugar de fúria e lágrimas
Só o eminente horror matizado,
E, contudo a ameaça dos anos me
Encontra e encontrar-me-á, sem temor. Não importa a estreiteza do portão,
Quão cheio de castigos o caminho,
Sou o dono do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.


Henley, poeta inglês nascido em 1849.
Tuberculoso desde os 12 anos, teve a perna esquerda amputada aos 16, por causa da doença. Trabalhou para sustentar a mãe e os irmãos após a morte de seu pai e perdeu sua única filha, de 6 anos, vítima de meningite.
O poema acima foi escrito no hospital.

Veja: Capitalismo: uma história de amor (Michael Moore)
Ouça: Pra te lembrar (Caetano Veloso)



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Quarta-feira, Julho 21, 2010


Malandrotecnologia

Malandro mesmo, de verdade, hoje em dia só tem um (ou “uma” no caso): operadora de celular.

Exemplo típico: você liga para pedir alguma informação e entra aquele atendimento eletrônico, vagaroso, calmo e impessoal. “Disque 1 para isso, dois para aquilo…” e vai você, tentando entender como pode pagar mensalmente uma quantia e no fim ser tratado por máquinas.

OK, tudo bem. São novos tempos os da Era Digital, a gente tenta entender.

Mas então você realiza uma ação simples. Liga para alguém que não lhe atende por algum motivo. E vem a voz da secretária eletrônica, tão ligeira que poderia ganhar qualquer concurso de dicção no mundo:

“Onúmeroparaoqualvocêdiscouencontra-sedesligadouforadaáreadecobertura.Deixerecadoapósosinal.”

BIP!

O alerta de que você já está sendo cobrado a partir daquele momento. Rápido e sem burocracia eletrônica alguma. Titubeou, tá pagando...

É muita sagacidade!

Ouça: My baby just cares for me (Nina Simone)



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