Já falei disso. Mas tenho que falar de novo porque não consigo deixar de achar incrível dia, ou melhor, noite como a do último apagão.
É quando fica mais incontestável a presença de uma “inconsciente” rotina, rituais que não são só meus. Mas compartilhados por todos nós – ou ao menos pela grande maioria de nós. Nossos inevitáveis e repetitivos atos diários.
Falei sobre isso com outras pessoas e percebi que todos, até agora, passaram por situações semelhantes, tiveram uma sensação parecida de “desrotinização” nessas poucas horas sem luz elétrica.
A coisa se agrava porque hoje em dia isso significa ficar sem computador, televisão, geladeira, elevador, ventilador... iluminação! Dentre outros elementos “vitais” ao nosso dia a dia.
E pensar que muita gente achou que era coisa de “magia” quando Thomas Edison (1879) criou a primeira lâmpada elétrica – que funcionou por dois dias seguidos! Magia arrebatadora essa.
No dia do apagão, aqui em casa, depois da janta, já estávamos devidamente confortáveis, em nossos cômodos particulares, casulos de ar condicionado e televisão. De repente a falta de luz embaralhou tudo. No fim, eu dormi embaixo da janela da sala sentindo a discreta brisa que correu depois da chuva. Tive um sono ótimo e acordei ao som de uma cantoria frenética de passarinhos que saudavam a bonita manhã que nascia.
No quarto, vi que meu irmão dormia ao contrário na cama, em busca também de ar fresco. Ele foi um dos que mais curtiram a escuridão e o silêncio, aliás. Do jeito que estava, apagou, virando-se apenas em direção à janela.
Antes disso, assim que a luz se foi, nos reunimos no apartamento ao lado, onde moram meus tios e primos. Jogamos um pouco de conversa fora, falamos de amenidades. E colocamos o celular em cima da mesa, à luz de velas, ouvindo as notícias que saíam do radinho do aparelho (um baita acessório, conforme me dei conta esse dia). A cada informação nova, um burburinho: não é só aqui na rua! Não é só aqui no bairro! Não é só no Rio! Não é só no Brasil!?
Uma família inteira reunida em volta do rádio que, em plena era digital, deve ter tido uma das maiores audiências dos últimos tempos. Dava para sentir na voz empolgada do narrador-âncora. Uma noite que me fez remontar umas cinco ou seis décadas atrás, quando as ondas radiofônicas despertavam essa excitação, essa confidência e cumplicidade entre a “caixinha” e o pé do ouvido de alguém.
Na casa de outra tia ouvi dizer que meu sobrinho jogava objetos inusitados no tio, que o caçou às cegas durante um bom tempo. A brincadeira durou quase uma hora, antes de dormirem - todos juntos - na sala da casa onde moram, em frente a uma imensa janela e um gramado refrescante.
Na casa de um amigo do trabalho teve sessão de piadas. Falei com gente que jogou baralho à luz de velas (que apagavam a cada jogada mais empolgante). Teve maluco que pegou a bicicleta e foi dar um rolé na penumbra! Teve momento de intimidade caliente - e um chute na bunda da mesmice! Nessas horas quem nunca esbarrou com um vizinho no corredor do prédio pedindo uma vela? E por que a lanterna nunca tem pilha quando você precisa? Isso se você achá-la.
Loucura também é nosso vício em apertar os interruptores, que permanece mesmo sem luz. Você entra no banheiro, tasca o dedo e “plim!”. Nada acontece. Como quando tentamos saber as horas no pulso em que já não há relógio.
Morar sozinho durante um apagão não deve ser legal.
E a desordem generalizada a cada esquina? Um buzinaço sem rumo, explanando nossa falta de bom senso, tão dependente de duas luzes que não pensam, apenas piscam em intervalos calculados: verde, vermelho. Siga; pare. Sem elas, a anarquia desvairada, nosso egoísmo em seu habitat natural: o trânsito.
Mas que fique claro, não estou fazendo apologia à escuridão e nem sou um ardoroso inimigo da eletricidade, pelo contrário. O que me desperta a curiosidade são as regras invisíveis da vida. Nossa infalível zona de conforto; nossa rotina discreta; nossa incapacidade de ordem natural; nossa tendência ao caos.
Não devia se chamar apagão. É uma escuridão que ilumina o que está ali, no escuro.
Leia: O cru e o cozido (Claude Lévi-Strauss) posted by RFerraz
1:15 AM
Pé de favela Escolhi trabalhar numa escola localizada na entrada do Morro dos Macacos (Vila Isabel). Queria conhecer de perto uma parte da realidade não só da educação, mas do próprio Brasil, renegada quase que ao noticiário policial.
Nove da manhã. Dia de sol bonito, tipicamente carioca. Os adolescentes de 12, 13 anos eram organizados em filas na entrada da escola para que embarcássemos, em seguida, num ônibus particular. O destino: uma visita guiada ao Museu da República.
De repente, um burburinho. O primeiro grupo de adolescentes que estava à frente da fila, passa batido em direção ao interior da escola, alertando: a polícia! Alguns deles exibiam um estranho sorriso de excitação, como que avisando: “a brincadeira vai começar”.
E começou mesmo. A primeira rajada que ouvi (e vi), logo depois do aviso dos meninos, recebi com certa incredulidade. Em seguida, já era uma dezena de policiais, que passava em frente ao portão da escola. Vultos que apontavam o bico dos seus fuzis logo acima das cabeças das crianças.
A delegacia fica ao lado da escola. Mesmo assim, nenhum aviso foi dado. Muito menos algum pedido de desculpas veio depois – seria o mesmo se tivesse acontecido em frente a uma instituição particular
Enquanto a bala comia do lado de fora, fiquei com os alunos, que se protegiam sentados nas escadas que ligavam o andar de cima ao pátio principal. Paredes. As maiores aliadas deles nessa hora. Foi nessa hora que pude conferir de perto a reação dos pequenos diante daquela situação nova para mim (amedrontado e encolhido), e tão comum a eles (completamente à vontade).
Dois meninos, empunhando seus cadernos como fuzis (cena mais do que recorrente no dia a dia da escola), corriam um atrás do outro. Simulavam o bang bang que podiam ouvir lá fora, entre um enorme grupo de crianças espremidas nas escadas, num ambiente que misturava perplexidade, euforia e brincadeira. Muitos, repito, se divertiam.
A brincadeira das crianças contrastava com o desespero dos professores. Um deles, que vivia a me alertar sobre os tiroteios recorrentes, se dirigiu a mim gritando: “Agora sim você está vendo a nossa realidade!”
Bizarramente, passados menos de 10 minutos do susto inicial- e quando ainda podíamos ouvir o barulho do confronto entre policiais e traficantes, que agora se enfrentavam mais acima da favela - muitos alunos queriam ir embora. O desafio era, então, mantê-los lá dentro.
Fiquei responsável por levar um grupo do 6º ano para uma das salas seguras e ocupá-los com um filme até a “poeira baixar”. A professora me passou um DVD: A casa monstro. A história resumidíssima: dois meninos moradores de um típico subúrbio norte-americano - da mesma faixa etária dos alunos, diga-se de passagem - descobrem uma casa mal assombrada no outro lado da rua e tentam avisar aos demais moradores. A animação de alta qualidade e criativa, no entanto, não despertou NENHUM interesse dos alunos. E logo percebi por que: casas mal assombradas não fazem parte da lista de medos comuns por ali. O caveirão sim. O filme, enfim, não correspondia em nada à realidade deles, um imaginário infanto-juvenil permeado por elementos incrivelmente distantes dos de uma criança ordinária, comum; retratados toscamente naquela manhã de tiroteio em frente à escola. Segurá-los naquela sala tornou-se, assim, quase impossível.
Aos poucos, depois de 3 horas do ocorrido, as crianças começaram a ser liberadas para subirem a favela em grupo ou com algum responsável. E quando já não havia quase mais ninguém na escola fui até o portão e me deparei com um sujeito branco, bem vestido. Logo percebi quem era:
- O que aconteceu? As crianças estavam saindo para um passeio? Os policiais atiraram mesmo com elas à frente?
Um repórter. Eu, ao contrário do silêncio que reinava, resolvi contar tudo – minha declaração, inclusive, saiu n’O Globo do dia seguinte. Quando entro na escola sou repreendido pelos demais funcionários, mas logo consigo convencê-los sobre a importância de tornar público esse tipo de truculência policial - que colocou em risco a vida de várias crianças - com uma simples pergunta: e se fossem os filhos de vocês?
Mas logo entendi que voz silenciada é lei naquele lugar. Um silêncio parecido com o que pude "ouvir" durante o caminhar na volta para casa. O restante da cidade continuava acontecendo, parecia que nada acontecera a alguns metros atrás. Senti-me covarde – talvez um indício de ex-covarde.
Numa rua logo ali crianças davam bom dia e boa noite à desigualdade, ao desleixo, à violência, ignorância, truculência. Ao sangue esparramado no chão, aos buracos de bala em suas portas. Algumas ruas à frente, tudo mudava. Como pode essa convivência entre ambas as coisas acontecer de forma tão natural, banal?
Coisas do Rio de Janeiro; coisas do bicho homem.
Veja: Ghetto (Audrius Juzenas)
Ouça: Soldado do Morro (MV Bill) posted by RFerraz
7:08 PM
1 – Contei uma baixaria que a namorada de um amigo havia feito com ele. Perdi o amigo; ganhei dois inimigos.
2 – Ajudei a primeira menina que beijei depois do término de um namoro de 6 anos a escrever uma carta de amor - que não deu certo.
3 – Mandei uma mensagem de celular com menos de 10 caracteres para um grande amigo que iria ter um final de semana decisivo para seu relacionamento. Soube depois que o casamento estava a salvo. Mas o tamanho da força daquela pequena mensagem é que ainda me surpreende. A cada agradecimento dele – orgulhoso da nossa cumplicidade espiritual naquele instante – a minha prova final sobre a verdade da arte dos pequenos gestos.
Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo. Aprendendo a jogar...
Mas ouvindo dia desses no MP3, lembrei de deixar aqui uma das melhores canções do novo állbum do Felipe Schuerry, "Data Crônica".
A melhor definição de uma obra quase sempre é a do próprio artista: "Resultado das angústias e prazeres que a avalanche de informação traz. Já fez a sua peregrinação virtual hoje? Curtiu os excessos? Ressaca agora?"
Abaixo a letra da música mais simbólica do álbum (na minha opinião), exatamente por tocar na ferida dos relacionamentos que se restringem à "virtualidade": o tudo e o nada, a super(ficial) informação.
CEM / SEM (Felipe Schuerry)
cem (sem) melhores lugares pra ir
cem (sem) mulheres bonitas pra dormir
cem (sem) igrejas pra rezar melhor
cem (sem) mirantes pra ver o sol se pôr
cem (sem) praias pra se bronzear
cem (sem) canções pra te conquistar
cem (sem) dicas pra nunca sofrer
sem espaço
sem tempo
pra viver
sempre que a gente tenta
marcar de se encontrar
você fica de ir lá em casa
eu fico de te ligar
cem (sem) contos de mitos e lendas
cem (sem) discos de grupos com C
cem (sem) jogos de computador
cem (sem) vinhos de uva merlot
cem (sem) datas pra comemorar
cem (sem) frases pra te impressionar
cem (sem) nomes pra pôr no bebê
sem espaço
sem tempo pra viver
sempre que a gente tenta
marcar de se encontrar
você fica de ir lá em casa
eu fico de te ligar posted by RFerraz
1:01 AM
Estar bem acompanhado, mesmo que num mundo metafísico.
Seis minutos para se pensar.
Ouça: Sorri (Djavan, letra de Charles Chaplin)
Veja: Geraldinos e arquibaldos (Gonzaguinha)
Leia: Os bestializados (José Murilo de Carvalho) posted by RFerraz
12:47 PM
'Um homem atormentado caminha pela cidade. Aos poucos, ele vai construindo seu destino, numa jornada apaziguadora, mas ao mesmo tempo desesperadora.'
Uma história comum transformada na mais bela poesia musicada que eu já vi.
O nome, Construção, pode ser interpretado de diversas maneiras: a construção onde trabalha o protagonista, a construção literária da própria música - misturando as últimas partes das frases - , a construção do nosso sistema, a construção da história daquele homem naquele dia...
Enfim, sutil, bonito e simples. E, por isso mesmo, genial.
Construção - Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague posted by RFerraz
1:20 PM
O cara mais underground que eu conheço é o diabo. O mais estereotipado é o entregador de flores.
Na rua ele passa, de um lado a outro. Leva arranjos de rosas com lírios, cestas repletas de orquídeas, buquês de flores do campo embrulhadas em papel de seda. Carrega mais que isso: uma reconciliação, uma saudade, um agrado cotidiano. Cuidado. Conquista. Reconquista. Anonimato. Desprezo. Paixão. Insônia. Fetiche.
E vai ele, no meio da multidão, as flores nos braços, a delicadeza da flora em meio à fauna da cidade. Segue sem saber o que ele irá encontrar pela frente. Uma mulher surpresa. Uma moça ressentida. Um coração partido. Um desprezo glacial. A alegria apaixonada.
Na verdade ele nem liga mais. As flores que transporta são meros objetos carregados de sentidos que não lhe pertencem. É o que parece.
Mas tenho a certeza que lá no fundo daquele olhar cínico e despretensioso, vai uma alma carregada da incerteza do que leva nas mãos.
Repara só no próximo que passar por você.
Ouça: Tom Zen (Kevin Johansen)
Veja: Tempos Modernos (Charles Chaplin)
Leia: Carnavais, malandros e heróis (Roberto DaMatta) posted by RFerraz
1:08 AM
O intelectual argentino Claudio Katz é reconhecido mundialmente por suas análises penetrantes e polêmicas sobre a atual fase destrutiva e regressiva do sistema capitalista. Autor de vários livros, ele integra o coletivo "Economistas de Esquerda" (EDI) e hoje dá assessoria ao presidente Hugo Chávez.
Num dos trechos desta instigante entrevista, Claudio Katz analisa o papel da mídia hegemônica. Indica que as esquerdas, dos mais variados matizes, devem dar mais atenção aos meios privados de comunicação, que hoje exercem uma 'grande inquisição midiática' no planeta. Ao tratar da retomada da ofensiva da direita latino-americana, através de golpes, bases militares e conquistas eleitorais, ele destaca esta "novidade".
A influência despótica da mídia
A direita cultural, neoconservadora, latino-americana, governou a região durante décadas, e alimenta os governos militares, mantendo um pensamento elitista, liberal e eurocêntrico. Hoje, ela tem grande capacidade de manipulação midiática. Essa é a novidade. Porque governaram historicamente através da igreja, dos seus recursos, das suas escolas, e agora como têm os meios de comunicação sob o seu domínio, elas exercem uma influência despótica através dos mesmos.
Os meios de comunicação são agora o que foi a Igreja Católica?
Eles são a grande inquisição e exercem uma influência nefasta. Por isso me parece tão salutar e transformadora a decisão de Chávez de não renovar a licença da RCTV. Creio que essa medida é muito mais transcendente que qualquer nacionalização de uma empresa siderúrgica.
Com essa resposta, vão dizer que Claudio Katz é um tipo totalitário. Como você responde?
Dizem isso porque para eles manipular monopolisticamente um grupo de meios de comunicação é um exemplo de democracia. Há uma hipocrisia absoluta. Os donos dos meios de comunicação são um punhado de pessoas, um grupo minúsculo que não é eleito. É algo paradoxal, pois se todos os congressistas têm de ser votados e qualquer presidente e governador também, por sua vez os meios de comunicação, que têm um poder muito mais sólido e estável que todas as autoridades eleitas de qualquer país, e esses ninguém elege, são puro poder do divino. Dizem que competem entre si através da mudança dos canais, mas a oferta é minúscula. Ou seja, o telespectador pode optar entre a CNN e a Globovisión, mas isso nada muda, vêem o mesmo.
Como é possível democratizar os meios de comunicação na América Latina?
Do mesmo modo como se democratiza qualquer instituição. Os meios de comunicação não podem ser privilegiados em relação a outras instituições. Temos que democratizar a vida política, as escolas, as instituições, as forças armadas, a sociedade, tudo. Tem de haver uma preocupação cotidiana de acabar com as discriminações de gênero, de raça, de etnia. Na América Latina estamos mudando as constituições de muitos países para incorporar novos direitos, para incorporar os direitos esquecidos dos indígenas, da juventude, das crianças. Ou seja, o desenvolvimento da sociedade é a ampliação dos direitos. O único direito de que não se pode falar é o direito à comunicação. Esse quer ser intocável.
O sociólogo brasileiro Emir Sader, atual secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), dizia que os meios de comunicação, para serem democratizados, necessariamente teriam que passar ao controle do Estado. Concorda?
Creio que têm de ser propriedade pública. Mas, atenção, eles não podem ser manuseados por um governo, porque isso levaria a formas totalitárias. Há muitas experiências nos últimos 50 ou 60 anos de instituições públicas que não dependem do governo. O caso da BBC de Londres é muito comentado. Não o estudei, mas conheço muitas experiências onde o importante é que estejam sujeitos a um regime legal que impeça a sua manipulação pelo governo, por exemplo. Não podemos passar de meios manipulados por grupos capitalistas a meios manipulados por governos. Tem que haver liberdade informativa, mas também propriedade pública. Creio que há que discutir os mecanismos de propriedade democrática dos meios de comunicação.
'Basta pensar em sentir
Para sentir sem pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.'
Fernando Pessoa, 1932
Os homens aprenderam com Deus a criar.
E foi com os homens que Deus aprendeu a amar
Cordel do Fogo Encantado (Os anjos caídos) posted by RFerraz
9:49 PM
É engraçado como a gente percebe que o tempo passa. Às vezes nossas etapas de vida são marcadas por verdadeiros ‘ritos de passagem’ pra lá de simbólicos. O primeiro emprego, a perda de alguém querido, o nascimento de um filho, uma viagem, a saída de casa...
Quando percebemos, enfim, que há uma história (já longa) que nos precede é o primeiro indício de que sentimos o tempo passar. E essa nossa linha cronológica é marcada por fronteiras, divisórias tênues que separam, por exemplo, a juventude da vida adulta.
Percebi que tenho exatamente essa fronteira marcada pelo fim de duas bandas muito queridas: Los Hermanos e Lasciva Lula. A primeira já é conhecida. A segunda tinha um público fiel e apaixonado da cena independente que marcava presença em quase todos os shows. Cantava junto lá no gargarejo, fazendo coro até nos backing vocals.
São bandas que marcaram a minha geração. E o que considero ‘geração’ aqui neste caso é algo bem simplista e particular: os meus amigos, as pessoas próximas que compartilham comigo uma caminhada parecida e suas vicissitudes: as alegrias, conquistas, aflições, inquietações e incertezas.
As bandas em questão trilharam caminhos parecidos com os nossos. Característicos de uma geração nascida no século passado, na interseção entre um mundo analógico e digital. Lembro de nós, reunidos tantas vezes nos shows desses caras. Cantando até o limite da corda vocal os versos que eram entoados com um quê de cumplicidade e fé. Entorpecidos por algo de ebulitivo (que ainda há!), gerado pela incógnita de nossos futuros, a essa altura não mais tão distantes; ao contrário, já sendo trilhados, academicamente, profissionalmente, pessoalmente.
E de uma hora pra outra, os Hermanos se foram. O Lasciva também. Ambos pelo mesmo motivo: cada um dos seus integrantes resolveu pôr em prática seus planos, fazer acontecer suas utopias e sonhos. Sem renegar, no entanto, a importância do que viveram juntos, sem brigas, sem mágoas. Foram porque tinham que ir. Porque agora a vida adulta os 'chamava na chicha'.
Nós também.
Esbarrei com o vídeo, abaixo, do Felipe Schuery, ex-vocalista do Lasciva Lula - atualmente casado na Inglaterra. A música é uma das melhores desse que é um dos grandes ‘cronistas musicais’ (se é que isso existe!) da nossa geração: ‘A letra da canção desgovernada’. O som ficou baixo, mas a imagem desse cara no Hampstead Heath, em Londres, me inspirou.
Me fez lembrar sobre a importância de não acreditar em destino; de estar sempre pronto a atuar em nossa história; e saber o quanto é bom reconhecer na sua caminhada o prazer imutável de poder tê-la compartilhado com pessoas inesquecíveis: seus amigos.
Entrevista com Milton Santos "O sonho obriga o homem a pensar"
Por Maurício Silva Junior
Fonte: http://www.icb.ufmg.br/lpf/Entrevista-com-Milton-Santos.html
Doutor Honoris Causa em 14 universidades do Brasil e do mundo, ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, tido como o Nobel da área, o geógrafo Milton de Almeida Santos não se conforma com a supervalorização que a humanidade dá à tecnologia. 'As pessoas têm atribuído vida à técnica, mas as coisas não nos comandam', defende com ênfase. Autor de mais de 40 livros e 300 artigos em revistas científicas da vários países, o professor esteve este mês na UFMG, convidado para ministrar a aula inaugural da Escola de Engenharia, no auditório da Reitoria.
Em seguida, Milton Santos concedeu a seguinte entrevista:
O senhor tem feito severas críticas à globalização. Como a conceituaria? A globalização, parafraseando o compositor Lenine, é a face suprema do imperialismo. A humanidade esperou milênios para se globalizar, o que não aconteceu antes porque não havia as condições materiais necessárias. Com o aumento da produção e o desenvolvimento de técnicas avançadas, um pequeno grupo de empresas as seqüestrou. As corporações usam estes recursos extraordinários em seu próprio benefício e em prejuízo da humanidade.
O acirramento da crise brasileira pode tornar a população mais consciente da realidade? Isso já está acontecendo. Há uma sede muito grande de entender. É o que vejo sobretudo entre os jovens. Os interesses da classe média, por exemplo, não coincidem mais com globalização e com as ações dos partidos. Ela já não se reconhece nem mesmo na ação das facções progressistas. Se a classe média não se vê nos partidos, as coisas ficam sem estruturação. E por que não acreditar que os partidos podem mudar, para serem capazes de acolher os anseios da sociedade?
Qual o papel da Universidade nesse contexto? A Universidade é importante na medida em que é capaz de codificar e entregar à sociedade o discurso que as pessoas desejam, necessitam. É preciso produzir algo que seja crível, audível, utilizável e eficaz politicamente. Muitos economistas que escrevem em jornais publicam diariamente o desejo de empresas das quais são consultores.
O senhor diz que passamos por um período em que ‘só as grandes corporações fazem política'. E o que realizam os políticos atualmente’? O que falta aos políticos de hoje é a contribuição dos intelectuais. Não estamos oferecendo um conjunto de idéias a eles.
Como o senhor analisa a utilização de tecnologias e meios de comunicação na atualidade? Quando eu falo meio, estou me referindo a território. E acho que o território é a mensagem. Nele, estamos todos juntos e separados. Somos conduzidos igualmente a um destino e obtemos resultados diferentes. Em Belo Horizonte, por exemplo, estão todos juntos: ricos, pobres, classe média, brancos, negros, índios. A técnica em si não é a mensagem. Ela só é utilizada por quem tem poder: as grandes agências de notícias, universidades, editoras e as igrejas locais. São essas instituições que seqüestram os meios.
Como o senhor analisa a excessiva difusão de informações? Não há produção excessiva de informação, mas de ruído. Existem os fatos. As notícias são interpretação deles. Como as agências de notícias pertencem às grandes empresas, os acontecimentos são analisados de acordo com interesses pré-determinados. Muitos economistas que escrevem em jornais, por exemplo, publicam diariamente o desejo de empresas das quais são consultores. As notícias são publicadas como expressão da realidade e o discurso acaba se tornando hegemônico. É essa mesma indústria que transforma em best seller um livro do Jó Soares, antes mesmo do lançamento. E aí de novo eu convoco a Universidade, como espaço alternativo para difundir nossas idéias. A palavra é uma paulada. Eu venho até a UFMG, falo para 200 pessoas e o resultado é formidável.
Como viver no mundo da pressa e criticá-lo ao mesmo tempo? O que se pode fazer é viver apresado, para garantir a subsistência, mas sem perder de vista a construção de um sonho. É sonho que obriga o homem a pensar.
O homem de hoje é um ser ético? O ser humano agora é convocado a não ser ético. E às vezes as pessoas seguem essa tendência porque precisam sobreviver, criar os filhos, sustentar a família. Mas, no fundo, todos guardam a consciência do que é bom, com a esperança de utilizá-lo um dia.
***
Desenvolvimento (in) sustentável Leonardo Boff Teólogo da Libertação, escritor, professor e conferencista, doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique (Alemanha), professor de Teologia e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior. Autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística.
"Desenvolvimento sustentável", fórmula mágica com o qual o sistema mundial de convivência e de produção pretende resolver os problemas que ele mesmo criou, por mais oficial que seja, representa uma contradição, um equívoco e uma ilusão.
É uma contradição, pois, os dois termos se rejeitam mutuamente. A categoria "desenvolvimento" provém da área da economia dominante. Ela obedece à lógica férrea da maximalização dos benefícios com a minimalização dos custos e do tempo empregado. Em função deste propósito se agilizaram todas as forças produtivas para extrair da Terra literalmente tudo o que é consumível. Ela foi torturada pela tecno-ciência e submetida a um assalto sistemático de suas riquezas no solo, no subsolo, nos ares e nos mares. O resultado foi uma produção fantástica de bens materiais e serviços mas distribuídos sem justo equilíbrio. Essa falta de equilíbrio está destruindo a paz entre os povos e ameaçando a biosfera, submetida a estresse quase insuportável.
A categoria "sustentabilidade" provém do âmbito da biologia e da ecologia, cuja lógica é contrária àquela deste tipo de "desenvolvimento". Por ela se sinaliza a tendência dos ecossistemas ao equilíbrio dinâmico e se enfatizam as interdependências de todos, garantindo a inclusão de cada ser, até dos mais fracos. Como se depreende, unir esse conceito de sustentabilidade ao de desenvolvimento configura uma contradição nos próprios termos.
Dizíamos ainda que o "desenvolvimento sustentável" representa um equívoco. Sim, pois, se alega como causa aquilo que é efeito. Diz-se que a pobreza é a causa da degradação ecológica. Portanto, quanto menos pobreza e mais desenvolvimento menos degradação. Analisando, porém, as causas reais da pobreza e da degradação vê-se que resultam exatamente do tipo de desenvolvimento praticado. Ele explora as pessoas empobrecendo-as e dilapida os recursos da natureza degradando-a. Por isso, a utilização política da expressão "desenvolvimento sustentável" representa uma armadilha do sistema: assume os termos da ecologia (sustentabilidade) para esvaziá-los e assim mascara a verdadeira causa do problema social e ecológico (tipo de desenvolvimento) que ele mesmo é.
Por fim, a fórmula "desenvolvimento sustentável" significa uma ilusão. Postula-se um desenvolvimento que se move entre dois infinitos: o infinito dos recursos da Terra e o infinito do futuro. A Terra seria inesgotável em seus recursos. E o futuro para frente, ilimitado. Ora, os dois infinitos são ilusórios: os recursos são finitos e o futuro é limitado, por não ser universalizável. Se a Índia quisesse ser como a Inglaterra, precisaria de duas Terras para explorar, como já dizia ironicamente Gandhi nos anos 50.
O "desenvolvimento sustentável" não é uma panacéia, mas um placebo. Persistir em aplicá-lo, é enganar o paciente, talvez, matá-lo. É o que tememos com a biosfera. Entender tal equívoco é entender o por quê do impasse na Cúpula da Terra no Rio-92 e agora em Johnesburgo-2002. A categoria mestra é sustentabilidade e não desenvolvimento. Precisamos a Terra, a sociedade e a vida humana sustentáveis. Em seguida o desenvolvimento. É o que os senhores do "desenvolvimento (in)sustentável" não entendem. O Titanic está vazando água por todos os lados. Não temos tempo a perder. Importa despertar senão pode ser tarde demais. Isso não é ser apocalíptico, mas simplesmente realista.
Voltei do Fórum Social Mundial 2009 e uma das primeiras coisas que comentei com as pessoas foi: 'Marina Silva, guarda esse nome! Vai ser a próxima presidente!'
Empolgação? Talvez. Eu tinha acabado de assistir a uma palestra histórica em Belém. Primeiro foi Leonardo Boff, com sua defesa da 'libertação a partir dos recursos espirituais e éticos', a famosa Teologia da Libertação. Uma aula de sabedoria que deixou muita gente de olhos marejados (eu e meu amigo ao lado, inclusive).
A seguir uma mulher com cara de Maria. Mas era Marina; porém Silva. Pinta de brasileirinha, dessas retirantes, de olhar fundo. Arretada a moça! Foi falando, o povo ouvindo. Uma prosa das boas, sem voltas, incisiva e carismática. Nos lembrou que enquanto falamos de crise da água (o 'ouro azul'!) a Amazônia abrira as portas do Fórum Social Mundial dias antes com uma aguaceira daquelas! E realmente não lembro de ter visto tanta água cair do céu. Milhares de pessoas de países distintos pelas ruas, a Marcha de Abertura em meio a um temporal tropical (que caía todos os dias pontualmente). Também lembrou que estávamos cercados pelo denso e imenso Rio Amazonas. Água que não acabava mais. Brasil de riqueza única.
Marina Silva, foi seringueira e parceira de Chico Mendes, um mártir da questão da terra no Brasil (mais um!). Já mulher, descobriu que adquirira uma doença devido a uma contaminação por metais pesados. Mas na vida política decolou (apesar de ter sido semi-analfabeta até os 16 anos): chegou a Ministra do Meio Ambiente e saiu em 2008, após conflitos com Dilma Roussef. É hoje senadora pelo Acre.
Resumidamente, em sua aula-palestra, Marina defendeu o que todo mundo fala atualmente (a maioria de maneira demagógica): a valorização dos nossos recuros naturais, a questão ambiental acima de tudo. Tudo mesmo, inclusive o desenvolvimento econômico. Por quê? Por que sem um planeta para habitar, de que vale a grana?
Na capa da revista Época essa semana ela é chamada de 'ambientalista admirada por sua biografia e temida por suas ideias radicais'. Alguma coisa do que disse a vocês soou radical? Ah, sim a parte da economia. Mexeu no bolso, bicho pega! Enfim, a mídia já deu seu pitaco.
E eu fico daqui torcendo, mas às vezes tenho dó da batalha que a Marina vai ter pela frente. Uma lembrança simbólica: cheguei do Fórum e falei para a menina que namorava na época sobre as manifestações pela morte da Irmã Dorothy. E ela: 'Quem é Irmã Dorothy?'. Foi um baque, voltei à realidade em menos de 2 horas no Rio de Janeiro. É esse Brasil que a Marina vai ter pela frente.
Mas o que me leva a sonhar junto com a Senadora é que tem também um Brasil que estava lá naquele Fórum. E que ouviu da boca da Marina uma última historinha, um recado simples e direto, ao perfil de uma representante da expressão dos povos da floresta. Que nos contou sobre uns pesquisadores que acamparam na beira de um rio. Depois de montar acampamento, um caboclo da região chegou e lhes disse para mudarem de local, pois uma forte tempestade viria e o rio iria subir. Os pesquisadores ignoraram o alerta do caboclo, alegando que seus modernos equipamentos não indicavam a vinda da chuva. Resultado: no meio da noite, batem à porta da casa do caboclo, pedindo abrigo da forte chuva que caía lá fora. No dia seguinte, perguntaram ao nativo como ele previra toda aquela água. A resposta do caboclo: bastava olhar os formigueiros. Quando as formigas correm das margens para o formigueiro mais acima é sinal de que vai chover - e o rio iria subir.
O Brasil, definitivamente, precisa de gente assim.
Veja: Mataram Irmã Dorothy (Daniel Junge)
Veja: O casamento (Nelson Rodrigues, direção de Inez Viana) - Teatro Casa da Glória posted by RFerraz
1:27 AM
Eu vejo uma beleza própria. Sem essa de ser neocult admirador de poeira.
Gosto porque tem (ou me passa, ao menos) um ar de resgate. De pureza.
Ali estão jogadas obras que foram geradas como filhos. Reflexões, histórias de vida, contos inimagináveis... Enfim, o pensar de muita gente.
E tem de tudo! Desde um título raro até a revista de alguma celebridade (já decadente) nua. Estão todos ali, no limbo das publicações, entre o céu (a prateleira de alguém) e o inferno (um triturador de papel).
Eu passo e não resisto. Seja num ambulante ou num modesto casebre, fito aquelas capas amareladas, empilhadas em cestos e prateleiras.
As folhas maltratadas pelas traças, as ‘rugas’ que o tempo deixa marcado naquelas histórias.
Tem algo de caótico. O dono do sebo é quem decide, a seu critério: esse coloca em destaque; esse tritura; esse deixa um tempinho para ver se alguém leva; esse já tem muito tempo, degola!
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Há alguns anos atrás, na casa de uma ex-namorada, esbarrei com um exemplar decadente (saca Munrá, dos Thundercats?) do Cem Anos de Solidão(Gabriel García Márquez). Já estava atrás há tempos, resolvi consertar o coitado e ler.
O durex foi a atadura do meu, digamos, ‘paciente letrado’. Durex do bom, diga-se de passagem! Estica dali, segura daqui. A cola terminou o árduo trabalho de deixar o Cem Anos de pé, agora com cara de edição de colecionador (saca Hebe depois do Botox?)
Devorei um dos melhores livros da minha vida em semanas. E me lembro, orgulhoso, de abri-lo no ônibus, aos olhos daquelas pessoas e seus novíssimos e cintilantes ‘Códigos da Vinci’.
Preferia meu velhinho, com a sabedoria que só o tempo reconhece!
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Nessas férias, quando o descanso de literatura de História permite, abocanhei mais três obras ‘sebosas’!
O primeiro foi num ambulante no Largo do Machado: Cenas de um Casamento Sueco (Ingmar Bergman). Cinco reais foram suficientes para conhecer um dos autores que mais me assombrou ultimamente, por desnudar a alma humana sem receios e com uma clareza absurda!
Essa edição antiga (Ed.Nordica) vem com uma crítica de Paulo Francis, publicada no Pasquim: ‘Duvido que você chegue em casa e beije sua mulher.’
O segundo: Dois amigos e um chato (Stanislaw Ponte Preta), uma série de crônicas de Sérgio Porto sob seu pseudônimo.
O terceiro: Feliz Ano Velho (Marcelo Rubens Paiva). Um cara - como eu e você - sofre um acidente que o deixa paralítico. Um aprendizado e tanto, sem pieguices. Assim como o próprio ato da compra do livro, por um mísero real, num sebo na Tijuca.
Ele repousava numa cesta, na parte externa da lojinha. Entrei com o título já na mão, e o vendedor (com o olhar soturno, e um sorrisinho estranho de senhor-do-destino-dos-livretos): ‘Esse ia para a reciclagem amanhã!’. Me senti o próprio salva-livros (apesar de achar que muito livro é que me salva!)
Da iminência da reciclagem para o ‘céu’ da minha estante. Mais um resgatado, com o charme do seu drama, pronto para passear por aí.
Veja: Os sonhadores (Bernado Bertolucci) posted by RFerraz
7:52 PM
'O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.' Guimarães Rosa
Porque o mato não te ensina só sobre mato. Ensina sobre você mesmo. Naquele clima entre o inóspito e o primitivo, você se encontra com as suas origens, com o seu primitivo também.
Compreende que é parte. Não é todo. Do ‘insignificante’ inseto que anda debaixo dos seus pés até a dantesca árvore - passando por você, claro! - está tudo interligado.
Uma interdependência que fica evidente em detalhes. A água por exemplo. Um elemento trivial, no entanto, diretamente ligado... à vida! Sem a água nenhum dos seres acima sobreviveria – você, a árvore e o inseto.
Os abrigos, os pontos de descanso e alimentação, os trajetos enfim da travessia que fizemos em três dias (37km) entre Petrópolis e Teresópolis são planejados em função da água. Percebe-se, logo, a clara semelhança entre nossas escolhas e as escolhas dos demais animais à nossa volta. Somos bichos também, dos tipos, no entanto, que tem uma apurada capacidade de adaptação e maior poder de intervenção no ambiente. Somos, digamos, mais complexos... e autoconfiantes - e talvez seja essa nossa eterna condição e nossa própria tragédia!
Vi o desespero de um grupo perdido na soturna, gelada e traiçoeira noite da mata. Desnorteados, gritavam por socorro, balançavam lanternas que se transformaram num estranho show de luzes eufóricas ao longe. Quando resgatados representavam a cara do medo: o instinto de sobrevivência aflorado, olhos arregalados, a sujeira pelo corpo, a respiração ofegante. A fragilidade da vida sentida na pele.
Horas andando, viram minutos. O tempo é outro. Nada é simultâneo, apressado, ‘fast’. No mato, uma coisa de cada vez. O legal não é chegar, o excitante é percorrer! E durante o caminho absorver, se desconstruir na medida do desconhecido. Talvez por isso a distância de quilômetros se torna uma busca serena e rítmica que requer alguma dedicação. Mas uma dedicação diferente, uma mistura intensa entre o mental e o físico. E mais uma vez você percebe a relação óbvia entre sua cabeça e seu corpo. Está lá, evidente na sua condição mais natural - o que é facilmente aplicável na sua vida ‘de cimento’.
Mais bizarro ainda é voltar a essa tal vida ‘de cimento’ e perceber que é tudo ilusão. Que na verdade seu modelo de vida é regrado e elaborado a partir de um ponto de vista pragmático. Seu dia-a-dia, suas preferências, suas prioridades... tudo norteado por condições e objetivos, digamos, duvidosos. E assustadoramente subjetivos. A seta e o alvo.
Por debaixo de toda essa teia de coisas que ajudamos a construir é tudo rústico. No fim, na essência somos apenas bichos. Sedentos por encontrar nosso lugar no mundo. Lutando para sobreviver.
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Sobre viajar, aliás, uma grande frase extraída do documentário Língua: vidas em português , de Victor Lopes:
'No fundo, não estás a viajar por lugares, mas sim por pessoas.'
Mia Couto - Escritor moçambicano
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Na floresta durante todo o dia podia-se ouvir um som parecido com um apito. Era o canto do pássaro Namoradeiro. Ao cair da noite a fêmea escolheria um dos machos, apenas um dentre seus vários galanteadores. Os demais permaneceriam cantando por dias a fio. Até que chegasse um fim de tarde qualquer, já exauridos de tanto cantar, em que fossem finalmente os escolhidos.
Triste sina a do pássaro.
Leia: O Macaco Nú (Desmond Morris)
Veja: Na Natureza Selvagem (Sean Penn)
Veja: Por uma outra globalização - Milton Santos (Silvio Tendler)
Veja: Entre os muros da escola (Laurent Cantet) posted by RFerraz
6:13 PM
Durante os anos 80/90, a emérita professora da Escola de Comunicação da USP, Maria de Nazareth Ferreira, empreendeu pesquisas sobre o modo como nosso próprio continente é tratado nos meios de comunicação e sobre sua atuação com relação às questões políticas e sociais.
Segundo a professora Maria de Nazareth Ferreira, nossa percepção de nós mesmos e de nossos vizinhos, via meios de comunicação de massa, é extremamente negativa. Em termos percentuais, há muito mais notícias desfavoráveis, com relação aos países da região, que favoráveis. Somos nossos maiores detratores, ao passo que tendemos a endeusar os países do centro do sistema político e econômico internacional. Nossos meios de comunicação desintegradores contribuem em grande escala para essa percepção e valoração negativas de nós mesmos.
Nossos meios de comunicação em geral, em especial os de grande porte, têm como tradição terem apoiado ditaduras, quando tal sistema de poder predominava, para depois falar em democracia quando tudo mudou. Alguns foram colaboradores de primeira hora dos golpes que se instauraram em nosso continente, outros já colaboravam desde antes. Outros, que resistiram, acabariam sendo fechados por não abrirem mão de seus princípios éticos e por não aceitarem o pacto de silêncio, mentiras e medo, imposto pelos que se apropriaram à força do poder. Mantiveram, no entanto, sua integridade ética e moral.
E quando pensamos que tudo isso já era coisa do passado, lá vêm eles novamente! Tentativa de golpe na Venezuela, em 2002. Tentativa de golpe na Bolívia, em 2008. Golpe em Honduras em 2009. Motivo? O presidente eleito, Manuel Zelaya, queria convocar um plebiscito para ver se o povo hondurenho, que o elegera, concordava em instaurar uma assembleia constitucional.
O pior é que os que perpetram e apóiam os golpes alegam que seus alvos é que são os ditadores - embora tenham sido eleitos de forma democrática, por escolha popular, via voto. Ao analisar o passado, no entanto, vemos que foi assim que procederam contra Jango (eleito e referendado pelo povo), Isabela Perón, Allende... Isto é: os acusaram de 'populismo' e de promover o 'socialismo' (devem ser doenças perigosas, para eles) e em seguida, marchas de mães, padres, beatas e patriotas exacerbados – para culminar com tropas na rua, prisões, censura, etc. Eles, que acusavam os outros de serem 'ditadores' e 'caudilhos', tornam-se os próprios caudilhos em nome da 'segurança nacional' e, pasmem, da democracia!
Estamos vacinados, mas temos que seguir tomando o antídoto contra essa verdadeira peçonha de cobra, a cada período, para não nos esquecermos. Ao lema de 'Tortura Nunca Mais', poderia ser acrescentado: 'Hipocrisia Nunca Mais', Ditaduras Nunca Mais', e, por que não, 'Armações Nunca Mais' ...
A Globo, que de certo modo culpa o presidente deposto de Honduras pelo golpe que sofreu, é associada da empresa venezuelana de comunicações que tentou derrubar Chávez. Carmona, chefe da junta provisória que foi posta no lugar de Chávez, em 2002, é o dono do maior império de comunicações e de redes de distribuição de gasolina no país, um típico 'marajá', acostumado a manipular o poder e as instituições. Seu governo provisório foi reconhecido em questão de horas pelos EUA de Bush, que por sua vez foi plenamente apoiado pelos grandes meios de comunicação do continente e do mundo em sua 'Luta contra o Terror', na qual assassinou a bombas e balaços centenas de milhares de muçulmanos no Afeganistão e Iraque.
Aqui no continente, essa mídia se contenta em não permitir que floresça qualquer governo popular e em pôr sob suspeita permanente qualquer tipo de aliança intra-continental, além de fustigar os movimentos sociais. Em tempo: Zelaya nunca foi socialista, apenas propôs discretas reformas sociais e um plebiscito.
Anúncio da Air France, publicado na Revista Época de maio (dias antes do acidente com o AF-447).
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Fui indiscreto mesmo. Li na cara de pau, por cima dos ombros do passageiro à minha frente.
Mas não me culpo, o título do livro era instigante demais: Distraídos venceremos (Paulo Leminsky).
Cheguei ao trabalho; teclei no google; achei o livro: e devorei o pouco que não consegui ler nos 40 minutos no ônibus.
Dois bons trechos:
Bem no fundo
(...)
Problemas têm família grande,
E aos domingos saem todos a passear
O problema, sua senhora
E outros pequenos probleminhas.
Plena pausa (...)
Nunca houve isso,
Uma página em branco.
(...)
No fundo, todas gritam,
pálidas de tanto.
Veja: Milk - a voz da igualdade (Gus Van Sant)
Ouça: Seres Verdes ao redor (Supercordas)
Leia: Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach) posted by RFerraz
10:19 PM