Um grande amigo, que atende pelo apelido de Barata, possui como maior virtude sua presença de espírito. Reforçada, dia desses, quando na chegada à praia me apresentou um delicioso livro, de título “Lições de um Ignorante”, de Millôr Fernandes.
Por coincidência – ou não, diante da imensa presença de espírito já destacada do meu amigo - abri o livro e dei de cara com uma das melhores crônicas da publicação. Boa degustação!
Barata à Vista
A barata é a mais lídima das aquisições democráticas do mundo. Quase toda a casa a possui. Aos pobres lhes cabe melhor quinhão desses insetos, muito embora o Sr. Guinle não possa se queixar pois o Copacabana também as tem apesar de todo o DDT. Pertencendo à família das BLATÍDEAS, muito conhecida nos buracos de rodapés, cantos de estantes, fundos de arquivos e de gavetas, as baratas têm hábitos próprios interessantíssimos com os quais me familiarizei nos meus longos anos de pertinaz contato com arcanos e alfarrábios.
Para se lidar com baratas há quem acredite em inseticidas e baraticidas. Como em tudo mais, acredito em psicologia. Para se aplicar a psicologia é preciso um certo método e uma vasta disciplina. Vejamos.
Encontra-se a barata. Para se encontrar uma barata não é preciso muito gasto de energia. Em geral ela nos procura. E mais em geral ainda ela vem ao meio de nossos dedos quando pegamos aquela pilha de livros que estava embaixo da escada. No momento em que sentimos a barata presa em nossos dedos um sentimento de horror inaudito corre nossa espinha. Largamos livros, agitamo-nos furiosamente, batemos no chão, nos móveis e nos livros com o primeiro pano ou jornal que se nos depara, mas, a essa altura, a barata já estará longe, escondida numa das 365 mil páginas dos 870 livros que espalhamos no chão. Como encontrá-la? eis o problema. Esse problema, depois de acalmados nossos nervos e esfregadas nossas mãos com sabão e bastante álcool, é que procuramos resolver.
Existe, para se pegar uma barata, dois processos distintos. Um é chamar a empregada e dizer: "Tem uma barata aí! Quero isso bem limpo!" e virar covardemente as costas. Dessa atitude pode resultar que a barata atinja um extraordinário grau de longevidade pois a empregada passará um pano nos livros e jogará por cima deles um pouco de DDT, dando-se por satisfeita. A barata também. E daqui há seis meses, quando você for pegar aquele velho exemplar de Balzac, terá a desagradável surpresa de ver, à página 276, olhando-o com aqueles olhos brejeiros e aquelas antenas irônicas que lhe são próprios, a mesma barata que você tinha condenado à morte. Vocês fitar-se-ão demoradamente. Ela continuará baloiçando as antenas. E você, depois de um segundo de inércia, saltará para o ar, jogará o livro para o outro lado e berrará femininamente.
Pois eis que as baratas têm o extraordinário poder de nos afeminar a todos, afirmativa essa que se aceitará sem contestação se se atentar para o grande número de baratas que há em nossos teatros.
Portanto não se deve virar as costas a uma barata, como fazem os elementos da ribalta, mas sim enfrentá-la masculamente. Para isso precisamos, antes de mais nada, saber se a barata é uma BLATÍDEA comum ou se é uma PERIPLANETA AMERICANA, ou, em linguagem menos científica, uma dessas baratas que voam. Se é dessas aconselho o leitor a desistir de qualquer pretensão máscula, arrumar as malas, fechar as portas de sua casa e entrar para o Teatro.
Agora, se é das outras, sempre há recursos:
1 — Pegue um Correio da Manhã bem dobrado, deixando à mostra o artigo de fundo. Sacuda os livros e espere, trepado numa cadeira. Atente sobretudo para o estilo de bater quando a barata surgir. Lembre-se: o estilo é o homem.
2 — Quando a barata surgir bata de uma vez. Não durma na pontaria. Ela normalmente pára um pouquinho, para sondar o ambiente cá de fora e confrontá-lo com a literatura em que vive metida. esse o momento de atacar.
3 — Trate de verificar se o inseto em que você está batendo é uma barata ou um barato. Nunca se esqueça: o barato sai caro.
4 — Nunca aproxime e afaste o jornal para fazer pontaria. As baratas sabem muito bem o que as espera quando sentem esse ventinho, quando você bater de verdade ela já terá embarcado para a Europa.
5 — Não tenha pena de bater. Bata firme, forte, decididamente. É a vida dela ou a sua. Se você não a matar terá que passar a existência inteira alimentando-a a inseticida.
6 — Não se importe com as coisas que o cercam. Afinal de contas que são meia dúzia de copos partidos, um tapete manchado, dois livros com as páginas rasgadas e uma perna de cadeira quebrada se você conseguiu eliminar uma barata?
7 — Se falhar, só a paciência lhe dará outra oportunidade. A barata não lhe dará outra tão cedo, enquanto permanecer em sua memória o trauma da pancada que quase lhe tirava a vida. Não adianta você sacudir livro após livro porque se recusará a aparecer. Agarrar-se-á às páginas e, se cair ao chão, correrá rapidamente, escondendo-se por trás do guarda-roupa.
8 — Não se deixe levar pela vaidade. Às vezes você atinge uma barata de leve e ela vira-se de barriga para o ar agitando as perninhas ininterruptamente, com a expressão de quem está dando uma gargalhada, achando você engraçadíssimo. Isso poderá lisonjeá-lo mas não a poupe por esse motivo.
9 — Às vezes elas tentam outro truque sentimental. Atingidas de leve elas vão se arrastando tristemente, de vez em quando olhando para você com um olhar que 1he dilacera o coração, como quem diz: "Seu malvado, viu o que você fez?" Antes de começar a chorar bata até matar. Depois chore.
10 — De seis em seis meses faça um teste consigo próprio para ver se você está mais desbaratador do que no semestre anterior. Se a resposta for negativa não esmoreça. Continue lutando até que possa, como nós, cobrar caro pelas lições administradas. E essa é nossa última recomendação: cobre sempre caro pelos seus conselhos nesse setor. Não se barateie! posted by RFerraz
12:22 AM
Ouça: Silêncio na multidão (Cidadão Instigado)
Veja: Zona do crime (Rodrigo Plá)
Leia: Uma árvore de Natal e um casamento (Dostoiévski) posted by RFerraz
11:36 AM
- Não creio em sorte ou azar. Minha teoria é de que tudo é força do acaso. Se foi azar determinada opção sua... paciência! O acaso lhe oferece infinitas possibilidades. Alguma tem que ser escolhida. Sorte e azar é uma explicação sobrenatural nossa diante dessas escolhas...
- OK! Mas também não acredito que sorte seja algo místico, sobrenatural. É você constatar que escolheu bem, que deu sorte na hora de trilhar suas escolhas...
- Mas quando você escolhe algo, automaticamente já está excluindo outras possibilidades, certo?
- Sim.
- E em determinado momento uma escolha sua pode ser considerada um lance de sorte. E mais para frente exatamente o contrário, não é?
- É. Mas é que na verdade acho que o ‘sim’ é que move as coisas. Isso que importa. É ele que te ajuda a construir a sorte. Acho que a sorte é o ‘sim’ na medida certa.
- Hã? Explica isso direito...
(Nesse momento, os copos são reabastecidos)
- 'Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida'. Quem disse isso foi Clarisse Lispector.
- Êpa! Calma lá: o ‘não’ é, por si só, também um ‘sim’! Porque quando você escolhe negar algo, está afirmando alguma coisa. Mesmo que seja afirmar o seu ‘não’.
- Pode ser. Mas há milhares de ‘nãos’. E alguns ‘sins’. O sim é uma atitude, é a saída da inércia...
- Sei não. E sabe o que mais? Entre o sim e o não o que conta mesmo é justamente seu inconsciente! Como dizia Freud, é ele que move você. É onde ficam armazenados os sentimentos, pensamentos e experiências que reprimimos. Tiramos do nosso consciente por conforto. Esse processo da repressão é em si mesmo um ato não-consciente, sacou? Mas na hora ‘H’, o inconsciente fala alto e influencia diretamente nas suas escolhas.
- E... ?
- Logo, se a grande maioria das suas escolhas são manifestações do seu inconsciente – e por isso, incontroláveis – e se o destino não passa de uma sucessão de acasos... sorte e azar é balela! Não se pode explicar nada disso de forma simplista ou sobrenatural assim não!
Por ser de lá do sertão
Lá do cerrado
Lá do interior, do mato
Da caatinga, do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado
Por ser de lá
Na certa, por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada
Caminhando a esmo
Veja: Antes de partir (Rob Reiner)
Ouça: Shiver (Cold Play) posted by RFerraz
5:51 PM
A mariposa, coitada, mal sabia que iria servir de cobaia numa das lembranças mais doces da minha infância.
Numa tarde qualquer, daquelas monótonas do pós-escola, meu irmão e eu assistimos atônitos à invasão do quarto por aquele estranho inseto (ainda mais estranho diante da nossa tenra idade). Depois de saciada a curiosidade visual, a idéia: capturamos o bichinho, que foi parar num pote plástico. Que tivemos o cuidado de furar para que não faltasse ar. Em seguida, o congelador.
Lá a mariposa foi brevemente esquecida, enquanto nos divertíamos com alguma outra coisa. Quando nos lembramos do bichinho, já haviam se passado alguns gelados minutos.
Retiramos a pobre mariposa do congelador. Uma camada branca e fina de gelo cobria todo o seu corpo, agora completamente duro. Depois de algumas risadas de excitação, outra idéia (e essa seqüência para mim simboliza a imensa diferença entre espontaneidade infantil e o ceticismo adulto): colocamos a mariposa embaixo da nossa luminária.
A alta temperatura da lâmpada fez a fina camada de gelo sumir em alguns segundos. E de repente... zum! Como num surto ressuscitador, a mariposa saiu voando pela janela! Sumiu rapidamente, deixando, naquele quarto, duas crianças estupefatas. Assombradas pelas possibilidades que aquela pequena experiência fez nutrir.
Logo após esse episódio, me lembro de ouvir a lenda do Walt Disney – que estaria congelado para retornar à vida em outra época. E na minha saudosa infância, me recordo de sempre afirmar, com fé ardorosa: sim, aquilo era possível. Eu já havia presenciado coisa parecida. E tinha testemunha!
Já não acredito mais nesse tipo de coisa. Entre a mariposa e o Walt Disney sei que há um calor causado pela ausência das ilusões infantis. Que ajudou a derreter, aos poucos, minha camada de inocência, meus sonhos de menino...
Ouça: O caderno (Chico Buarque)
Veja: A culpa é do Fidel (Julie Gravas)
Leia: Inocência (Visconde de Taunay)
O homem sentou-se no bar como se fosse um divã. E puxou papo comigo, seu analista talvez:
'O quê? Tá pensando que você é você? Nada disso, você é um número! E só.'
Cocei a cabeça. Fiz sinal de afirmativo. Cheguei mais perto.
'Um CPF, uma identidade... um título qualquer que passa por cima de toda sua história. Sem aquilo não há comprovação de que você é você!'
Pura verdade, pensei.
'Que se fodam suas intrigas e seus perrengues, sua histórias, convicções e vitórias. Sem o número você não é ninguém!'
O pseudo-sábio-bêbado desencadeou uma antiga reflexão minha. Desde adolescente, quando fiz meu primeiro CPF, já me indagava acerca da necessidade de se atestar tudo no mundo de hoje.
Nada é o que é sem comprovação. Sem um pedaço de papel, um número, um registro você não é você, o que você disse não está atestado, o ocorrido pode não ter acontecido. Precisa de contrato, assinatura, reconhecimento, testemunha.
O mundo evoluiu (?) a ponto de tudo ser duvidoso. Discuti em sala de aula quando um professor disse que a história oral é sempre frágil diante da história escrita. E a cultura indígena, cara pálida? Toda uma memória coletiva construída com palavras. Apenas.
O que deixamos de entender é que essa incessante necessidade de comprovação fez crescer o seu oposto: a mentira. Esse ar de desconfiança eterna fortalece a inverdade, como a maçã de Adão e Eva. É sedutor mentir de forma comprovada. Atestar, funciona como repetir uma mentira: se torna verdade.
Daí em diante soa até estranho cobrar ética num contexto em que se pode falar agora e desdizer depois. Sem comprovação daquilo, nada foi dito ou prometido. É tudo escorregadio.
Pois, paradoxalmente, somos cidadãos de papel também na contramão dessa argumentação. O papel atesta nosso direito à segurança, moradia, educação, dignidade... E, no entanto, onde estão esses mesmos direitos básicos? Ah, sim: no papel. E de lá parece que não sai. Contraditório, não?
Ouça: Cidadão de Papelão (Teatro Mágico)
Veja: O passado (Hector Babenco)
Leia: Cidadão de Papel (Gilberto Dimenstein)
Dia desses, na aula de Cinema e História, fiquei espantado ao saber que nenhum (eu disse nenhum!) dos meus colegas teve a mesma oportunidade, nem ao menos uma vez. Daí entendemos alguns porquês do nosso país....
Agradeci por dentro por ter estudado numa instituição que valoriza esse tipo de coisa.
Abaixo o link para um dos melhores documentários que já vi. E também a ficha técnica.
FICHA TÉCNICA ILHA DAS FLORES
Gênero: Documentário Experimental
Diretor: Jorge Furtado
Narração: Paulo José
Ano: 1989
Duração: 13 min
País: Brasil
Prêmios
Urso de Prata no Festival de Berlim 1990
Prêmio Crítica e Público no Festival de Clermont-Ferrand 1991
Melhor Curta no Festival de Gramado 1989
Melhor Edição no Festival de Gramado 1989
Melhor Roteiro no Festival de Gramado 1989
Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1989
Prêmio do Público na Competição "No Budget" no Festival de Hamburgo 1991
Leia: O bicho (Manuel bandeira) posted by RFerraz
3:49 PM
Chego à estação. Nove da manhã, já repleta de Saens Peñas, presos aos nós de suas próprias gravatas.
A viagem segue tranqüila (ao som do Led). Até que entram vários Estácios. Apressados, se amontoam pelo vagão. Um típico Estácio, aliás, pára à minha frente. Pulseiras e relógio de 'ouro' se apossam da única barra de apoio ainda vaga.
Eis que chegam os Centrais. De características bem próximas aos anteriores – pois também aparentam correr contra o tempo. Culpa, talvez, da sua lógica, centrada no ultrapassar de obstáculos, que os deixa nesse ritmo mais 'febroso'. Intenso.
Aos poucos o trem vai despachando alguns Presidentes Vargas, outros Uruguaianas, Cinelândias, Glórias, Botafogos...
Restam, ao fim, alguns Cardeais Arco Verde, Siqueiras Campos ou Cantagalos, quem sabe? Se confundem com trajes de banho por debaixo das roupas de uns poucos (que exibem semblantes amenos). O dia de sol lá fora! A cadeira de praia no metrô.
À noite é diferente. Me junto aos Linhas 2. Pipoca, correria e promoção têm de montão. A carência aqui é outra: espaço, conforto (às vezes um desodorante). É por uma estação só. Mas vale por 10.
Dia-a-dia antropologicamente farto esse. Exemplos reais de uma cidade partida, antagônica. Que se mistura por alguns instantes.
Esse vídeo a seguir virou febre no Youtube (sempre ele, grande invenção humana!), principalmente depois que César Maia publicou-o em seu ex-blog.
E é realmente lindo.
Detalhes de comentários que li, para os quais vale atentar:
- O filme só mostra 'um lado' da cidade e omite uma 'cidade oculta', de cortiços que começavam a migrar para as favelas (o início de tudo).
- Imagem em movimento e em cores, o que é raro para a época (1936)
- Trilha sonora levemente cômica e o enfoque propagandístico (que vão de encontro à Política da Boa Vizinhaça praticada entre os EUA e o Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial).
- Roteiro informativo e bem pesquisado, desmentindo um pouco a lendária ignorância americana com relação ao Brasil.
- Cenários que não existem mais, como os palácios Monroe e do Mourisco, e vistas hoje impossíveis, como a do Morro da Conceição, ainda bem visível ao fundo de uma Praça Mauá bem ordenada, ou ainda, a Cinelândia tinindo de nova!
- A limpeza da cidade e seus ângulos inusitados.
- O momento do encontro das raças, também um encontro de classes, com a menina que se abriga no colo da babá.
- O que se observa é que até 1936 a intervenção humana não ameaçava a paisagem natural como perspectiva. O Pão de Açúcar era visível da Praça Mauá, o morro da Glória completava a Praça Paris antes da construção dos grandes prédios.
- -Fica, ao final, a fantasia de que tudo poderia ter sido diferente, para melhor.
Epifania
O dia em que os cariocas pararam de consumir drogas
LOCUTOR:Bem-vindos à primeira edição do 'World motion' de 2010. Neve lá fora? Se agora você estivesse do outro lado do mundo, no rio de Janeiro, poderia estar tomando sol e caipirinhas na praia... E talvez sendo assassinado. Sim, pessoal, blame it on Rio. Vocês devem se lembrar que há exatamente 1 ano, aquela aprazível cidade brasileira passou pro um fenômeno social único, que os próprios cariocas passaram a chamar de 'A epifania'. No dia 1º de janeiro de 2009, todos os moradores pararam de consumir drogas ilegais, e a cidade que até então parecia dominada por traficantes, se viu, de repente, sem demanda, sem consumo, sem tráfico. Sociólogos, psicólogos, teólogos e todo tipo de expert já tentaram analisar esse fenômeno do inconsciente coletivo local, sem sucesso.
Para tentar jogar alguma luz sobre a utopia carioca que virou realidade, vamos conversar por telefone com José da Silva, direto do Rio de Janeiro. A profissão de José é um tanto quanto difícil de traduzir, ele se apresenta como 'pensador de botequim', mas enfim...
P: Sr. Da Silva, como está a situação do Rio um ano depois daquilo que se convencionou chamar de 'A Epifania'?
R: De mal a pior. Os índices de latrocínio , seqüestro e invasão a domicílio aumentaram terrivelmente. E há anos tínhamos certeza de que a barreira do insuportável já havia sido rompida.
P: O senhor pode explicar para os nossos ouvintes o que foi 'A Epifania'?
R: Nem Jung explica. Simplesmente aconteceu. Ao longo dos anos 2000 os nossos governantes começaram a fazer divulgação maciça de um truísmo simples, depois enfatizado por alguns filmes de sucesso: o usuário de drogas sustenta o tráfico. Óbvio, não? É claro e incontestável que não existe oferta sem demanda, que o dinheiro do usuário de classe média ia para as mãos do traficante, e assim sustentava uma vasta rede de crime desorganizado e violento. Desse truísmo surgiu o silogismo: o usuário de drogas da classe média é responsável pela violência urbana no Rio.
A princípio esse silogismo parecia irrelevante, pois apontava como solução uma utopia irrealizável, uma sociedade sem drogas, coisa que não existia em nenhum lugar do mundo. Mas não é que aconteceu? De repente, todo carioca parou de consumir qualquer droga ilegal. Nem mais uma trouxinha de maconha, nem mais um grama de cocaína foi vendido no Rio, um caso único na História da humanidade. Apenas fanáticos se satisfizeram com explicações religiosas, fora isso, ninguém conseguiu até hoje entender esse fenômeno. Não é uma explicação, mas a única conclusão possível é que esse silogismo foi tão repetido que todo mundo passou a acreditar nele, por mais manco que fosse desde o início.
P: Mas não era verdade que o consumidor financiava o tráfico e que este promovia a violência?
R: Claro que era. Mas no Rio de Janeiro não se consumia mais cocaína e afins que em Nova York, ou qualquer outra grande cidade. Então por que aqui a violência ligada ao tráfico era maior, mais acintosa que em qualquer outro lugar do mundo, a não ser, talvez, a Colômbia? A lógica internacional do traficante é ser o mais discreto possível, pois quanto menos atenção chamar para o comércio ilegal, mais fácil para ele conseguir com seu negócio obter lucros. Por que aqui não era assim? Porque havia outros fatores em jogo, mas não se falava deles, só do tal silogismo, atendendo a outros interesses?
P: 'Outros interesses'? Vem aí alguma teoria conspiratória?
R: Não, não, os interesses eram claros como água. O silogismo foi difundido por governantes populistas. Jogando a culpa para o consumidor de classe média, eles desviavam a atenção de si mesmos. Décadas de inação, incompetência e corrupção em progressão geométrica criaram uma situação explosiva no Rio de Janeiro. Um profundo abismo social, em que o Estado simplesmente deixou de cumprir suas obrigações básicas de fornecer justiça, educação, saúde e segurança a grande parte da população, que convivia a poucos passos das elites. Dizer que a responsabilidade pela violência urbana era do consumidor de drogas foi a forma mais simples que estes governantezinhos encontraram para desviar atenção do óbvio: os principais responsáveis eram eles próprios, que não cumpriram com as obrigações constitucionais dos cargos para que foram eleitos.
P: Se esses interesses eram tão claros, por que a população se deixou convencer?
R: Provavelmente porque o silogismo foi ao encontro da mentalidade escravocrata das classes médias e alta do Rio e do Brasil como um todo. Havia uma expectativa de que, sem a demanda, todas as pessoas que até então viviam do tráfico iriam magicamente aceitar as condições da miséria. O brasileiro de classe média no fundo acredita que quem não entra no mercado formal de trabalho não o faz porque não quer, acha que o pobre tem que se conformar, saber seu lugar. Só que essa parte da utopia não se cumpriu. Acabou a demanda, as drogas, o tráfico, tudo num passe de mágica. Mas não mudaram os motivos pelos quais um garoto de 12 anos criado com esgoto a céu aberto optava pelo do crime: falta de perspectiva, de educação, de infância, de tudo.
P: Acho que nos adiantamos um pouco. Pode nos contar o que aconteceu depois da 'Epifania'?
R: Demorou um pouco para chegarem aos jornais as primeiras notícias da queda abrupta do consumo de drogas no Rio. Quando se conseguiu dimensionar a situação, houve um êxtase generalizado de pura esperança. A venda de drogas fazia com que muito dinheiro circulasse rapidamente, dando ao crime desorganizado acesso a armamento pesado. Sem liquidez, os traficantes não puderam renovar seu estoque de munição e tiveram que vender com prejuízo grande parte do seu arsenal. Daí parecia que a violência urbana baixaria a níveis insignificantes. Mas não foi o que aconteceu. Toda parte da população que subsistia e/ou enriquecia através do tráfico passou a cometer outros tipos de crimes. O índice de latrocínios, que já era alto, virou exponencial. A troca do AR15 pelo facão de cozinha não impediu que os homicídios continuassem a escalar. A violência urbana se modificou, mas não melhorou.
P: O Sr. Está se concentrando nos crimes cometidos pelas camadas mais pobres da população. E os jovens de elite que caíam na criminalidade ligada ao tráfico?
R: Fora os que simplesmente migraram para o seqüestro e o latrocínio, houve os que começaram a formar organizações de vigilantes de extrema-direita. A impunidade continuou igual, o playboy rico, o pitboy, que antes vendia drogas sintéticas na praia ficou sem mercado, mas continuou se sentindo seguro para fazer o que bem lhe aprouvesse, alimentado pela impunidade e pela mesma mentalidade escravocrata de superioridade. Ele apenas redirecionou a sua violência.
P: Você está sugerindo que antes da 'Epifania', o comércio de drogas foi um fator de distribuição de renda e equilíbrio social no Rio?
R: Seria cruel demais pensar assim. O tráfico de drogas gerou tragédias sociais e individuais terríveis, ninguém o quer de volta. O que estou dizendo é que as causas da violência hoje são as mesmas de antes da 'Epifania'. Incompetência, corrupção, impunidade em todos os níveis do poder público, ausência de expectativas no mercado formal de trabalho, falência total dos sistemas, incluindo aí o de educação, de saúde, o judicial, o penitenciário. Agora ficou claro que a violência do tráfico era mais um espelho de tudo isso do que o mal em si.
P: Mas uma vez o Rio de Janeiro alcançou a utopia de ser uma cidade sem tráfico e mesmo assim a violência urbana não recrudesceu, imagino que a sociedade esteja aberta a uma discussão mais profunda sobre as razões da violência, cobrando atitudes de seus governantes em relação à melhoria da educação e da...
R: (riso descontrolado) Cara, você não conhece o carioca.
(Ficção de João Ximenes Braga, escritor e colunista. Publicado no Jornal O Globo de 06 de janeiro de 2008 no Logo - página móvel) posted by RFerraz
4:26 PM
O mais intrigante, e ao mesmo tempo sedutor, de se estudar História é constatar a influência de fatos 'menores', da ação de agentes que passariam como insignificantes, em grandes transformações do passado.
Dia desses tive contato com uma das provas mais interessantes de que a história gira em torno de fatos corriqueiros, que se desenrolam bem ali debaixo de nossos narizes e podem, no entanto, fazer uma revolução radical em nossas vidas. A Peste Negra.
A doença - que não era novidade, pois seus primeiros indícios datam de 1300 a.C - fez um baita estrago, dizimando um terço da população européia durante a epidemia do século XIV.
A peste era facilmente transmissível. Há também relatos bizarros sobre pessoas que ao se descobrirem infectadas, cuspiam, revoltadas, na água que outros iriam beber.
Porém, o mais intrigante, e o que me fez refletir sobre a fragilidade da vida e a 'pequenez' dos detalhes de grandes fatos, foi a Peste Negra ser oriunda do vômito da pulga dos ratos!
Esse minúsculo inseto, e seu perigoso regurgito, foram responsáveis por uma das doenças mais fatais da história. Que, junto com outros fatores como a fome e as chuvas, amedrontou a Europa e abalou a economia. Influenciando diretamente na Crise do século XIV, comprometendo seriamente o feudalismo vigente e abrindo as portas (e as pernas) para o capitalismo que reina até hoje.
'Cidades ricas foram destruídas e abandonadas pelos seus habitantes desesperados à procura de um lugar com ar puro e sem pessoas infectadas. Os servos morriam e as plantações ficavam destruídas por falta de cuidados' (Hilário Franco Jr. - Idade média: nascimento do Ocidente)
Um último dado, que também revela uma ironia (negra) em nossos tempos de embate de paradigmas Ocidente X Oriente: há fortes indícios de que esses ratos e suas pulgas, que ajudaram a transformar a realidade ocidental, eram trazidos pelos navios... do Oriente!
Ouça: Partiu partindo (Fino Coletivo)
Veja: Vanilla Sky (Cameron Crowe)
Leia: A estrutura da bolha de sabão (Lygia Fagundes Telles) posted by RFerraz
12:34 PM